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O comunismo e os nossos filhos

por Inês Teotónio Pereira, em 20.11.14

A minha crónica de sábado no i 

 

Tal como a larga maioria dos portugueses, cresci num mundo divido pelo Muro de Berlim, em que o comunismo era uma realidade presente em todas as áreas, do cinema à literatura, da educação à política e até nos desenhos animados da Checoslováquia ou da Hungria apresentados por Vasco Granja. Para mim, e para a maioria dos portugueses, o mundo para lá da cortina de ferro era uma espécie de planeta distante de onde poucos saíam para nos contar como era, que nos incomodava ao mesmo tempo que nos ajudava a formar a nossa consciência política e onde agradecíamos ter a sorte de não viver. Cresci num mundo de regimes e ideologias, em que o comunismo era a actualidade e em que ninguém sabia quando, como ou se iria acabar.

Há 25 anos, com a queda do Muro de Berlim, esse mundo onde a maioria de nós cresceu desapareceu. Em poucos meses não ficou pedra sobre pedra dessa realidade e a União Soviética, o Bloco de Leste, o Pacto de Varsóvia e o KGB foram palavras que desapareceram do léxico, das discussões políticas, da política internacional e da nova ordem mundial. E até os filmes do 007 tiveram de encontrar novos maus, novas crises e novos espiões, assim como John Le Carré novos enredos para os seus livros de espionagem. O comunismo estava morto e enterrado debaixo dos escombros do Muro e se dúvidas houvesse quanto à sua falência, aos horrores que provocou e à miséria que semeou, a abertura dos arquivos e as histórias de cada uma das famílias que viveram para lá da cortina de ferro dissiparam-nas todas. O mundo mudou e em Novembro de 1989 era certo que ninguém se iria esquecer dos horrores do comunismo, ninguém iria ter saudades da divisão de Berlim e que para trás ficava uma ideologia falhada e por isso morta.

Mas não. Passaram 25 anos da queda do Muro e o nosso PCP, por quem o tempo não passou, começa assim um comunicado publicado no jornal "Avante": "Mais do que a 'queda do muro de Berlim' o que as forças da reacção e da social--democracia celebram é o fim da República Democrática Alemã (RDA), é a anexação (a que chamam de 'unificação') da RDA pela República Federal Alemã (RFA) com a formação de uma 'grande Alemanha' imperialista [...]" E continua: "Aquilo a que assistimos no território da ex-RDA foi à destruição forçada das realizações económicas, sociais e culturais de mais de quarenta anos de poder dos trabalhadores [...]"

Sim, é verdade que o PCP não está a dizer nada de novo e está apenas a reafirmar a sua versão da história: há 25 anos que diz o mesmo, da mesma forma que o politburo sempre negou a existência do Gulag e de muitas outras "invenções das forças de reacção". Mas o que torna este comunicado actual, e de certa forma novidade, é que ele não é dirigido a quem viveu esta época ou se emocionou com a queda do Muro, que obviamente encolhe os ombros perante a dimensão do absurdo que ali está escrito. Este comunicado é para ser lido por todos aqueles que cresceram num mundo sem Pacto de Varsóvia, que vão fazer Erasmus para a Croácia sem nunca terem ouvido falar de Tito e que acham que Brejnev é da geração do Kaiser. É dirigido a uma geração, cada vez mais maioritária, que não viveu o comunismo nem de um lado do Muro nem do outro e que por isso não tem a obrigação de não se esquecer.

"Num processo acidentado, feito de avanços e recuos, de vitórias e derrotas, o futuro da humanidade não é o capitalismo mas o socialismo e o comunismo", diz o PCP com convicção.

Parece surreal que isto possa acontecer ou até que possa ser escrito, mas a verdade é que se não explicarmos aos nossos filhos o que foi o comunismo e se não lhes mostrarmos os seus horrores, daqui a uns anos, quando a maioria já não for formada por aqueles que comemoraram a queda do Muro, o seu repúdio não será tão óbvio. Para nós, que sabemos o quanto era um privilégio viver em liberdade e que testemunhámos um dos períodos mais negros da história, é fácil achar que "comunismo nunca mais" é uma evidência e o contrário absurdo. Mas aqueles para quem o comunismo é uma realidade tão distante como o Império Otomano, não é tão certo que daqui a uns anos esta não seja novamente considerada a ideologia "nova" para corrigir as desigualdades sociais. O PCP sabe isso e sabe que é fácil enganar uma geração que cresceu a considerar a liberdade tão garantida como o ar que respira, da mesma forma que é hábil a explorar a pobreza e as desigualdades como combustível para alimentar sua lunática luta de classes. Não sei se a história se repete, mas pelo sim pelo não já pus o meu filho mais velho a ler "O Triunfo dos Porcos".

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publicado às 11:38

Momento Calvin

por Inês Teotónio Pereira, em 13.11.14

- Hoje cheguei quinze minutos atrasado à aula de dúvidas, mas foi de propóstio? 

- O quê?! Porquê? 

- É que só tinha dúvidas para meia hora e a aula é de 45 minutos.  

 

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publicado às 13:13

Tempo para ouvir

por Inês Teotónio Pereira, em 11.11.14

 

No i de sábado

Há umas semanas convidaram-me de uma escola para falar sobre este tema a uma plateia composta por dezenas de pais, educadoras e professores. Convidaram-me por simpatia e sem saberem que o meu talento para dar palestras é equivalente ao de António Costa para fazer programas governo ou consultar a meteorologia. Mas fui. O objectivo era dissertar sobre a importância de ouvir os nossos filhos e o tempo que dedicamos a essa tarefa.

Na preparação da dita palestra fiz uma reflexão sobre a minha experiência como ouvinte dos meus estridentes filhos, uma retrospectiva dos meus dias e um balanço da atenção que lhes dedico, na esperança de com isso encontrar alguma coisa para dizer que valesse a pena ser ouvida. Revelou-se uma reflexão penosa. O exercício serviu para constatar que todo o tempo que passo com eles é sobretudo gasto em ordens, tarefas, estudo, organização, urgência e questões inadiáveis. O que sobra é fundamentalmente dedicado ao sofá e a um estado quase vegetativo. Realizei que tenho filhos menos exigentes da minha atenção que ouço menos do que mereciam e que falam menos do que deviam. E concluí que ouvir, ouvir, com toda a atenção e dedicação, só tenho ouvido os gritos do mais novo que enquanto não aprende a falar vai imitando o som de vários tipos de sirenes.

