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Estava eu entre o arroz, a salada e o jantar do bebé quando entra um dos meus filhos na cozinha, senta-se e diz: 

- Gosto imenso de vir para aqui para a cozinha sentar-me: gosto imenso de ver as pessoas a trabalhar. 

E disse isto sem um pingo de malícia. 

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publicado às 12:42

Tenho uma dúvida

por Inês Teotónio Pereira, em 21.10.14

Crónica desta semana no i sobre a minha genialidade maternal 

 

Eram sete da manhã. Hora da correria. O bebé chorava infeliz atrás das grades da cama, encharcado em xixi porque a fralda se descolou durante a noite. Dois dos rapazes lutavam por uma qualquer razão que tem a ver com o facto de serem rapazes e de passarem os dias a lutar. Outro cantava alegremente na banheira enquanto a fila de aflitos aumentava do lado de fora da porta. Ela, cheia de sono, recusava-se a sair da cama, na esperança de que aquele podia ser o dia em que a sua existência seria esquecia. Mas tem azar: ninguém se esquece da única menina. Da casa de banho continuava a ouvir-se a cantoria e os gritos desesperados de duas crianças agarradas à pilinha. Entretanto, o mais ágil e organizado guerreiro da manhã esgueirava-se, cheiroso, já vestido e alimentado, para a frente da televisão, para ouvir as primeiras da manhã sobre a última jornada.

Enquanto tudo isto se passava, eu questionava-me em silêncio sobre a razão que impede os meus vizinhos de venderem a casa. Ninguém merece ser acordado aos gritos por seis crianças que não lhes pertencem às sete da manhã. Sossegada, na cozinha, e absorvida por estes pensamentos enquanto o pai ia concorrendo com o cantor da banheira pela água quente, outro dos meus filhos, calmo e sereno, entrou na cozinha e declarou: "Mãe, eu tenho três perguntas para fazer. A primeira é: se Deus criou o universo, quem é que criou Deus? A segunda é: porque é que sou eu que existo e não outra pessoa qualquer? E a última é: se foi Deus que criou o homem, porque é que ele não cria mais bebés, em vez de serem só as mães a terem bebés?"

Sentei-me. Às sete da manhã, o meu cérebro tem falta de açúcar e alguns neurónios são como a minha filha e fingem que estão a dormir. Naquele instante passou-me pela cabeça usar a escassez de açúcar e o estado sonolento dos neurónios como argumentos para não responder às três questões. Mas não tive coragem. E, de repente, ocorreu-me: espera lá, eu sei as respostas. E sei. Ter muitos filhos fez de mim um génio: sei dizer porque é que as estrelas não caem, onde é que estão os anjos, para onde vamos quando morremos, porque é que o sol queima, porque é que os animais não falam, em que é que os bebés pensam, etc., etc., etc. Sei eu e sabem todos os pais. As crianças, meus senhores, fazem todas as mesmas perguntas e isso, claramente, ajuda. E estas são de algibeira: quanto à primeira respondi enigmaticamente que Deus criou Deus; à segunda, entrei na ironia: Deus criou o homem, Deus não faz bebés... E à última não respondi. Disfarcei. Fácil. Ao fim de cinco filhos, é fácil.

É verdade que, com o primeiro filho, sofremos: vamos ao Google, telefonamos aos amigos, consultamos livros e damos uma resposta científica ou filosófica, conforme a natureza da questão. Sim, dá trabalho. Mas com o segundo filho, percebemos que as perguntas que atormentaram o espírito do primeiro são mais ou menos as mesmas que atormentam o espírito do segundo. Por isso, só temos de apurar o raciocínio. Quando chegamos ao terceiro filho, constatamos que nem o primeiro nem o segundo ligaram patavina ao que nós dissemos e que, passados apenas dois ou três anos, já se esqueceram das respostas. Percebemos que devemos apostar na simplicidade infantil do tipo: "As estrelas não caem porque não devem cair." E pronto, está lá tudo. Mais que se queira dizer a uma criança de cinco anos sobre a razão que sustém as estrelas no céu é informação absolutamente inútil. Aprende-se isto com o terceiro filho. Com os outros filhos, simplificamos ainda mais o processo e resolvemos tudo com livros. Cada pergunta tem direito a um livrinho esclarecedor. Quando as estantes estão cheias, eles acabam por desistir das perguntas, com medo de serem obrigados a ler tantos livros. Mais fácil ainda.

Entretanto, alguém sabe porque é que foi este meu filho a nascer, em particular, e não outra pessoa qualquer? Ou um livro que explique o fenómeno? É que esta não sei mesmo.

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publicado às 12:35

Enquanto os bispos discutiam os divórcios e os gays na Igreja

por Inês Teotónio Pereira, em 20.10.14

o meu filho chegou a casa depois da catequese e declarou:

- Queria falar sobre duas coisas da catequese, pode ser? 

- Claro, o que se passa? 

- É que eu acho que vai ser cada vez mais difícil ser católico: somos cada vez menos e há poucas pessoas a pensar como nós.

- Mas não deve ser por haver mais ou menos pessoas a pensar como nós que deixamos de ter as nossas crenças e princípios. 

