"Se olharmos para uma coluna de formigas no seu perpétuo vaivém, repararermos por certo que há sempre umas quantas que se deixam ficar para trás ou que se enganam no caminho. A coluna não tem tempo para elas; e prossegue a sua marcha. Por vezes, as formigas que ficam para trás acabam por morrer. Mas mesmo isso não causa grande perturbação na coluna. Há um ligeiro e breve tumulto à volta do cadáver, que acaba por ser levado pelas outras - e que leve que é esse cadáver, pensamos nós. E a grande azáfama prossegue sem qualquer quebra. As formigas, viajando em sentidos contrários, para e a partir do ninho, mantêm inalterável essa óbvia socialibilidade, esse persistente ritual de encontro e saudação."
V.S Naipaul, em "A Curva do Rio"
Carlos Guimarães Pinto, em O Insurgente
Dificilmente poderei ser considerado um conservador nos costumes. Sou a favor da legalização total das drogas, do jogo e contra a existência do crime de lenocínio. Acho que o contrato de casamento não deve ser tipificado, mas a sê-lo não deverá impôr restrições de género ou número. Acho que um casal deve poder recorrer aos métodos que achar necessários para constituir família desde que não viole os direitos de outrém, e considero a institucionalização como o pior destino possível a dar a uma criança que perca os pais biológicos.
Foi, assim, quase com naturalidade que tomei posição em favor da legalização do aborto há uns anos atrás. Os argumentos eram quase lógicos e o simples abanar da bandeira da liberdade da mulher utilizar o seu corpo, apelava aos meus instintos libertários. Também contribuiu para esta posição uma simples tomada de consciência de que, a certa altura na minha vida, se tivesse tivesse acontecido contribuir para uma gravidez indesejada, provavelmente teria patrocinado um aborto. Considerei que seria hipócrita não apoiar a legalização de algo que eu teria incentivado no passado se tivesse caído nessa situação.
Desde que o aborto foi legalizado em Portugal, ocorreram 80 mil abortos. Sugiro ao leitor que pare e tente visualizar este número. Este número corresponde a um estádio da luz cheio ou ao número de crianças em 500 escolas primárias. Corresponde a cerca de 16% de todas as crianças nascidas no mesmo período de tempo. Não tenho preparação para discutir questões filosóficas ou médicas sobre quando efectivamente acontece o início da vida, mas segui a discussão o suficiente para saber que não existe consenso científico em relação a esse momento (da mesma forma que não existiu consenso científico em relação ao estatuto de ser humano de Índios e escravos no passado). Na altura, assumindo a dúvida, pensei que o melhor fosse deixar à mulher a opção. Assumo agora que estava errado.(...)
"(...) Hoje, alimentados pela dúvida legítima sobre o momento exacto do início da vida, temos duas opções. A primeira opção é assumir-se pró-vida e arriscar-se, quando a dúvida for desfeita, a ser acusado de ter contribuido para a limitação da liberdade das mulheres. A segunda opção é defender a liberdade de escolha e arriscar-se, se vier a haver consenso de que a vida de facto começa no momento da concepção, a ter sido cúmplice de uma das maiores chacinas da história da humanidade. Entre as duas opções, a que me aterroriza mais é a segunda. No primeiro caso poderemos sempre argumentar que a liberdade da mulher utilizar o seu corpo esteve sempre presente, mas apenas até ao momento da concepção. Aterroriza-me muito mais pensar que poderei estar hoje no papel do pequeno funcionário público alemão que despachava as roupas dos judeus assassinados. Aterroriza-me pensar que ao aceitar o aborto como um acto legal e, pior do que isso, banal, fui cúmplice menor no assassinato de 80 mil vidas humanas. Quando daqui a 40 anos se realizar o aborto 1,000,000, e me questionarem porque fui complacente, irei mostrar este texto. Temo que não me irá absolver por completo".
Na integra, aqui.
- O Simão hoje bateu-me e eu depois e bati-lhe.
- Mas não devia, ainda por cima ele é mais pequeno!
- Ele bateu-me primeiro!
- Então falava; não se bate.
- Eu falei depois de lhe bater.
- Quando eu for adulto já posso mentir?