É verdade que nem sempre foi assim e já houve tempos em que me empenhei com grande profissionalismo a ouvir os meus filhos: o empenho chegou a ser tal que até criei um blog onde registava as gracinhas que eles diziam e os diálogos surrealistas que travávamos. Mas, a prova de que a crise do tempo para ouvir entrou em minha casa, está na escassez de posts no dito de blog.

A minha experiência não era, portanto, digna de ser partilhável com pais dedicados e preocupados que se dão ao trabalho de sair de casa depois do jantar só para ouvirem uma pessoa dura de ouvido falar sobre audição. Anunciava-se um desastre se insistisse pelo caminho sempre perigoso do exemplo. E como a verdade liberta, há que dizer a verdade.

Ora, a verdade nua e crua é que é uma grande chatice dedicar tempo a ouvir crianças pequenas. Dá trabalho, exige paciência, requer resistência física e psicológica ao cansaço e é acima de tudo uma escolha racional. As crianças dizem tudo o que lhes passa pela cabeça, sem filtro, sem lógica, muitas vezes sem contexto, sem fim e sem principio. Acompanhar genuinamente o raciocínio de uma criança ou descobrir o fundamento de uma história que ela conta ou inventa, é um desafio complexo. Claro que elas dizem coisas muito engraçadas e que ouvi-las a descobrir o mundo é uma delicia, mas a verdade é que nada disto está na nossa agenda nem consideramos suficientemente divertido para nos lembrarmos todos os dias.

Ouvir os nossos filhos é uma tarefa, uma obrigação, antes de ser uma vontade. As relações entre pais e filhos, como todas as outras relações humanas, alimentam-se, cultivam-se e constroem-se, e só ouvindo o que os outros têm para dizer é que os conhecemos e ganhamos a sua confiança. Se não ouvirmos, só cultivamos silêncio. Mais do que tempo, é preciso um horário para ouvir os nossos filhos - dez minutos durante o dia, a hora de jantar, um bocadinho antes de se deitarem, o caminho da escola - qualquer um serve. É que os horários cumprem-se, mesmo quando não nos apetece.

Quanto à palestra, sei que, ao contrário das cheias de Lisboa, não se voltará repetir.

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publicado às 14:42

O objectivo da vida

por Inês Teotónio Pereira, em 06.11.14

- Sim, eu sei que o objectivo da vida não é só divertrimo-nos e ganhar dinheiro, mas também ainda não sei qual é?   

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publicado às 11:50

Dificuldades de aprendizagem

por Inês Teotónio Pereira, em 06.11.14

A minha crónica de sábado no 

 

Um dos meus filhos tinha dificuldades de aprendizagem. Começou a ler tarde, dava erros ortográficos, distraía--se com as moscas (literalmente), não decorava coisa alguma e sempre que podia deixava os trabalhos de casa por fazer. Também se esquecia de tudo, era desorganizado, não dava importância aos testes nem percebia o fundamento das avaliações. Não era competitivo e tinha dificuldade em perceber a importância que os pais e os professores dão à escola. Desde cedo que desenhava com pormenor e aos cinco anos já fazia desenhos em perspectiva e com profundidade, mas não tinha paciência para pintar ou para fazer os traços direitos. Um dia, numa luta renhida com as contas de dividir, levantou a cabeça e desabafou: "Gostava de saber o que é que este lápis pensa se ele conseguisse pensar." Foi mais ou menos nessa altura que descobrimos que usava a parede junto da secretária para desenhar enquanto fingia que estudava. Era também talentoso a representar e conseguia inventar uma história interminável a partir de dois palitos. Da escola chegavam-nos notícias de "falta de interesse", "falta de concentração" porque "é muito distraído" e "trabalha pouco". Em casa, nós, pais, pressionávamos, castigávamos e espremíamos a criança cada vez que chegava mais um recado ou mais uma nota. Sobre os talentos pouco lhe dizíamos porque o tempo era escasso e o calendário escolar não dava tréguas: antes do teatro está a Matemática e antes da criatividade está o Português, sentenciávamos.

No 4.o ano conheceu os livros do Harry Potter e foi assim que se viciou na leitura. Os erros, esses, persistiam e as notas continuavam a sair esforçadas. A motivação era mínima e a escola continuava a ser um mal necessário na qual passava os dias. O Harry Potter era o seu esconderijo. No 6.o ano chegaram os exames e com eles a possibilidade real de fracassar. Assustou--se com a eventualidade e, ajudado pela maturidade, estudou três semanas seguidas sem levantar cabeça, com horas marcadas para as refeições e com objectivos diários impostos por nós. Conseguiu a melhor nota da escola e da vida dele no exame de Matemática e deixou pais e professores de queixo no chão. Gostou da experiência e ainda mais da sensação. Nunca mais repetiu o resultado, mas as notas nunca mais saíram esforçadas, os trabalhos de casa nunca mais ficaram por fazer e nunca mais se denunciou a sua falta de concentração.

Para trás ficou o teatro e do desenho nunca mais ouvimos falar. Diz ele que não desenha bem porque não consegue fazer traços direitos ou imitar paisagens. A comparação com os desenhos fotográficos dos colegas e as classificações suficientes dos professores esfriaram o seu empenho e comprovaram que o seu talento afinal era apenas suficiente. Com a ajuda do tempo acabou por desistir. Dos oito anos da vida escolar do meu filho tiro duas conclusões. A primeira é que durante anos dei mais importância à escola e às considerações dos professores que ao meu filho, dei mais importância às dificuldades denunciadas pelos professores que aos talentos que eu conhecia. Sem saber cavei um fosso de frustrações que aumentava cada vez que chegava uma nota ou um recado, como se cada um deles fosse mais uma prova do seu fracasso (e do meu). Sem querer amolguei-lhe a auto-estima e eduquei-o tendo como referência as pautas escolares.

A segunda é que apesar de mim e da escola ele conseguiu. Conseguiu porque quis, porque um dia resolveu querer. As ameaças, as pressões, os castigos e o desespero perante cada má nota não tiveram qualquer efeito positivo, apenas negativo. As dificuldades de aprendizagem são apenas isso, dificuldades. E não querem dizer mais nada sobre os nossos filhos. No dia em que os confundimos com as dificuldades deles, em que olhamos para eles e em vez de crianças vimos problemas de matemática, os nossos filhos facilmente acreditam que são eles próprios os erros e os problemas. E então sim, as dificuldades perpetuam-se e podem ultrapassar em muito o âmbito da escola. A felicidade e o futuro dos nossos filhos não se medem pelo seu desempenho escolar - que mais cedo ou mais tarde, com mais ou menos trabalho, acaba por se cumprir - mas podem estar comprometidos se nós, pais, os julgarmos e medirmos por isso. O principal problema das dificuldades de aprendizagem é a dificuldade dos pais - não dos filhos - em lidar com elas.