- Eu sei, mas eu também acho que não vivo bem como um cristão.

- Então porquê? 

- Porque não faço muita coisa pelos outros...

- Por quem? Cá em casa?

- Não, cá em casa não precisam. Não faço nada pelos que precisam mesmo de ajuda como os pobres, os doentes, etc. e por isso vou começar a fazer voluntariado. Não me sinto nada bem viver assim. 

- ......

- É com a minha idade que se começa a ter mais fé, não é?

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publicado às 12:24

A escola em minha casa

por Inês Teotónio Pereira, em 20.10.14

Artigo escrito no no início deste ano lectivo sobre o pesadelo dos TPC 

 

 

No início de cada ano lectivo, as conversas e discussões sobre os trabalhos de casa enviados pela escola é recorrente. Não tanto quanto as peripécias na colocação de professores, mas para lá caminha. Este assunto é normalmente restrito a pais e psicólogos de um lado e a professores do outro. Não sendo matéria legislável, o interesse do público acaba por ser residual. No entanto, só esta semana já existem manifestos, crónicas de opinião, debates em blogues e muitos comentários sobre as virtudes e os efeitos nefastos dos trabalhos de casa. Os pais agitam-se, os professores reagem e os psicólogos manifestam-se contra a falta de sono das crianças e a falta de tempo para serem crianças.

Pois a minha opinião sobre o tema é simples: sou contra os TPC por princípio. Sou contra o peso da escola na vida das famílias e sou contra todas as regras pedagógicas que são cegas às particularidades de cada criança. As crianças passam pelo menos oito horas na escola. Ali é-lhes exigido tudo: que aprendam, que cresçam social e emocionalmente, que desenvolvam hábitos de trabalho, de organização e que sejam responsáveis. Os nossos filhos vivem grande parte das suas vidas dentro de uma escola e são entregues a profissionais que têm como função ensinar-lhes tudo isto. Cada avaliação trimestral afere tudo isto e todas as competências que adquirem ao longo dos anos reflectem também tudo isto. A escola é hoje quase tudo na vida dos nossos filhos e a todos os níveis. A família apanha o que sobra. O que sobra de tempo, de disposição, de amizades e até de formação. Na maioria dos casos, esta realidade não é uma opção: o dia-a-dia, as rotinas, o trabalho, os transportes, o trânsito e a organização das nossas vidas a isso obrigam. Todos os dias resta-nos pouco tempo sem obrigações e os nossos filhos também apanham o que sobra.

É claro que os pais não devem nem podem estar alheados da vida escolar dos filhos. Mas há uma fronteira e cada macaco no seu galho. A nós cabe educar a criançada, o que não é pouco. Transmitir-lhes o que consideramos serem as prioridades da vida, ajudá-los a serem responsáveis, a terem a auto-estima a níveis razoáveis, a formar o carácter e, acima de tudo, ajudá-los a serem felizes. Sempre ligados à escola e sempre com a escola ligada às nossas vidas. Mas da mesma forma que eu não tenho qualquer autoridade na elaboração de um exame, na escolha das disciplinas que são leccionadas aos meus filhos, na forma e no ritmo com que o professor dá as aulas, também a escola não deve invadir o nosso final de dia e apropriar-se de um tempo que não é seu por direito.

Os trabalhos de casa são uma espécie de tempo roubado aos pais, às famílias e às crianças. Mesmo aquela meia hora (nunca cumprida) pedagogicamente aconselhável para ser gasta com TPC, é menos meia hora para nós os termos como filhos e não como alunos, e para eles gastarem como crianças e não como estudantes.

Sim, há matérias que precisam de ser lidas com mais atenção, exercícios que é preciso praticar e outras tarefas que são aconselháveis fora das aulas. Há crianças que precisam de trabalho extra para melhorem o desempenho, para apanharem o comboio ou para perceberem que é nas aulas e com os professores que se aprende. Mas tudo isto deve ser excepção. Em casa a autoridade é dos pais e só a eles compete decidir - ouvindo ou não o conselho dos professores - como é que os filhos devem ocupar o seu tempo sem que por isso sejam prejudicados na escola.

Não, não concordo com os TPC e ainda não encontrei uma justificação pedagógica que me fizesse mudar de opinião. Excepcionalmente, claro que sim, porque cada caso é um caso; como regra, acho que é uma espécie de tratamento invasivo e fútil. Agora vou ali ajudar os meus filhos a acabar alguns TPC porque está na hora de ir jantar e fazer figas para que os professores deles não nos castiguem com mais TPC por causa desta crónica.

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publicado às 12:22

A crise de valores e os jihadistas

por Inês Teotónio Pereira, em 15.10.14

Artigo publicado também no i na altura em que o ISIS ainda abria telejornais - há cerca de um  mês

 

Agora que milhares de jovens ocidentais resolveram sair dos sofás das suas casas e das respectivas escolas e universidades para engrossaram as fileiras dos jihadistas em conquista do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, voltou o debate sobre a crise de valores no mundo ocidental. O individualismo, o materialismo, a ausência de causas e a irrelevância das ideologias que jazem em paz entre os escombros do Muro de Berlim são apontados como os males que levaram os nossos jovens a atravessar a Europa para aprenderem a cortar cabeças e, como diz Helena Matos, a matar o próximo. A culpa, no fundo, é do capitalismo. Os jovens precisam de ideais e se não lhes dão ideais mas apenas Estado social, empresas, emprego, lucro, liberdade e outros instrumentos demoníacos, eles zangam-se. Zangam-se a sério e aderem à violência como ideal marcando como inimigo quem lhes deu a liberdade para pensarem, dinheiro para pagarem o bilhete de avião e educação para saberem onde é a Síria e o Iraque.