Ciúmes
Não há sentimento mais sincero do que este. Mais grandioso e nobre. Os ciúmes são um sentimento bom em forma de defeito. É gostar bem de mais e gostar demais. Sem cerimónia, preconceito ou edição. É gostar em bruto e não tentar sequer disfarçar. É gostar tanto, tanto que o gostar transborda e inunda a parte dos nosso cérebro que comanda os maus sentimentos, como a inveja, a obsessão e outros irritantemente autodestrutivos.
O ciúme é uma coisa híbrida e avassaladora que nos incomoda e nos entristece. É quase o contrário de amar, sendo amar em demasia. Mas é bom porque é por uma boa causa: é sempre por causa de nós ou por causa de alguém que amamos.
Ser motivo de ciúme de alguém é por tudo isto a melhor coisa do mundo, é o maior elogio que se pode ter. Na verdade é a maior prova de amor que alguém pode dar ou ter.
Por isso é que eu não me importo nem um bocadinho quando os meus filhos quase que se matam uns aos outros por um lugar no sofá ao pé de mim. Imaginem: por causa de uma porcaria de um lugar no sofá; eles lutam para estarem dez minutos da vida deles enroscados no meu braço. E eu não fiz nada por isso. Eles amuam, choram mesmo, se eu brinco mais com um do que com outro, se eu dediquei mais dez segundos a fazer cócegas a um do que a outro, se eu sorri uma ou duas vezes (porque eles contam cada sorriso). Ou seja, se eu não estou em exclusividade para cada um deles, eles lutam. Para cada um dos meus filhos eu sou mãe de filhos únicos, sou fiel apenas a um, tenho quantos filhos tiver. E numa relação de exclusividade não se admitem infidelidades. No fundo eu devo ser mãe de um filho só, ou sou uma mãe do tipo galdéria.
Os meus filhos são tipo filhos mosqueteiro, lutam por honra: eles lutam por aquilo que mais gostam: por mim. Haverá guerra mais nobre do que esta?
A maioria dos filhos tem um enorme problema com os respectivos pais: as expectativas. O problema é este: os pais têm uma coisa estúpida a que se deu o nome de “expectativas em relação aos filhos”. “Ah, eu tenho imensas expectativas em relação a este meu filho, acho que el vai longe, muito longe, ele tem a testa muito alta… ”. É assim como a expectativa que se tem em relação ao Sporting no início da época, “Este ano é que vai ser!”. E este é um enorme problema para os nossos filhos (assim como é um problema para os jogadores do Sporting) porque a verdade é que eles não prometeram nada. Nem que ganhavam, nem que iam ser cientistas famosos, ou líderes carismáticos ou sequer jogadores de futebol. A coisa é tão estúpida que existem mesmo casos relatados em que o pai tem a expectativa de que o filho macho vai ser um dos grandes do futebol mundial porque dá imensos pontapés enquanto está dentro da barriga da mãe. que revela um talento verdadeiramente inato.
No entanto, os filhos apenas nasceram: não enviaram currículos, nem concorreram a um concurso de nascimentos. E nasceram sem qualquer expectativa, quer em relação ao seu futuro quer em relação à qualidade dos pais que lhes calharam na rifa. Eles querem viver como lhes apetecer e sem garantias. Aliás, a verdade é que nunca pensaram no assunto. Ora, à conta desta expectativa, os pais passam grande parte da vida dos filhos em busca de uma qualquer característica especial no desgraçado do filho: se ele não é bom a desporto é porque é bom a matemática, se não é bom estudante deve ser bom artista, senão é popular é porque é genial, se não é lindo é porque tem imenso estilo. Mas qualquer coisa tem de ser, qualquer coisa de extraordinário e mais do que os outros. E esta é uma expectativa que acompanha toda uma relação absolutamente asfixiante durante os primeiros anos de vida dos filhos. Até que finalmente torna-se evidente que as expectativas são apenas falsas. Quer em grau, quer em género e sejam elas de que tipos forem. Os filhos até podem superar expectativas, mas raramente é como os pais programaram. No fundo, é uma perca de tempo. Sendo que a maior injustiça disto tudo é que os filhos não têm qualquer expectativa em relação aos pais: eles acham que os pais são sempre excelentes, mesmo quando não têm a testa alta.