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publicado às 11:48

Sabemos que eles estão a crescer

por Inês Teotónio Pereira, em 31.10.14

quando já não percebemos nada do livro de Matemática ou de Física, temos de ler a História de Portugal de Rui Ramos para os ajudarmos a estudar História e constatamos que a literatura obrigatória que eles lêem é bem mais densa do que os livros que acumulamos na mesinha de cabeceira.  

 

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publicado às 11:26

Sexto

por Inês Teotónio Pereira, em 30.10.14

O meu filho mais novo tem três galos na cabeça à conta das cabeadas que dá nas portas e das quedas diárias; uma unha negra, por se ter entalado numa porta; e três picadas de melga na cara que infectaram. 

Diz o meu filho mais velho, compreensivelmente desconfiado da minha competência:

- Não deviamos ir com ele ao médico?

    

 

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publicado às 13:04

Cadeado no telefone

por Inês Teotónio Pereira, em 28.10.14

Crónica publicada no i de sábado 

 

Em casa dos meus pais o telefone estava quase sempre trancado com um cadeado por uma chave que a minha mãe escondia e que o meu pai tinha o desejo de engolir todas as vezes que abria a cartinha com a conta do mês. A chegada da conta do telefone e da electricidade, assim como a visita do "homem da taxa" (da televisão), eram alturas tensas em casa dos meus pais. Mas o telefone era o caso sintomático. O telefone, na perspectiva de quem pagava as contas, não era um serviço prioritário e o seu uso devia ser esporádico, limitado e extraordinário. Esta teoria chocava de frente com a ideia que nós, filhos, tínhamos da invenção de Bell: para nós, a água e o telefone tinham a mesma importância na função de sobrevivência da espécie, pois sem o telefone corríamos o perigo de ficar social e dramaticamente isolados. Para conciliar as duas vontades determinaram-se regras: só podíamos fazer chamadas locais, só depois das oito da noite e cada chamada tinha uma duração limitada pela ordem "desliguem o telefone!" passados 20 segundos do início do telefonema.

Está claro que furámos muitas vezes o sistema e que muito sofreu o meu pai com as contas que lhe iam chegando apesar do cadeado, mas sobrevivemos todos e o aparelho jaz hoje em paz, com as honras de um herói de guerra, na cave da casa dos meus pais.

Na mesma senda do telefone, também a televisão tinha as suas limitações: horários limitados e apenas dois canais. Quem queria ver televisão tinha de se sujeitar aos condicionalismos tecnológicos da época o que obrigava as famílias a estarem sempre reunidas caso quisessem ver televisão. Os pais viam os mesmos programas que os filhos e os filhos só conseguiam ver televisão na companhia dos pais.

Educar filhos na altura dos meus pais era canja. As regras eram impostas pelos condicionalismos financeiros (telefone) e tecnológicos (televisão) e não era preciso recorrer a princípios pedagógicos, de vida saudável ou morais para impor regras. Hoje, para nosso tormento, não é assim. Hoje há todo um vasto número de teorias sobre as várias opções que os nossos filhos têm e nós, pais, somos forçados a ter uma resposta para cada teoria com a grande desvantagem de não termos exemplos a seguir. Na verdade somos uns pioneiros desta nova era educacional e cabe a nós andar de catana em punho a devastar o denso mato das novas tecnologias, redes sociais e meios de comunicação.

Vejamos: alguém sabe com que idade devem os meninos ter facebook ou Instangram ou que tipo de chats devem eles utilizar? Devem os adultos ter a password de todas as redes sociais em que eles navegam e não os deixar sozinhos nesse submundo cibernético, ou devemos confiar que eles sabem gerir as suas relações e escolher o que vêem? E com que idade é suposto eles terem telemóveis com acesso à internet? Computadores: no quarto ou apenas na sala? Tablets: a partir de que idade? Impomos horário de navegação, de chat móvel e de televisão ou o limite é apenas a hora de dormir? E a televisão: o Walking Dead é para que idade? Quantas horas é que eles devem ver poder ver televisão e a que horas? Entre o telejornal e o Disney Channel, quem deve ganhar tendo em conta que os pais podem ver o telejornal quando os filhos forem para a cama?

Nós, pais, somos todos os dias confrontados com decisões destas e andamos literalmente aos papéis a tentar descobrir os melhores modelos para copiar. Entretanto, a realidade ultrapassa-nos todos os dias. Hoje, cada membro de uma família tem os seus programas de televisão, o seu telemóvel, o seu tablet, as suas redes sociais e cada um tem uma realidade distinta mesmo que esteja sentado ao lado do pai ou do irmão no sofá da sala. Hoje, os limites não são tecnológicos ou financeiros e a escolha é um exercício diário frenético. Hoje, os pais são obrigados a ter bom senso, a ler sobre tecnologia, psicologia e pedagogia e a optarem todos os dias entre verem o Disney Channel em família ou o House of Cards sozinhos e de madrugada. Já dantes, bastava que os pais trancassem o telefone com um cadeado e mandassem calar a filharada para viverem descansados.

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publicado às 12:18

Estava eu entre o arroz, a salada e o jantar do bebé quando entra um dos meus filhos na cozinha, senta-se e diz: 

- Gosto imenso de vir para aqui para a cozinha sentar-me: gosto imenso de ver as pessoas a trabalhar. 

E disse isto sem um pingo de malícia. 

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publicado às 12:42

Tenho uma dúvida

por Inês Teotónio Pereira, em 21.10.14

Crónica desta semana no i sobre a minha genialidade maternal 

 

Eram sete da manhã. Hora da correria. O bebé chorava infeliz atrás das grades da cama, encharcado em xixi porque a fralda se descolou durante a noite. Dois dos rapazes lutavam por uma qualquer razão que tem a ver com o facto de serem rapazes e de passarem os dias a lutar. Outro cantava alegremente na banheira enquanto a fila de aflitos aumentava do lado de fora da porta. Ela, cheia de sono, recusava-se a sair da cama, na esperança de que aquele podia ser o dia em que a sua existência seria esquecia. Mas tem azar: ninguém se esquece da única menina. Da casa de banho continuava a ouvir-se a cantoria e os gritos desesperados de duas crianças agarradas à pilinha. Entretanto, o mais ágil e organizado guerreiro da manhã esgueirava-se, cheiroso, já vestido e alimentado, para a frente da televisão, para ouvir as primeiras da manhã sobre a última jornada.