Não faço ideia porque é que os jovens ocidentais resolveram trocar o McDonald's pelas areias do deserto e os reality shows pela violência e pelo terror, mas desconfio que a ausência de valores na Europa não tem nada a ver com isto. Até porque na Europa e no mundo ocidental domina o valor mais importante de todos, que é a liberdade. Aqui os jovens são livres de ser muçulmanos, católicos, judeus, adventistas do sétimo dia, agnósticos, ateus, budistas ou apenas vegetarianos. Aqui podem ter ou não ter valores que ninguém se chateia com isso. O pior, o que aborrece mesmo os nossos jovens, é que não é preciso lutar por isso. Não é preciso cortar cabeças para conquistar a liberdade ou aprender a fazer cocktails molotov para defenderem uma religião. Aqui a violência condena-se, castiga-se, proíbe-se e a liberdade é um dado adquirido. Os nossos valores prendem-se mais com questões relacionadas com défice, com impostos, com a sustentabilidade da Segurança Social ou com o regresso às aulas.

O problema dos jovens criminosos jihadistas não está nos valores, está na escolha dos valores que querem defender. E estes escolheram trocar a bondade pela maldade, o amor pelo ódio, a vida pela morte, a liberdade pelo terror e o seu conforto por uma viagem aos infernos. Porquê? Não sei e desconfio que nem a própria família faz ideia. Mas continuo a achar que a crise de valores quando discutida fora do âmbito da religião nos leva sempre para terrenos pantanosos, onde domina a tese de que os meios justificam quase sempre os fins e os estados devem ter a sua cartilha de valores. O século xx ensinou-nos como isso dá mau resultado. Os valores passam de pais para filhos e é dos pais e dos filhos que se fazem as nações. Não há crise de valores, existem, sim, muitos valores e liberdade para os ter e para os defender. E é em cada casa e em cada família que se faz essa defesa; é na educação que damos aos nossos filhos que se trava a nossa luta de valores. Mas a verdade é que é mais empolgante ser contra alguma coisa que jantar à mesa todos os dias com os nossos filhos e fazer pequenos comícios sobre a importância da responsabilidade perante a liberdade que lhes é dada e que não foram eles a conquistar. É em cada casa que se combatem os jihadistas. Depois, sim, podemos olhar para essa figura abstracta que é o mundo ocidental e fazer análise política.

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publicado às 15:39

Bem-vinda, Sofia Anjos

por Inês Teotónio Pereira, em 14.10.14

(...) as pessoas não sabem distinguir um cronista de um jornalista, começa por aí. Além disso, não conseguem distinguir o que é um tom irónico de uma opinião mais séria. Levam as coisas à letra e não percebem o género literário.

- Já te sentiste ofendida por alguns comentários?
Já, claro que sim. No início, sobretudo na primeira e segunda crónica, até porque nunca tinha feito isto. Não tinha a noção do feedback que ia ter. As pessoas são malcriadas, há ofensas enormes. Depois comecei a perceber em comentários de outros artigos que as pessoas são assim. Era uma realidade que desconhecia. Tenho muitas pessoas que me seguem e, mesmo não gostando, estão lá todas as semanas para me ler: acho que há alguma identificação, apesar de não assumida. Mas também há muita gente que se identifica e eu tenho tido comentários muito interessantes em relação a isso, com pessoas que me chegam a agradecer.

- Sentes que, no geral, as pessoas evitam falar das coisas menos boas da maternidade?
As coisas são feitas de sentimentos bons e maus. Existe algum pudor, eu percebo, a nossa vida privada é nossa. Mas isto não é assim tão cor-de-rosa. É maravilhoso, mas há uma parte que realmente é dura. Acho que se embeleza um pouco a coisa.

- O que faz falta quando se fala em maternidade?
As pessoas não têm muito humor. Faz falta sentido humor e leveza na maternidade. Eu não sou humorista, de todo, mas tenho uma visão mais irónica das coisas. Como é difícil, ou tu levas a coisa um pouco a rir ou então… As famílias têm muito pouco humor.

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publicado às 14:15

por Inês Teotónio Pereira, em 14.10.14

- Mãe, quando eu tiver filhos posso deixá-los aqui em casa de vez em quando?

- Claro! 

- E quando fôr de lua-de-mel com a minha mulher, posso deixá-los durante duas semanas?  