Pontos prévio e evidênciasa propósito de um comentário a este post, que reza assim:
"há evidências do facto de que as crianças precisarem de amor e carinho! Não é o sexo de quem cuida delas, mas sim o amor e carinho com que são cuidadas. A questão não é o sexo de quem as adopta, mas sim o amor, carinho e estabilidade que lhes é proporcionado. Seja ele providenciado por casais de sexo diferente, do mesmo sexo, pessoas individuais, avós, tios, primos ou amigos, pessoas saudáveis, pessoas com doenças ou pessoas com deficiência".
"Todas as crianças têm direito a um beijinho de boa noite.
TODAS!
Todas as crianças têm direito a um beijinho de manhã quando acordam.
TODAS!
Todas as crianças têm direito a colo, só por colo.
TODAS!"
Isto é óbvio. Até aqui estamos de acordo.
As águas só se dividem aqui:
Todas as crianças devem ter uma filiação composta por pai e por mãe. Porquê? porque qualquer criança é gerada por um pai e por uma mãe, por isso, seguindo o percurso de vida, ela deve nascer e crescer dentro de um seio familiar composto por pessoas de sexo diferente que a geraram. Ou seja, se não se colocasse a problemática da adopção, esta discussão nem sequer existia. Todos damos como garantido e como correcto que as crianças nascem porque são geradas por pessoas de sexo diferente. É assim a vida, goste-se ou não.
Ora este é o princípio e a excepção deve ser mesmo isso, uma excepção. Um pai ou uma mãe sozinhos não é o mesmo que dois pais ou duas mães do mesmo sexo. Um pai ou uma mãe sozinhos, é uma filiação incompleta e sempre excepcional e não uma filiação diferente.
Se se determinar que a filiação é composta por dois pais e duas mães, e porque existem crianças para serem adoptadas que não o são, é porque a sociedade considera que a filiação de uma criança é absolutamente indiferente, desde que ela exista. Ou seja, que o superior interesse da criança por adoptar está em que ela tenha uma filiação, seja ela qual for, e que cabe aos técnicos verificar (na medida do possível) se os candidatos à parentalidade são capazes de lhe proporcionar bem estar, amor, etc. Ora, sendo assim, e seguindo esta lógica, deve caber aos técnicos definir em cada caso quem melhor pode cuidar de uma criança. Independentemente do modelo de família/casal. Considero que isso é um erro, porque representa a desresponsabilização do Estado numa matéria essencial como é a filiação dos cidadãos.
E é aqui que surgem duas opiniões opostas: quem considera que é irrelevante para a sociedade os seus modelos de família e quem considera que eles são relevantes. Ora, só neste âmbito é que este tema pode ser honestamente debatido.
Em nome do superior interesse da criança defendo que a batalha a travar é contra os complicados e kafkianos processos de adopção. Enquanto não se consertar esta máquina, esta discussão não vem ao encontro do superior interesse da criança. Nem acho que venha ao encontro do interesse de quem quer que seja. Nem superior, nem inferior.
Questões verdadeiramente fundamentais, fraturantes e da mais elementar justiça que eu até sei as respostas (nem todas), mas não quis ficar com as questões só para mim, que são subjacentes ao seguinte tema: direito de adopção por casais de homossexuais ou, por outras palavras, direito de se ser adoptado por casais constituídos por pessoas do mesmo sexo:
- Porque é que os casais de pessoas do mesmo sexo querem adaptar/recriar modelos de família conservadores que são originais de casais de pessoas de sexo diferente?
- Se duas pessoas do mesmo sexo não podem gerar filhos, como é que podem, afinal, ter filhos, se de facto não podem?
- O que é o superior interesse da criança e quem o define?
- Ser adoptada por casais de pessoas do mesmo sexo vem ao encontro do superior interesse da criança? Como é que sabem?
- Se são os técnicos da segurança social que melhor sabem avaliar o superior interesse da criança, por que é que não deixamos ao critério dos agentes da PJ a definição da sanção e a criação da moldura penal dos infractores? Afinal, eles é que estão no terreno. Por exemplo.
- Será esta uma questão do interesse superior da criança ou será esta uma questão sobre o interesse superior (ou superior interesse, tanto faz) dos casais de pessoas do mesmo sexo, ou seja, andámos a discutir os direitos e os interesses, ou andámos a debater dos direitos e os desejos dos casais cosntituidos por pessoas de sexo diferente (ou oposto tanto faz)?