Enquanto tudo isto se passava, eu questionava-me em silêncio sobre a razão que impede os meus vizinhos de venderem a casa. Ninguém merece ser acordado aos gritos por seis crianças que não lhes pertencem às sete da manhã. Sossegada, na cozinha, e absorvida por estes pensamentos enquanto o pai ia concorrendo com o cantor da banheira pela água quente, outro dos meus filhos, calmo e sereno, entrou na cozinha e declarou: "Mãe, eu tenho três perguntas para fazer. A primeira é: se Deus criou o universo, quem é que criou Deus? A segunda é: porque é que sou eu que existo e não outra pessoa qualquer? E a última é: se foi Deus que criou o homem, porque é que ele não cria mais bebés, em vez de serem só as mães a terem bebés?"

Sentei-me. Às sete da manhã, o meu cérebro tem falta de açúcar e alguns neurónios são como a minha filha e fingem que estão a dormir. Naquele instante passou-me pela cabeça usar a escassez de açúcar e o estado sonolento dos neurónios como argumentos para não responder às três questões. Mas não tive coragem. E, de repente, ocorreu-me: espera lá, eu sei as respostas. E sei. Ter muitos filhos fez de mim um génio: sei dizer porque é que as estrelas não caem, onde é que estão os anjos, para onde vamos quando morremos, porque é que o sol queima, porque é que os animais não falam, em que é que os bebés pensam, etc., etc., etc. Sei eu e sabem todos os pais. As crianças, meus senhores, fazem todas as mesmas perguntas e isso, claramente, ajuda. E estas são de algibeira: quanto à primeira respondi enigmaticamente que Deus criou Deus; à segunda, entrei na ironia: Deus criou o homem, Deus não faz bebés... E à última não respondi. Disfarcei. Fácil. Ao fim de cinco filhos, é fácil.

É verdade que, com o primeiro filho, sofremos: vamos ao Google, telefonamos aos amigos, consultamos livros e damos uma resposta científica ou filosófica, conforme a natureza da questão. Sim, dá trabalho. Mas com o segundo filho, percebemos que as perguntas que atormentaram o espírito do primeiro são mais ou menos as mesmas que atormentam o espírito do segundo. Por isso, só temos de apurar o raciocínio. Quando chegamos ao terceiro filho, constatamos que nem o primeiro nem o segundo ligaram patavina ao que nós dissemos e que, passados apenas dois ou três anos, já se esqueceram das respostas. Percebemos que devemos apostar na simplicidade infantil do tipo: "As estrelas não caem porque não devem cair." E pronto, está lá tudo. Mais que se queira dizer a uma criança de cinco anos sobre a razão que sustém as estrelas no céu é informação absolutamente inútil. Aprende-se isto com o terceiro filho. Com os outros filhos, simplificamos ainda mais o processo e resolvemos tudo com livros. Cada pergunta tem direito a um livrinho esclarecedor. Quando as estantes estão cheias, eles acabam por desistir das perguntas, com medo de serem obrigados a ler tantos livros. Mais fácil ainda.

Entretanto, alguém sabe porque é que foi este meu filho a nascer, em particular, e não outra pessoa qualquer? Ou um livro que explique o fenómeno? É que esta não sei mesmo.

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publicado às 12:35

Enquanto os bispos discutiam os divórcios e os gays na Igreja

por Inês Teotónio Pereira, em 20.10.14

o meu filho chegou a casa depois da catequese e declarou:

- Queria falar sobre duas coisas da catequese, pode ser? 

- Claro, o que se passa? 

- É que eu acho que vai ser cada vez mais difícil ser católico: somos cada vez menos e há poucas pessoas a pensar como nós.

- Mas não deve ser por haver mais ou menos pessoas a pensar como nós que deixamos de ter as nossas crenças e princípios. 

- Eu sei, mas eu também acho que não vivo bem como um cristão.

- Então porquê? 

- Porque não faço muita coisa pelos outros...

- Por quem? Cá em casa?

- Não, cá em casa não precisam. Não faço nada pelos que precisam mesmo de ajuda como os pobres, os doentes, etc. e por isso vou começar a fazer voluntariado. Não me sinto nada bem viver assim. 

- ......

- É com a minha idade que se começa a ter mais fé, não é?

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publicado às 12:24

A escola em minha casa

por Inês Teotónio Pereira, em 20.10.14

Artigo escrito no no início deste ano lectivo sobre o pesadelo dos TPC 

 

 

No início de cada ano lectivo, as conversas e discussões sobre os trabalhos de casa enviados pela escola é recorrente. Não tanto quanto as peripécias na colocação de professores, mas para lá caminha. Este assunto é normalmente restrito a pais e psicólogos de um lado e a professores do outro. Não sendo matéria legislável, o interesse do público acaba por ser residual. No entanto, só esta semana já existem manifestos, crónicas de opinião, debates em blogues e muitos comentários sobre as virtudes e os efeitos nefastos dos trabalhos de casa. Os pais agitam-se, os professores reagem e os psicólogos manifestam-se contra a falta de sono das crianças e a falta de tempo para serem crianças.

Pois a minha opinião sobre o tema é simples: sou contra os TPC por princípio. Sou contra o peso da escola na vida das famílias e sou contra todas as regras pedagógicas que são cegas às particularidades de cada criança. As crianças passam pelo menos oito horas na escola. Ali é-lhes exigido tudo: que aprendam, que cresçam social e emocionalmente, que desenvolvam hábitos de trabalho, de organização e que sejam responsáveis. Os nossos filhos vivem grande parte das suas vidas dentro de uma escola e são entregues a profissionais que têm como função ensinar-lhes tudo isto. Cada avaliação trimestral afere tudo isto e todas as competências que adquirem ao longo dos anos reflectem também tudo isto. A escola é hoje quase tudo na vida dos nossos filhos e a todos os níveis. A família apanha o que sobra. O que sobra de tempo, de disposição, de amizades e até de formação. Na maioria dos casos, esta realidade não é uma opção: o dia-a-dia, as rotinas, o trabalho, os transportes, o trânsito e a organização das nossas vidas a isso obrigam. Todos os dias resta-nos pouco tempo sem obrigações e os nossos filhos também apanham o que sobra.