 

 

 

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publicado às 12:34

Memórias de férias

por Inês Teotónio Pereira, em 14.10.14

Já este texto foi escrito em plenas férias, também no i, e é sobre as férias - como indica o título. Ora bem, este singelo e inocente texto suscitou, no entanto, algumas críticas. E porquê? pergunta espantado e em silêncio o caro leitor por suspeitar, e bem, que este é um daqueles temas tão incolores quanto a água. Pois, a verdade é que eu também não imaginei que um texto sobre as férias de Verão pudesse despertar qualquer espécie de fel. Ingenuidade minha. Muitos leitores indignaram-se com esta prosa por considerarem que este texto era um insulto ao Algarve. Não é!  Eu jamais faria uma coisa destas. Mas ainda assim desculpem aqueles leitores que se sentiram ofendidos, não era minha intenção ofender tão nobre região. Até porque eu nunca passei lá férias. 

 

Nunca fui ao Algarve passar férias. Nem sei como é. As minhas praias das férias grandes, as de Agosto, têm de ter água fria, ondas grandes, cheiro a limos e a algas, pocinhas nas rochas quando a maré está vazia, muito iodo e o tempo é sempre uma incerteza. São praias em que o mar vira quando muda a lua e em que a cor da bandeira quer mesmo dizer qualquer coisa. Praias em que os nadadores salvadores treinam para super-heróis porque todos os Verões salvam mesmo alguém. Praias onde os toldos têm como utilidade principal proteger da cacimba ou da nortada e não do sol que prefere ir passar férias ao Algarve.

Cresci assim. A jogar ao prego debaixo do toldo, a ir ao mar por diversão e como prova de valentia e não por estar com calor, em que só se punha fim aos banhos de mar quando se tinha a boca roxa, as extremidades do corpo anestesiadas e o fato de banho cheio de areia como prova de que tínhamos sobrevivido estoicamente à rebentação. Cresci a ir para a praia de manhã para cumprir uma rotina, e porque era mais saudável, com a esperança de que o céu "abrisse" à hora de almoço e o sol desse um ar da sua graça. Nas minhas férias grandes as amizades que criei tinham como critério as crianças da minha idade que tinham os toldos ao lado do meu e uns pais que também achavam mais importante o "ar de mar" e o iodo do que o calor ou o mar chão e quente.

Crescemos todos assim, em modo tribal. Donos e senhores das nossas praias, com gíria, hábitos e rotinas próprios e com mais iodo acumulado no corpo do que escaldões. Nas minhas férias grandes a praia era um cenário, não era um fim. A praia servia para brincar, cimentar amizades durante um mês inteiro, ir às poças procurar qualquer coisa que mexesse, que se conseguisse apanhar para pôr no balde e para os nossos pais nos soltarem e descansarem de nós.

Durante um mês experimentávamos outra vida, outras rotinas e tínhamos outros amigos. Só precisávamos dos pais para nos pagarem o bolo ou o gelado dia sim dia não. Éramos livres por 30 dias. A cacimba, a nortada e a água gelada eram pormenores que não interferiam na nossa felicidade. O que importava era a liberdade de andar em bando na praia ou fora dela sem horas para refeições e imunes às combinações. Todos os dias o cenário era o mesmo e a praia ia muito para além da areia e do mar. O cenário era toda uma vila por onde se andava a pé ou de bicicleta e onde se chocava em cada esquina com alguém que nos conhecia desde que nascemos. Todos os anos havia as mesmas festas, os mesmos jogos, as mesmas pessoas, os mesmos cafés, os mesmos baloiços e as pocinhas nas rochas nunca mudavam de sítio.

Nunca soube o que era ir passar férias para a praia exclusivamente para apanhar sol. Na minha perspectiva o sol era um bónus nas férias. Nas férias fugíamos no calor da cidade - íamos ser livres e soltos para o fresquinho da beira-mar e para sítios que faziam com que os dentes dos bebés crescessem mais depressa.

Apesar de os tempos terem mudado, de o Algarve ser um destino de férias de gabarito mundial e de serem cada vez mais escassos os períodos de férias que os pais conseguem ter com os filhos, as minhas férias grandes não mudaram. Com mais ou menos semanas mantenho estas rotinas com os meus filhos. Também eles não sabem o que é passar férias no Algarve e também eles dominam o jogo do prego e o enrola na rebentação quando a bandeira está amarela. Eles sabem que à hora de almoço o céu abre e que o mar vira quando a lua muda.

As poucas coisas que conseguimos dar aos nossos filhos são memórias. E as memórias das férias grandes, das pocinhas das rochas que nunca mudam de sítio, são uma linha inquebrável entre nós e eles.

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publicado às 12:16

O beicinho do meu filho

por Inês Teotónio Pereira, em 14.10.14

Artigo publicado há dois meses no i, mas não perdeu a actualidade pois mantém-se a situação que envolve o beicinho do meu filho 

 