- E a Troika, já falou sobre isto?
vou ignorar o fenómeno: se eu não acreditar que os meus filhos passam pela adolescência, eles não passam,. Ele são crianças ou são crescidos. Ou seja, ou alguém lhes dá banho ou eles tomam banho sozinhos - a hipótese adolescente de não tomarem banho deve ser banida.
- a mãe vai trabalhar porque não nos quer aturar, é?
já ninguém se mascára de indio ou de cowboy. Se é verdade que o conceito "cowboys e índios" já estava em crise há uns anos valentes e apenas os cowboys resitiam estoicamente a outras máscaras infantis mais mediáticas e modernas, também deve ser verdade que foi o filme O Segredo de Brokeback Mountain deu cabo do resto do conceito para todo o sempre. Mas sem querer, claro.
Expliquei ao meu filho que se ele não estudar nunca mais se livra de mim.
se ter filhos é incociliável com ler livros, como é que pode ser conciliável com toda e qualquer vida profisisonal?
Há um dia em que acordamos e não sabemos se eles lavaram os dentes ou não, se levaram o casaco, se não se esqueceram do lanche, se tomaram as vitaminas, se cumpriram com todos os trabalhos de casa, quem são os seus amigos, se continuam obcecados pelo FB e pelo MSG, se foram passear com o cão, se deixaram as luzes as acesas, se cortaram as unhas dos pés, se tomaram o pequeno almoço, se vão jantar ou até almoçar. Esse dia, esse fatídico dia, é o dia da nossa emancipação: é o dia em que acordamos e em que a única coisa que queremos saber sobre os nossos filhos é se estão genericamente a passar bem e se são felizes. Em absoluto, é isto.
A conciliação entre a vida profissional e a vida familiar é uma contradição de termos. O conceito de conciliação entre estas duas vidas não existe: não há mais ou melhor conciliação, pura e simplesmente não há conciliação possível. O que existe é uma revolução, um conflito perpétuo e diário, um PREC que nunca termina o seu curso, uma luta pela sobrevivência de cada uma destas vidas. Enfim, uma fatídica batalha entre a vida e a morte em que no final só uma é que se mantém de pé. Falar em conciliação neste tema é o mesmo que falar em paz no Médio Oriente. Vale o que vale.
E isto porque os nossos filhos jamais permitirão que existam tréguas, que haja acordo, que se chegue a um entendimento. Para eles a vida profissional dos pais é uma espécie de Bin Laden que tem de ser caçado e eliminado em nome da paz. E em tempo de guerra vale tudo, não existem regras. Todas a birras, chantagens, pressões psicológicas ou crises emocionais são válidas nesta luta contra a vida profissional dos pais. Sendo que no fim do dia quem sofre são os pais (o povo).
Uma mãe (principalmente) ou um pai vive, por isso, em constante conflito e tem dentro de casa o seu principal inimigo. Os verdadeiros terroristas estão dentro da sua casa: os filhos, os verdadeiros agentes de pressão. Os filhos não percebem porque é que existem outros compromissos além deles, que outras lealdades têm os seus pais, porque raio de carga de água é que a mãe vai trabalhar quando eles estão mais tristes, ou porque é que chegam tarde. Claro que o facto de não saberem ver as horas torna este processo absolutamente insuportável e o conflito ainda mais sangrento. Por isso, enquanto não se assumir que a conciliação entre a vida profissional e a vida familiar é um conflito, não existirá conciliação possível. Sendo, neste caso, a luta de classes – a classe dos filhos e a classe dos pais - a verdadeira solução.
Os pais sofrem de uma enorme carência de liberdade. Os pais, só porque são pais, estão condicionados em todas as vertentes da sua vida: em questões de personalidade, sociais, comportamentais, disciplinares, etc. A verdade é que pelo simples facto de sermos pais e de estarmos a educar crianças faz com que deixemos de fazer aquilo que nos apetece e tudo aquilo que fazemos desde o dia em conquistamos a ambicionada emancipação paternal. No fundo, no nosso exercício paternal deixamos de ser verdadeiros e passamos o dia a condicionar comportamentos. Começa logo pelo facto de não podermos dizer palavrões sempre que queremos. Desabafar no trânsito com todo o à vontade que a circunstância exige, deixa de ser um direito que nos assiste e para toda a vida. Além disso, deixamos de poder fazer coisas tão simples e saudáveis como pôr os pés em cima da mesa, comer na sala e deixar migalhas no sofá, deixar comida no prato, deixar as luzes acesas, não fazer a cama, chegar tarde a casa, ouvir música aos gritos depois das nove da noite ou simplesmente dizer mal de qualquer pessoa nas costas correndo o risco de essa pessoa vir a saber no dia seguinte se encontrar uma das nossas crianças pela frente - e isto só para citar alguns exemplos.