É claro que os pais não devem nem podem estar alheados da vida escolar dos filhos. Mas há uma fronteira e cada macaco no seu galho. A nós cabe educar a criançada, o que não é pouco. Transmitir-lhes o que consideramos serem as prioridades da vida, ajudá-los a serem responsáveis, a terem a auto-estima a níveis razoáveis, a formar o carácter e, acima de tudo, ajudá-los a serem felizes. Sempre ligados à escola e sempre com a escola ligada às nossas vidas. Mas da mesma forma que eu não tenho qualquer autoridade na elaboração de um exame, na escolha das disciplinas que são leccionadas aos meus filhos, na forma e no ritmo com que o professor dá as aulas, também a escola não deve invadir o nosso final de dia e apropriar-se de um tempo que não é seu por direito.

Os trabalhos de casa são uma espécie de tempo roubado aos pais, às famílias e às crianças. Mesmo aquela meia hora (nunca cumprida) pedagogicamente aconselhável para ser gasta com TPC, é menos meia hora para nós os termos como filhos e não como alunos, e para eles gastarem como crianças e não como estudantes.

Sim, há matérias que precisam de ser lidas com mais atenção, exercícios que é preciso praticar e outras tarefas que são aconselháveis fora das aulas. Há crianças que precisam de trabalho extra para melhorem o desempenho, para apanharem o comboio ou para perceberem que é nas aulas e com os professores que se aprende. Mas tudo isto deve ser excepção. Em casa a autoridade é dos pais e só a eles compete decidir - ouvindo ou não o conselho dos professores - como é que os filhos devem ocupar o seu tempo sem que por isso sejam prejudicados na escola.

Não, não concordo com os TPC e ainda não encontrei uma justificação pedagógica que me fizesse mudar de opinião. Excepcionalmente, claro que sim, porque cada caso é um caso; como regra, acho que é uma espécie de tratamento invasivo e fútil. Agora vou ali ajudar os meus filhos a acabar alguns TPC porque está na hora de ir jantar e fazer figas para que os professores deles não nos castiguem com mais TPC por causa desta crónica.

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publicado às 12:22

A crise de valores e os jihadistas

por Inês Teotónio Pereira, em 15.10.14

Artigo publicado também no i na altura em que o ISIS ainda abria telejornais - há cerca de um  mês

 

Agora que milhares de jovens ocidentais resolveram sair dos sofás das suas casas e das respectivas escolas e universidades para engrossaram as fileiras dos jihadistas em conquista do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, voltou o debate sobre a crise de valores no mundo ocidental. O individualismo, o materialismo, a ausência de causas e a irrelevância das ideologias que jazem em paz entre os escombros do Muro de Berlim são apontados como os males que levaram os nossos jovens a atravessar a Europa para aprenderem a cortar cabeças e, como diz Helena Matos, a matar o próximo. A culpa, no fundo, é do capitalismo. Os jovens precisam de ideais e se não lhes dão ideais mas apenas Estado social, empresas, emprego, lucro, liberdade e outros instrumentos demoníacos, eles zangam-se. Zangam-se a sério e aderem à violência como ideal marcando como inimigo quem lhes deu a liberdade para pensarem, dinheiro para pagarem o bilhete de avião e educação para saberem onde é a Síria e o Iraque.

Não faço ideia porque é que os jovens ocidentais resolveram trocar o McDonald's pelas areias do deserto e os reality shows pela violência e pelo terror, mas desconfio que a ausência de valores na Europa não tem nada a ver com isto. Até porque na Europa e no mundo ocidental domina o valor mais importante de todos, que é a liberdade. Aqui os jovens são livres de ser muçulmanos, católicos, judeus, adventistas do sétimo dia, agnósticos, ateus, budistas ou apenas vegetarianos. Aqui podem ter ou não ter valores que ninguém se chateia com isso. O pior, o que aborrece mesmo os nossos jovens, é que não é preciso lutar por isso. Não é preciso cortar cabeças para conquistar a liberdade ou aprender a fazer cocktails molotov para defenderem uma religião. Aqui a violência condena-se, castiga-se, proíbe-se e a liberdade é um dado adquirido. Os nossos valores prendem-se mais com questões relacionadas com défice, com impostos, com a sustentabilidade da Segurança Social ou com o regresso às aulas.

O problema dos jovens criminosos jihadistas não está nos valores, está na escolha dos valores que querem defender. E estes escolheram trocar a bondade pela maldade, o amor pelo ódio, a vida pela morte, a liberdade pelo terror e o seu conforto por uma viagem aos infernos. Porquê? Não sei e desconfio que nem a própria família faz ideia. Mas continuo a achar que a crise de valores quando discutida fora do âmbito da religião nos leva sempre para terrenos pantanosos, onde domina a tese de que os meios justificam quase sempre os fins e os estados devem ter a sua cartilha de valores. O século xx ensinou-nos como isso dá mau resultado. Os valores passam de pais para filhos e é dos pais e dos filhos que se fazem as nações. Não há crise de valores, existem, sim, muitos valores e liberdade para os ter e para os defender. E é em cada casa e em cada família que se faz essa defesa; é na educação que damos aos nossos filhos que se trava a nossa luta de valores. Mas a verdade é que é mais empolgante ser contra alguma coisa que jantar à mesa todos os dias com os nossos filhos e fazer pequenos comícios sobre a importância da responsabilidade perante a liberdade que lhes é dada e que não foram eles a conquistar. É em cada casa que se combatem os jihadistas. Depois, sim, podemos olhar para essa figura abstracta que é o mundo ocidental e fazer análise política.

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publicado às 15:39

Bem-vinda, Sofia Anjos

por Inês Teotónio Pereira, em 14.10.14

(...) as pessoas não sabem distinguir um cronista de um jornalista, começa por aí. Além disso, não conseguem distinguir o que é um tom irónico de uma opinião mais séria. Levam as coisas à letra e não percebem o género literário.

- Já te sentiste ofendida por alguns comentários?
Já, claro que sim. No início, sobretudo na primeira e segunda crónica, até porque nunca tinha feito isto. Não tinha a noção do feedback que ia ter. As pessoas são malcriadas, há ofensas enormes. Depois comecei a perceber em comentários de outros artigos que as pessoas são assim. Era uma realidade que desconhecia. Tenho muitas pessoas que me seguem e, mesmo não gostando, estão lá todas as semanas para me ler: acho que há alguma identificação, apesar de não assumida. Mas também há muita gente que se identifica e eu tenho tido comentários muito interessantes em relação a isso, com pessoas que me chegam a agradecer.