Quando me zango com o meu filho mais novo ele faz beicinho na esperança de eu me comover; caso eu não me comova e mantenha o sobrolho carregado, ele exibe o seu melhor sorriso na esperança de eu me derreter. Resulta quase sempre e é raro ele precisar de recorrer ao sorriso. O meu filho mais novo tem um ano. A criatura ainda não sabe andar, não fala, nem sequer sabe comer sozinha, mas já é perita em técnicas de simulação e de charme que supostamente requerem muito mais inteligência e esforço mental do que dormir sem chucha. É verdade que ele ainda não me engana redondamente e que todas as vezes que me comovi ou me derreti com o seu beicinho ou sorriso - 97% das vezes, mais ou menos - cedi perfeitamente consciente da minha cedência. E é assim, de cedência em cedência, que a criança vai ficando cada dia mais mimada, mais manipuladora e, claro, insuportavelmente encantadora. Conscientemente mimada. O meu filho percebeu ao fim de 12 meses de existência que a sua vida se pode tornar bastante mais agradável se dominar as referidas técnicas de manipulação. Ele sabe enganar-me e sabe que eu me derreto com as estratégias de engano. Este simples episódio doméstico revela duas evidências: a primeira é que nós pais somos presas fáceis, a segunda é que os nossos filhos são uns manipuladores impiedosos. O pior é que se isto é assim com um ano - repito: ele ainda não sabe falar nem andar - como será quando ele tiver 16?

Nós pais vivemos enganados e somos diariamente enganados pelos nossos filhos. Aldrabados, mesmo. Vivemos enganados porque achamos que os conhecemos melhor que a palma da nossa mão e controlamos na perfeição as suas técnicas de manipulação. Achamos que somos os verdadeiros donos disto tudo e que não há ninguém que nos consiga passar a perna. Estamos convencidos que em nossa casa só nós é que passamos a perna aos nossos filhos, nunca o contrário. Acreditamos ingenuamente que o controlo emocional é nosso. Já a criançada, que desde tenra idade domina as técnicas mais desprezíveis de manipulação, vai-nos dando corda para nos enforcarmos ao mesmo tempo que vai conquistando a nossa cega e inabalável confiança. Eles tornam-se geniais na chantagem emocional, peritos em carregar-nos com o peso dos remorsos e exímios simuladores de personalidades diversas. Nós, pais, vamos facilmente nas cantigas. Até porque gostamos da melodia. E a cantiga dos nossos filhos é como os cigarros: começa por ser só um por semana mas quando damos por nós já estamos a comprar maços diariamente. A cantiga dos filhos também começa apenas com um beicinho mas acaba com a cantiga do bandido segundo a qual a professora é que é má e não sabe ensinar e os amigos é que são os irresponsáveis. E nós pais acreditamos em tudo. Queremos e gostamos de acreditar. Não vivemos sem o beicinho enganador e gostamos de ser convencidos pelos nossos filhos de que eles são bons rebeldes, gente de bem e palavra, valentes e virtuosos, crianças sensíveis e incapazes de matar uma mosca por mal. Gostamos que eles nos convençam que são aquilo que queremos que sejam. E eles sabem qual é o guião. Desde que nasceram que sabem qual é guião. E sabem perfeitamente que se o cumprirem à risca melhor para eles e para nós. Mas não há nada mais maravilhoso que este engano. A nossa ingenuidade, a nossa inabalável confiança, a nossa fé nos metralhas dos nossos filhos é aquilo que nos torna melhores pessoas e a eles melhores filhos. Para nós os defeitos dos nossos filhos são meros acidentes perfeitamente insignificantes e todos eles justificáveis. Aliás, nem são bem defeitos, são características. É por pensarem assim que os pais são as melhores pessoas do mundo: os pais acreditam sempre nos filhos. Sempre. Somos pessoas de uma fé inabalável nas crias. Mesmo que saibamos que estamos completamente enganados. É que estar enganado neste caso é um pormenor: o que verdadeiramente interessa é o beicinho. A maravilha do beicinho e do sorriso encantador. O resto são detalhes mesquinhos.

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publicado às 12:10

Olá

por Inês Teotónio Pereira, em 14.10.14

Desde Julho que não meto aqui os pés. Por nenhuma razão especial, apenas preguiça. Isto de ter um blog é um pouco como ter um animal de estimação: a ideia é gira mas dá trabalho. É preciso disposição, disponibilidade e paciência. Mas como não sou pessoa de abandonar animais de estimação só porque não me apetece brincar mais, também não consigo abandonar este blog. Este blog viu os meus filhos nascerem, já publicou dois livros, sobreviveu a três governos, a três secretários gerais do PS, assistiu ao Sporting consagrar-se uma vez campeão nacional e mantém-se atento ao desenvolvimento da situação internacional na Ucrânia, do avanço dos jihadistas na Síria e da polémica que envolveu a morte do Excalibur, o cão espanhol. Veremos como corre a nova temporada do A Um Metro do Chão. Os comentários, esses, mantém-se sujeitos a censura prévia, tal como tudo o resto é mais do mesmo. 

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publicado às 11:40

Filhos da sorte

por Inês Teotónio Pereira, em 22.07.14

O meu artigo de sábado do i 

 

Esta semana o Observador fez uma reportagem com o título "A coragem de ter muitos filhos". Entrevistou três famílias com mais de quatro filhos, vasculhou nos hábitos, nas rotinas e nas opções dos pais e fotografou as crianças para a posteridade. Estas reportagens são recorrentes e aparecem ao mesmo ritmo que os inquéritos sobre a literatura que os famosos levam para as férias.