Claro que podemos optar por libertar o nosso verdadeiro eu e revelar aos nossos filhos toda uma lista de impropérios que caracterizam o condutor de quase todos os carros que circulam na terceira facha da autoestrada. Mas como pais que somos, sabemos que não podemos. Porque não. É uma coisa genética que se revela no dia em que temos o primeiro filho.
A gravidade das doenças dos nossos filhos é directamente proporcional ao nosso nível de stress. Ou seja, uma gripe pode ser considerada pelos pais como uma gripe, apenas um espirro, uma constipação ou uma pneumonia. Depende. Mas não depende da febre, da tosse, das dores de garganta, das queixas, da temperatura da testa, ou do nariz. Depende dos pais. Apenas e só dos níveis de ansiedade dos pais.
Normalmente a gravidade, a intensidade da maleita, é também avaliada por outro critério: o da experiência. Ao terceiro filho, qualquer pai, perante um espirro tem tendencialmente uma reacção de desconfiança: “Desta vez não me enganas…” e, obviamente, encolhe os ombros perante os indícios claros de uma pneumonia. Ao segundo filho, medimos a temperatura e saímos de casa a meia da noite para comprar remédios vários e vimos em cada farmacêutico um pediatra amigo. Com o primeiro filho, é diferente. Com o primeiro filho ficamos em pânico perante uma tosse. O som da tosse do primeiro é como uma espada que atravessa o nosso coração e nos ensurdece a alma. É o sintoma claro de uma pneumonia – grave - que só o especialista mais brilhante do planeta sabe diagnosticar. A tosse do nosso menino, mais do que uma urgência, é um desespero, uma angústia.
E o pior é que este tipo de diagnóstico paternal passa de pais para filhos e de todos os pais para todos os filhos.
- Não percebo porque é que se diz que o dia são 24 horas: essas horas todas não são todas dia, há umas que são noite. E se é noite, não é dia.
- Eu não gosto dessa senhora porque ela não disse que eu sou muito lindo; só a outra senhora é que disse.
- Não se arrancam flores nem se matam os peixes, não é mãe?
- É preciso pescar peixes, só assim podemos comer peixe ao jantar etc.
- Não! Podemos ir comprar ao supermercado, não é preciso matá-los!
- Mas eles estão no supermercado porque alguém os pescou... e matou.
- Ah... Eu cá não mato peixes, só os como.
- Mãe, quando eu estiver grande como é que eu vou comprar a minha roupa?
- Numa loja, com dinheiro...
- Mas vou à loja todo nu...?!
- Não, vestido...
- Mas quando eu for grande a minha roupa não me serve. Por isso é que eu tenho de comprar uma roupa nova.
- Afinal Jesus é filho de quem? A Maria casou-se com José ou com Deus?
Os meus filhos respondem-me com regularidade assim: "o que é...?!!" ou "temos pena..."
Dantes não era assim.
- Quem é que comeu os chocolates?!
- Nós todos.
Ninguém constrói coisas do Playmobil (uma espécie de IKEA para as crianças) tão bem e tão depressa quanto eu.
Os meus filhos não se lembram dos presentes que receberam no Natal de 2010. Em 2011 não me esforcei. Daqui a um ano cá estaremos para actualizar o registo.
Hoje fui deixar os meus filhos mais novos à creche e a creche estava fechada.
- Afinal não quero ser pai, quero ser cozinheiro. Já há muitos pais.
- Eu gosto muito de toda a gente: do pai, da mãe, dos manos, das professoras, dos tios, dos amigo e de todos. Mas gosto muito, muito é de mim.
- Os manos são mais fortes mas eu sou mais esperta; por isso não preciso de ser forte.