- Sentes que, no geral, as pessoas evitam falar das coisas menos boas da maternidade?
As coisas são feitas de sentimentos bons e maus. Existe algum pudor, eu percebo, a nossa vida privada é nossa. Mas isto não é assim tão cor-de-rosa. É maravilhoso, mas há uma parte que realmente é dura. Acho que se embeleza um pouco a coisa.

- O que faz falta quando se fala em maternidade?
As pessoas não têm muito humor. Faz falta sentido humor e leveza na maternidade. Eu não sou humorista, de todo, mas tenho uma visão mais irónica das coisas. Como é difícil, ou tu levas a coisa um pouco a rir ou então… As famílias têm muito pouco humor.

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publicado às 14:15

por Inês Teotónio Pereira, em 14.10.14

- Mãe, quando eu tiver filhos posso deixá-los aqui em casa de vez em quando?

- Claro! 

- E quando fôr de lua-de-mel com a minha mulher, posso deixá-los durante duas semanas?  

 

 

 

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publicado às 12:34

Memórias de férias

por Inês Teotónio Pereira, em 14.10.14

Já este texto foi escrito em plenas férias, também no i, e é sobre as férias - como indica o título. Ora bem, este singelo e inocente texto suscitou, no entanto, algumas críticas. E porquê? pergunta espantado e em silêncio o caro leitor por suspeitar, e bem, que este é um daqueles temas tão incolores quanto a água. Pois, a verdade é que eu também não imaginei que um texto sobre as férias de Verão pudesse despertar qualquer espécie de fel. Ingenuidade minha. Muitos leitores indignaram-se com esta prosa por considerarem que este texto era um insulto ao Algarve. Não é!  Eu jamais faria uma coisa destas. Mas ainda assim desculpem aqueles leitores que se sentiram ofendidos, não era minha intenção ofender tão nobre região. Até porque eu nunca passei lá férias. 

 

Nunca fui ao Algarve passar férias. Nem sei como é. As minhas praias das férias grandes, as de Agosto, têm de ter água fria, ondas grandes, cheiro a limos e a algas, pocinhas nas rochas quando a maré está vazia, muito iodo e o tempo é sempre uma incerteza. São praias em que o mar vira quando muda a lua e em que a cor da bandeira quer mesmo dizer qualquer coisa. Praias em que os nadadores salvadores treinam para super-heróis porque todos os Verões salvam mesmo alguém. Praias onde os toldos têm como utilidade principal proteger da cacimba ou da nortada e não do sol que prefere ir passar férias ao Algarve.

Cresci assim. A jogar ao prego debaixo do toldo, a ir ao mar por diversão e como prova de valentia e não por estar com calor, em que só se punha fim aos banhos de mar quando se tinha a boca roxa, as extremidades do corpo anestesiadas e o fato de banho cheio de areia como prova de que tínhamos sobrevivido estoicamente à rebentação. Cresci a ir para a praia de manhã para cumprir uma rotina, e porque era mais saudável, com a esperança de que o céu "abrisse" à hora de almoço e o sol desse um ar da sua graça. Nas minhas férias grandes as amizades que criei tinham como critério as crianças da minha idade que tinham os toldos ao lado do meu e uns pais que também achavam mais importante o "ar de mar" e o iodo do que o calor ou o mar chão e quente.

Crescemos todos assim, em modo tribal. Donos e senhores das nossas praias, com gíria, hábitos e rotinas próprios e com mais iodo acumulado no corpo do que escaldões. Nas minhas férias grandes a praia era um cenário, não era um fim. A praia servia para brincar, cimentar amizades durante um mês inteiro, ir às poças procurar qualquer coisa que mexesse, que se conseguisse apanhar para pôr no balde e para os nossos pais nos soltarem e descansarem de nós.

Durante um mês experimentávamos outra vida, outras rotinas e tínhamos outros amigos. Só precisávamos dos pais para nos pagarem o bolo ou o gelado dia sim dia não. Éramos livres por 30 dias. A cacimba, a nortada e a água gelada eram pormenores que não interferiam na nossa felicidade. O que importava era a liberdade de andar em bando na praia ou fora dela sem horas para refeições e imunes às combinações. Todos os dias o cenário era o mesmo e a praia ia muito para além da areia e do mar. O cenário era toda uma vila por onde se andava a pé ou de bicicleta e onde se chocava em cada esquina com alguém que nos conhecia desde que nascemos. Todos os anos havia as mesmas festas, os mesmos jogos, as mesmas pessoas, os mesmos cafés, os mesmos baloiços e as pocinhas nas rochas nunca mudavam de sítio.

Nunca soube o que era ir passar férias para a praia exclusivamente para apanhar sol. Na minha perspectiva o sol era um bónus nas férias. Nas férias fugíamos no calor da cidade - íamos ser livres e soltos para o fresquinho da beira-mar e para sítios que faziam com que os dentes dos bebés crescessem mais depressa.

Apesar de os tempos terem mudado, de o Algarve ser um destino de férias de gabarito mundial e de serem cada vez mais escassos os períodos de férias que os pais conseguem ter com os filhos, as minhas férias grandes não mudaram. Com mais ou menos semanas mantenho estas rotinas com os meus filhos. Também eles não sabem o que é passar férias no Algarve e também eles dominam o jogo do prego e o enrola na rebentação quando a bandeira está amarela. Eles sabem que à hora de almoço o céu abre e que o mar vira quando a lua muda.

As poucas coisas que conseguimos dar aos nossos filhos são memórias. E as memórias das férias grandes, das pocinhas das rochas que nunca mudam de sítio, são uma linha inquebrável entre nós e eles.