Os leitores são curiosos e, como dizia Eça de Queiroz, qual é o interesse do pôr do Sol no Monte Everest em comparação com o drama da família do 3.o esquerdo? Nenhum. Nada de novo, portanto, e a crise da natalidade é um bom mote para este tipo de reportagens. O leitor quer saber o porquê de tantos filhos, quais as dificuldades, quais as motivações que levam a tanta reprodução, como se organiza o dia-a-dia dos pais e dos filhos e ler um ou outro testemunho de felicidade. E o leitor nunca é surpreendido: em nenhuma destas reportagens os pais estão arrependidos do tamanho da prole, não querem doar nenhum dos filhos, e há quase sempre uma motivação divina por detrás da reprodução. A felicidade, essa, irradia através das fotografias. Quem não tem muitos filhos rói as unhas de desalento ao ler estas prosas e estes testemunhos de felicidade, da mesma forma que os menos endinheirados se torcem de inveja quando as revistas revelam a vida dos ricos, o tamanho das mansões em que habitam e a cilindrada dos carros que conduzem. Nestas reportagens, filhos ou carros cumprem a mesma função.

O objectivo destas prosas é apresentar aos leitores exemplos de sucesso e modelos familiares: a mensagem pouco subliminar é mostrar que quanto mais filhos melhor, pois as dificuldades adjacentes superam-se. E não, os testemunhos não são de famílias que vivem num 3.o esquerdo de um bairro social, essas entram no capítulo das reportagens sobre a crise social e cultural. Estas famílias corajosas que dão mote às inúmeras reportagens sobre a crise da natalidade são bonitas, letradas e só passam por bairros sociais.

O Observador, dando como exemplo estas famílias, destacou ainda assim a coragem de ter muitos filhos. Em oposição, temos então os medricas que têm poucos filhos e percebemos com a ajuda deste adjectivo que a questão da natalidade afinal é uma questão de bravura. Exibe-se assim o triunfo dos pais rodeados de crianças como se estas fossem troféus da batalha da vida. Seguindo esta lógica, observamos através do Observador que os bravos somos nós, pais de uma prole imensa, que vivemos num eterno desassossego e no incómodo drama de saber como transportar todos os filhos no mesmo carro, como organizar os banhos no final do dia e como conciliar tudo isto com as reuniões fora de horas e com alguma vida social. Do outro lado está o resto o mundo, composto pelos pais de coragem mediana que da batalha da vida só conseguiram gerar um casal de filhos ou três exemplos de crias motivados pela busca da menina que faltava.

Só que a realidade não é esta. Ter muitos filhos é uma opção. Apenas isso. E quando essa opção pode ser concretizada quer dizer que os pais tiveram sorte e não coragem. Há quem queira ter muitos filhos e não possa por variadíssimas razões e há mesmo quem não queira encher a casa de crianças e não é por isso menos corajoso que um pai de meia dúzia. Quem quer e pode ter muitos filhos não é corajoso, é sortudo. Os exemplos de heróis são outros. São os pais que se levantam às seis da manhã para acudir a dois empregos, que têm filhos com problemas sérios, que transportam as crianças em transportes públicos, que não têm como pagar os ATL nas férias e que conseguem ser felizes apesar das dificuldades que não conseguem superar. O país está cheio de heróis destes, com muitos e poucos filhos; já as reportagens sobre famílias numerosas estão cheias de famílias sortudas. Tudo o resto, a felicidade que emanam umas e outras famílias, é pura especulação

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publicado às 19:10

A crise das bruxas e dos maus

por Inês Teotónio Pereira, em 15.07.14

o meu artigo de sábado no i 

 

A versão clássica dos maus da fita está em crise: já não existem maus, nem nas fitas nem em lado nenhum. Se alguém pega numa arma e assassina dezenas de pessoas numa universidade ou se um grupo de terroristas aniquila dezenas de civis, a tendência é justificar os crimes com o contexto. Porque a culpa, em primeira instância, nunca é dos autores. A culpa é quase sempre da sociedade, da globalização, dos capitalistas, do contexto familiar, dos filmes violentos, da pobreza, da liberalização da venda de armas, da religião, etc. O que prevalece nesta teoria é que as pessoas, de um modo geral, são estúpidas, coitadas, e a moral que têm ou não têm depende exclusivamente do contexto. Os maus são vítimas e, na verdade, somos todos bons selvagens, incluindo os terroristas, os assassinos, etc. Os maus são os contextos, e não os criminosos.

Esta febre de fazer tábua rasa do bem e do mal, dos maus e dos bons, à boa maneira dos filmes de cowboys e do super-homem, chegou aos contos infantis. E não, não se inventaram novos contos infantis, adulteraram-se os clássicos. Pegou-se no trabalho genial dos irmãos Grimm, de Andersen e de muitos outros que se esfalfaram a trabalhar e mudaram-se as histórias para as adaptar aos conceitos modernos e, por isso, correctos.

As histórias que foram escritas com o objectivo de traçar uma linha bem definida entre o bem e o mal, de ajudar a criar uma consciência moral, de despertar a sensibilidade das crianças, que conseguem ser mais cruéis do que qualquer bruxa má, de nos fazer chorar e de educar o nosso sentido de justiça, são hoje histórias sem heróis, sem moral e sem interesse. Hoje parte-se do princípio que as crianças, primeiro, são parvas e, segundo, que nascem sensíveis, com as doses certas de moral e com um sentimento de justiça muito apurado. Mas não é verdade, elas não nascem assim, e os clássicos infantis são obras-primas que nos ajudaram a todos a desenvolver tudo isto.