Victor Tavares Morais,
Cachimbo de Magritte
Os portugueses são um povo de extremos: ou vivem em euforia numa espécie de alienação colectiva, ou vivem em depressão em estado de neurose colectiva. Meio termo, vulgo racionalidade, não existe na nossa carga genética. Se é para sofrer, sofremos mesmo, em pensamento, actos e emoções. Cantamos fado, buzinamos sempre que houver oportunidade, gritamos com as criancinhas e carpimos. Carpimos, carpimos, carpimos até à exaustão.
E o Natal é uma excelente época para isto. Se já é mau o corte no subsídio, se já é péssimo não haver dinheiro para os presentes, se já é horroroso saber que para o ano ainda vai ser pior, então vamos tornar a coisa ainda mais negra. E como? É fácil: vamos roubar o Natal às crianças. Vamos contagiar as crianças com a nossa angústia, tristeza e o vazio do nosso cartão de crédito e fazê-las ver, sentir e sofrer com a nossa ansiedade natalícia.
Meus senhores: os nossos filhos estão deprimidos. Eles estão assustados com os presentes, porque acham que se tiverem presentes os pais vão morrer à fome e eles vão viver num orfanato. Os nosso meninos, tal como os pais, já não sabem distinguir o conceito de Natal com o de crise. Aliás, Natal é quando a crise é mais severa. Por isso, eles já não sonham com o Natal; eles têm pesadelos com o Natal.
Os meus filhos, por exemplo, querem um chocolate. Mais nada. Têm medo que lhes falte o leite se receberem um presente.
Portugueses e portuguesas, todos e todas, eles e elas: temos dois dias para emendar a mão, os nossos filhos querem o Natal de volta com ou sem presentes. Eles querem que nós nos ríamos, em vez de passarmos o Natal a carpir em frente aos presentes que gostávamos de lhes dar mas não podemos. Eles querem o espírito de Natal de volta, e não o espinho.
Helena Ferro de Gouveia,
No blog: "Domadora de Camaleões"
- Não quero esta mãe!
Obrigada aos milhares de professores que passam horas, dias, a arranjar coroas, a fazer asas, enfeites, sinos, máscaras e cenários, a ouvir gritos e a ensaiar teatros e, no fim, ainda têm de aturar os pais das criancinhas a refilarem porque a festa de Natal calhou num dia importantíssimo do calendário profissinal e tiveram de adiar reuniões inadiáveis - além de que o trânsito estava caótico - e porque, ainda por cima, o seu menino não fez de Menino Jesus mas sim de Burro.
Os filhos não são brinquedos, não se escolhem, não se trocam, não se aperfeiçoam, nem se devolvem. Muito menos funcionam com pilhas e nunca, nunca trazem livros de instruções. E é isto que torna esta tarefa de pai e mãe tão ingrata, difícil e imprevisível. Os filhos lá por serem nossos, não nos pertencem; somos nós que os alimentamos, educamos e sustentamos, mas por junto é só para isso que servimos. De resto eles são eles e desenvolvem-se, crescem, pensam e sentem apesar de nós. E quando já não são educáveis, sustentáveis e alimentáveis, deixam de ser nossos. Os filhos, ao contrário da dívida da casa, não duram uma vida. Duram apenas uns aninhos e não há qualquer garantia de que fiquem nossos.
E, então, o que é que resta ao fim desses anos de sustento e dedicação? Resta uma ligação. No fim é esta ligação que conta: depois de milhões de litros de leite consumidos de dias e dias de explicações, de milhares de ordens e de noites sem dormir é só isso que resta. Uma simples ligação.
Ora, como eles são todos diferentes, e alguns muito difíceis de conhecer, esta ligação tem vários níveis de consistência. Um pai ou uma mãe pode passar uma vida toda sem conhecer o seu filho, sem imaginar o que ele está a pensar ou prever o seu comportamento. E nestes casos é preciso um esforço racional para criar uma relação. Não é para gostar, é para interagir. Os filhos gostam sempre dos pais e os pais quase sempre dos filhos, mas nem todos se dão entre eles. Tal como o telemovel ou a internet, é preciso manter compromissos ao final do mês e ver se há rede. Ou ficamos sem ligação.
Mas assim está muito mais giro. (Agora com o link a funcionar)
- Mãe, eu fiz o avô do Jesus para o presépio da escola. Ele não tinha era avó. O pai dele já era velho. E também fiz a manta. Tudo em barro.
- O meu mister nasceu em 1980. É muita velho!!