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publicado às 12:16

O beicinho do meu filho

por Inês Teotónio Pereira, em 14.10.14

Artigo publicado há dois meses no i, mas não perdeu a actualidade pois mantém-se a situação que envolve o beicinho do meu filho 

 

Quando me zango com o meu filho mais novo ele faz beicinho na esperança de eu me comover; caso eu não me comova e mantenha o sobrolho carregado, ele exibe o seu melhor sorriso na esperança de eu me derreter. Resulta quase sempre e é raro ele precisar de recorrer ao sorriso. O meu filho mais novo tem um ano. A criatura ainda não sabe andar, não fala, nem sequer sabe comer sozinha, mas já é perita em técnicas de simulação e de charme que supostamente requerem muito mais inteligência e esforço mental do que dormir sem chucha. É verdade que ele ainda não me engana redondamente e que todas as vezes que me comovi ou me derreti com o seu beicinho ou sorriso - 97% das vezes, mais ou menos - cedi perfeitamente consciente da minha cedência. E é assim, de cedência em cedência, que a criança vai ficando cada dia mais mimada, mais manipuladora e, claro, insuportavelmente encantadora. Conscientemente mimada. O meu filho percebeu ao fim de 12 meses de existência que a sua vida se pode tornar bastante mais agradável se dominar as referidas técnicas de manipulação. Ele sabe enganar-me e sabe que eu me derreto com as estratégias de engano. Este simples episódio doméstico revela duas evidências: a primeira é que nós pais somos presas fáceis, a segunda é que os nossos filhos são uns manipuladores impiedosos. O pior é que se isto é assim com um ano - repito: ele ainda não sabe falar nem andar - como será quando ele tiver 16?

Nós pais vivemos enganados e somos diariamente enganados pelos nossos filhos. Aldrabados, mesmo. Vivemos enganados porque achamos que os conhecemos melhor que a palma da nossa mão e controlamos na perfeição as suas técnicas de manipulação. Achamos que somos os verdadeiros donos disto tudo e que não há ninguém que nos consiga passar a perna. Estamos convencidos que em nossa casa só nós é que passamos a perna aos nossos filhos, nunca o contrário. Acreditamos ingenuamente que o controlo emocional é nosso. Já a criançada, que desde tenra idade domina as técnicas mais desprezíveis de manipulação, vai-nos dando corda para nos enforcarmos ao mesmo tempo que vai conquistando a nossa cega e inabalável confiança. Eles tornam-se geniais na chantagem emocional, peritos em carregar-nos com o peso dos remorsos e exímios simuladores de personalidades diversas. Nós, pais, vamos facilmente nas cantigas. Até porque gostamos da melodia. E a cantiga dos nossos filhos é como os cigarros: começa por ser só um por semana mas quando damos por nós já estamos a comprar maços diariamente. A cantiga dos filhos também começa apenas com um beicinho mas acaba com a cantiga do bandido segundo a qual a professora é que é má e não sabe ensinar e os amigos é que são os irresponsáveis. E nós pais acreditamos em tudo. Queremos e gostamos de acreditar. Não vivemos sem o beicinho enganador e gostamos de ser convencidos pelos nossos filhos de que eles são bons rebeldes, gente de bem e palavra, valentes e virtuosos, crianças sensíveis e incapazes de matar uma mosca por mal. Gostamos que eles nos convençam que são aquilo que queremos que sejam. E eles sabem qual é o guião. Desde que nasceram que sabem qual é guião. E sabem perfeitamente que se o cumprirem à risca melhor para eles e para nós. Mas não há nada mais maravilhoso que este engano. A nossa ingenuidade, a nossa inabalável confiança, a nossa fé nos metralhas dos nossos filhos é aquilo que nos torna melhores pessoas e a eles melhores filhos. Para nós os defeitos dos nossos filhos são meros acidentes perfeitamente insignificantes e todos eles justificáveis. Aliás, nem são bem defeitos, são características. É por pensarem assim que os pais são as melhores pessoas do mundo: os pais acreditam sempre nos filhos. Sempre. Somos pessoas de uma fé inabalável nas crias. Mesmo que saibamos que estamos completamente enganados. É que estar enganado neste caso é um pormenor: o que verdadeiramente interessa é o beicinho. A maravilha do beicinho e do sorriso encantador. O resto são detalhes mesquinhos.

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publicado às 12:10

Olá

por Inês Teotónio Pereira, em 14.10.14

Desde Julho que não meto aqui os pés. Por nenhuma razão especial, apenas preguiça. Isto de ter um blog é um pouco como ter um animal de estimação: a ideia é gira mas dá trabalho. É preciso disposição, disponibilidade e paciência. Mas como não sou pessoa de abandonar animais de estimação só porque não me apetece brincar mais, também não consigo abandonar este blog. Este blog viu os meus filhos nascerem, já publicou dois livros, sobreviveu a três governos, a três secretários gerais do PS, assistiu ao Sporting consagrar-se uma vez campeão nacional e mantém-se atento ao desenvolvimento da situação internacional na Ucrânia, do avanço dos jihadistas na Síria e da polémica que envolveu a morte do Excalibur, o cão espanhol. Veremos como corre a nova temporada do A Um Metro do Chão. Os comentários, esses, mantém-se sujeitos a censura prévia, tal como tudo o resto é mais do mesmo. 

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publicado às 11:40

Filhos da sorte

por Inês Teotónio Pereira, em 22.07.14

O meu artigo de sábado do i 

 

Esta semana o Observador fez uma reportagem com o título "A coragem de ter muitos filhos". Entrevistou três famílias com mais de quatro filhos, vasculhou nos hábitos, nas rotinas e nas opções dos pais e fotografou as crianças para a posteridade. Estas reportagens são recorrentes e aparecem ao mesmo ritmo que os inquéritos sobre a literatura que os famosos levam para as férias.

Os leitores são curiosos e, como dizia Eça de Queiroz, qual é o interesse do pôr do Sol no Monte Everest em comparação com o drama da família do 3.o esquerdo? Nenhum. Nada de novo, portanto, e a crise da natalidade é um bom mote para este tipo de reportagens. O leitor quer saber o porquê de tantos filhos, quais as dificuldades, quais as motivações que levam a tanta reprodução, como se organiza o dia-a-dia dos pais e dos filhos e ler um ou outro testemunho de felicidade. E o leitor nunca é surpreendido: em nenhuma destas reportagens os pais estão arrependidos do tamanho da prole, não querem doar nenhum dos filhos, e há quase sempre uma motivação divina por detrás da reprodução. A felicidade, essa, irradia através das fotografias. Quem não tem muitos filhos rói as unhas de desalento ao ler estas prosas e estes testemunhos de felicidade, da mesma forma que os menos endinheirados se torcem de inveja quando as revistas revelam a vida dos ricos, o tamanho das mansões em que habitam e a cilindrada dos carros que conduzem. Nestas reportagens, filhos ou carros cumprem a mesma função.