No novo filme da Disney da Bela Adormecida, a questão central é perceber porque é que a bruxa é má. E descobre-se que, afinal, a bruxa não é má: mau era o rei que lhe cortou as asas e ela, coitada, não teve alternativa senão lançar um cruel feitiço sobre a princesa para salvar o reino (enfim, é complicado...). Nesta história não há realmente maus, há contexto. E a moral da história é que tudo depende do contexto.

Também o clássico João e Maria que se conta hoje às crianças é outra história completamente diferente daquela que foi escrita. Afinal, os meninos perderam-se na floresta e não foi a madrasta e o pai que os abandonaram reiteradamente porque não tinham dinheiro para os sustentar. Nada disso. Afinal, foi por acaso que os meninos foram parar a casa da bruxa - perderam-se - e a bruxa também não caiu para dentro do forno empurrada pela heroína Maria, mas apenas ficou sem a vassoura. Aqui nem sequer há moral da história, há apenas aventura.

O que hoje se tenta passar às crianças é que o mal não existe, que os maus são bons e que qualquer coisa que mostre ou revele crueldade incita à violência. Com isto matam-se heróis e trituram- -se modelos de justiça, moral e coragem.

Até que as crianças crescem e, quando todos esperávamos que, com esta nova cultura infantil, todas elas se tornassem miniaturas da madre Teresa de Calcutá e que as guerras desaparecessem da fase da terra, eis que elas se tornaram uma geração que se está nas tintas para tudo isso. Aprenderam que há uma justificação plausível para tudo e principalmente para a maldade, por isso não há lados. A eterna luta do bem contra o mal e do final feliz é qualquer coisa que não lhes assiste. Os heróis, esses, são os futebolistas e a Miley Cyrus.

E o mais caricato de tudo isto é que os jogos de consola mais vendidos são os mais violentos, em que o protagonista principal é mesmo mau. Um mau eficaz, com estilo e impiedoso. Mas não faz mal, dizem, porque é tudo fantasia. O que faz mal é cantar aos nossos filhos o "Atirei o pau ao gato", não vão eles, quando crescerem, adoptar como desporto nacional atirar paus aos gatos.

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publicado às 18:12

Escola exclusiva

por Inês Teotónio Pereira, em 08.07.14

o meu artigo no i de sábado 

 

 

No final da década de 70, um estudo sobre o sistema educativo publicado em Inglaterra concluía que, "ao longo da escolaridade básica, uma em cada cinco crianças apresentará, em algum momento, necessidades educativas que implicam a adequação do processo de ensino e aprendizagem". Ora, tendo eu seis filhos e tendo em conta esta média, a probabilidade de um deles apresentar as referidas necessidades educativas era grande. E assim foi: um deles tem dislexia grave. Com ele entrei no mundo das necessidades educativas especiais e da escola inclusiva. Passámos por tudo: diagnósticos, relatórios, consultas várias, avaliações, plano educativo individual, ensino especial, etc. Uma viagem acima de tudo técnica, com linguagem própria, cheia de obstáculos, angústias, siglas e muito, muito difusa. No mundo da educação especial as definições são abrangentes, pouco consensuais e o universo é amplo: vai da deficiência às dificuldades de aprendizagem; vai das necessidades educativas que têm origem na deficiência a um simples problema fonológico. Em Portugal existem 62 100 famílias que, tal como a minha, viajam por este mundo. Uma viagem alucinante e quase sempre solitária.

Em Portugal existe o princípio da escola inclusiva, segundo o qual todos, independentemente de dificuldades ou deficiências, têm o seu lugar na escola. O princípio está correcto e é unanimemente aceite, mas será que na prática a escola portuguesa é mesmo inclusiva? Ainda não. Na educação especial cada caso é um caso único, que precisa de respostas rápidas, intervenções eficazes e objectivos consistentes. É verdade que todos os alunos têm acesso à escola, mas não é verdade que todos estejam incluídos, ou seja, que as suas necessidades tenham resposta e que façam um percurso evolutivo dentro da escola pública. Muitos ficam pelo caminho, pois a escola não os integra verdadeiramente. A verdade é que os meios que muitas escolas disponibilizam não são suficientes, e na educação especial quem tem dinheiro tem meio caminho andado. Também é real o fatalismo com que se tende a marcar o destino destas crianças, ou porque são apenas rotulados de maus alunos ou porque se considera estupidamente que não serão adultos produtivos.

E quais são as principais lacunas deste sistema chamado inclusivo? Começam logo por aquilo a que tecnicamente se chama de enquadramento. Se a criança tem uma deficiência ou uma dificuldade permanente, tem direito a ser enquadrada na chamada escola inclusiva e o privilégio de ter acesso aos planos de intervenção e aos meios que existem. Mas se o seu problema for temporário e "curável", só a sensibilidade do professor, a insistência dos pais, o dinheiro ou a sorte a conseguem enquadrar. Se nenhuma destas variáveis existir, as necessidades temporárias podem tornar-se permanentes, o insucesso escolar inevitável e o abandono escolar um sério risco. Nesta fronteira estão milhares de famílias. Famílias em que os filhos apresentam dificuldades de aprendizagem mas não têm dinheiro para pagar uma avaliação externa e têm o azar de o professor continuar à espera do famoso clique.