O objectivo destas prosas é apresentar aos leitores exemplos de sucesso e modelos familiares: a mensagem pouco subliminar é mostrar que quanto mais filhos melhor, pois as dificuldades adjacentes superam-se. E não, os testemunhos não são de famílias que vivem num 3.o esquerdo de um bairro social, essas entram no capítulo das reportagens sobre a crise social e cultural. Estas famílias corajosas que dão mote às inúmeras reportagens sobre a crise da natalidade são bonitas, letradas e só passam por bairros sociais.

O Observador, dando como exemplo estas famílias, destacou ainda assim a coragem de ter muitos filhos. Em oposição, temos então os medricas que têm poucos filhos e percebemos com a ajuda deste adjectivo que a questão da natalidade afinal é uma questão de bravura. Exibe-se assim o triunfo dos pais rodeados de crianças como se estas fossem troféus da batalha da vida. Seguindo esta lógica, observamos através do Observador que os bravos somos nós, pais de uma prole imensa, que vivemos num eterno desassossego e no incómodo drama de saber como transportar todos os filhos no mesmo carro, como organizar os banhos no final do dia e como conciliar tudo isto com as reuniões fora de horas e com alguma vida social. Do outro lado está o resto o mundo, composto pelos pais de coragem mediana que da batalha da vida só conseguiram gerar um casal de filhos ou três exemplos de crias motivados pela busca da menina que faltava.

Só que a realidade não é esta. Ter muitos filhos é uma opção. Apenas isso. E quando essa opção pode ser concretizada quer dizer que os pais tiveram sorte e não coragem. Há quem queira ter muitos filhos e não possa por variadíssimas razões e há mesmo quem não queira encher a casa de crianças e não é por isso menos corajoso que um pai de meia dúzia. Quem quer e pode ter muitos filhos não é corajoso, é sortudo. Os exemplos de heróis são outros. São os pais que se levantam às seis da manhã para acudir a dois empregos, que têm filhos com problemas sérios, que transportam as crianças em transportes públicos, que não têm como pagar os ATL nas férias e que conseguem ser felizes apesar das dificuldades que não conseguem superar. O país está cheio de heróis destes, com muitos e poucos filhos; já as reportagens sobre famílias numerosas estão cheias de famílias sortudas. Tudo o resto, a felicidade que emanam umas e outras famílias, é pura especulação

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publicado às 19:10

A crise das bruxas e dos maus

por Inês Teotónio Pereira, em 15.07.14

o meu artigo de sábado no i 

 

A versão clássica dos maus da fita está em crise: já não existem maus, nem nas fitas nem em lado nenhum. Se alguém pega numa arma e assassina dezenas de pessoas numa universidade ou se um grupo de terroristas aniquila dezenas de civis, a tendência é justificar os crimes com o contexto. Porque a culpa, em primeira instância, nunca é dos autores. A culpa é quase sempre da sociedade, da globalização, dos capitalistas, do contexto familiar, dos filmes violentos, da pobreza, da liberalização da venda de armas, da religião, etc. O que prevalece nesta teoria é que as pessoas, de um modo geral, são estúpidas, coitadas, e a moral que têm ou não têm depende exclusivamente do contexto. Os maus são vítimas e, na verdade, somos todos bons selvagens, incluindo os terroristas, os assassinos, etc. Os maus são os contextos, e não os criminosos.

Esta febre de fazer tábua rasa do bem e do mal, dos maus e dos bons, à boa maneira dos filmes de cowboys e do super-homem, chegou aos contos infantis. E não, não se inventaram novos contos infantis, adulteraram-se os clássicos. Pegou-se no trabalho genial dos irmãos Grimm, de Andersen e de muitos outros que se esfalfaram a trabalhar e mudaram-se as histórias para as adaptar aos conceitos modernos e, por isso, correctos.

As histórias que foram escritas com o objectivo de traçar uma linha bem definida entre o bem e o mal, de ajudar a criar uma consciência moral, de despertar a sensibilidade das crianças, que conseguem ser mais cruéis do que qualquer bruxa má, de nos fazer chorar e de educar o nosso sentido de justiça, são hoje histórias sem heróis, sem moral e sem interesse. Hoje parte-se do princípio que as crianças, primeiro, são parvas e, segundo, que nascem sensíveis, com as doses certas de moral e com um sentimento de justiça muito apurado. Mas não é verdade, elas não nascem assim, e os clássicos infantis são obras-primas que nos ajudaram a todos a desenvolver tudo isto.

No novo filme da Disney da Bela Adormecida, a questão central é perceber porque é que a bruxa é má. E descobre-se que, afinal, a bruxa não é má: mau era o rei que lhe cortou as asas e ela, coitada, não teve alternativa senão lançar um cruel feitiço sobre a princesa para salvar o reino (enfim, é complicado...). Nesta história não há realmente maus, há contexto. E a moral da história é que tudo depende do contexto.

Também o clássico João e Maria que se conta hoje às crianças é outra história completamente diferente daquela que foi escrita. Afinal, os meninos perderam-se na floresta e não foi a madrasta e o pai que os abandonaram reiteradamente porque não tinham dinheiro para os sustentar. Nada disso. Afinal, foi por acaso que os meninos foram parar a casa da bruxa - perderam-se - e a bruxa também não caiu para dentro do forno empurrada pela heroína Maria, mas apenas ficou sem a vassoura. Aqui nem sequer há moral da história, há apenas aventura.

O que hoje se tenta passar às crianças é que o mal não existe, que os maus são bons e que qualquer coisa que mostre ou revele crueldade incita à violência. Com isto matam-se heróis e trituram- -se modelos de justiça, moral e coragem.

Até que as crianças crescem e, quando todos esperávamos que, com esta nova cultura infantil, todas elas se tornassem miniaturas da madre Teresa de Calcutá e que as guerras desaparecessem da fase da terra, eis que elas se tornaram uma geração que se está nas tintas para tudo isso. Aprenderam que há uma justificação plausível para tudo e principalmente para a maldade, por isso não há lados. A eterna luta do bem contra o mal e do final feliz é qualquer coisa que não lhes assiste. Os heróis, esses, são os futebolistas e a Miley Cyrus.

E o mais caricato de tudo isto é que os jogos de consola mais vendidos são os mais violentos, em que o protagonista principal é mesmo mau. Um mau eficaz, com estilo e impiedoso. Mas não faz mal, dizem, porque é tudo fantasia. O que faz mal é cantar aos nossos filhos o "Atirei o pau ao gato", não vão eles, quando crescerem, adoptar como desporto nacional atirar paus aos gatos.

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publicado às 18:12


A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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