Quando as necessidades são reais e diagnosticadas a tempo, diz a doutrina, a lei e o bom senso que os alunos têm direito a um percurso escolar digno, consistente e que responda às suas necessidades concretas. Mas também aqui a distância entre a teoria e a prática é grande. São muitos - demais - os alunos que frequentam a escola para cumprirem a escolaridade obrigatória e apenas para a cumprirem. O que no final dos 12 anos levam para casa é pouco, quer em termos de competências adquiridas quer em termos de autonomia. O diagnóstico da nossa escola inclusiva está feito e é mais ou menos consensual. Há umas semanas o Conselho Nacional de Educação sistematizou em pormenor o que falha e aquilo que é urgente fazer. A boa notícia é que não implica gastar mais dinheiro: apenas mais formação dos professores, uma gestão eficaz dos meios já existentes, alterações legislativas pontuais, mais e melhor coordenação entre as entidades da Saúde, da Segurança Social e da Educação e muito bom senso. Depois, sim, podemos dizer que a escola portuguesa é realmente inclusiva.

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publicado às 12:05

Educação de café

por Inês Teotónio Pereira, em 01.07.14

O meu artigo de sábado no i 

 

Um dos maiores erros que se comete quando se fala de educação é opinar também sobre pedagogia. A pedagogia, a par do futebol, é um dos temas mais apetecíveis nas conversas de café. Todos têm uma palavra a dizer sobre metas curriculares, dificuldade dos exames, métodos de aprendizagem de leitura, desenvolvimento do pensamento abstracto, exercício de memória, etc. Não interessa a formação que se tem, interessa a sensação que se tem sobre cada um destes temas. A educação, assim como o futebol, está repleta de treinadores de bancada especialistas em pedagogia. Ao contrário do que acontece, por exemplo, no sector da saúde, em que os treinadores de bancada apenas discutem a organização, o tempo de espera nas urgências e as taxas moderadoras, e não as diferentes técnicas de execução de uma cirurgia de peito aberto, na educação as opiniões sobre as técnicas dominam o debate.

Ora este fenómeno intoxica a discussão sobre o sistema educativo por duas razões. Primeiro porque nos desvia do essencial - e o essencial são os resultados, por serem o único dado objectivo. Resultados, não só da classificação final, mas também de taxas de insucesso, de progressão, de abandono, etc. E, segundo, porque empurra a solução de todos os problemas da escola e da aprendizagem para a adopção de apenas um dos diversos métodos de aprendizagem que cada português defende. Como se a solução fosse o Estado adoptar aquilo que o ministro da Educação que há em cada português defende pedagogicamente.

E a verdade é que pedagogicamente falando estou bastante confusa. Das cinco experiências educativas que tenho em casa não consigo tirar um método único que sirva para todos. Tenho de tudo para todos os gostos: tenho crianças com dificuldade de aprendizagem, necessidades educativas, pensamento abstracto apurado, memória prodigiosa e pensamento abstracto nulo, raciocínio rápido, alunos motivados e desmotivados, seguros e inseguros, preguiçosos e trabalhadores, com aptidão natural para línguas e sem aptidão natural ou adquirida para línguas, que memorizam mais do que raciocinam e que raciocinam mais do que memorizam. Os cinco ministros da Educação que existem em mim conseguem apresentar facilmente cinco métodos de aprendizagem diferentes, que vão do ensino da leitura ao raciocínio abstracto. Todos eles eficazes para cada um dos fenómenos que tenho em casa. Por isso há muito tempo concluí que pedagogicamente falando não há métodos únicos nem é aconselhável a adopção de apenas um centralmente.

As palavras-chave são três: professores, autonomia e avaliação. Professores, porque só eles sabem quais os melhores métodos a adoptar para os seus alunos, quais as estratégias mais eficazes e quais as respostas adequadas às dificuldades que eles vão apresentando. São eles os especialistas e não os políticos ou sequer os pais. Autonomia, porque só concedendo verdadeira autonomia pedagógica às escolas se consegue que o desempenho dos professores seja eficaz, libertando-os das amarras do método único que todos devem cumprir em cada ano de escolaridade independentemente do perfil dos alunos. Avaliação, porque só avaliando uniformemente as escolas e os alunos no final de cada ciclo se consegue aferir o sistema e conhecer as suas fragilidades. Os objectivos devem ser iguais para todos, ao contrário das formas para os cumprir, que podem e devem ser distintas.

O acesso de todos à educação é hoje um direito adquirido. O nosso problema é o sucesso educativo de todos. Mas para responder a esse desafio não é na opinião dos diversos ministros da Educação que encontramos a resposta: eles são apenas ministros com a missão de criarem mecanismos eficazes para que o sistema seja mais flexível, autónomo e, no final, possível de avaliar. É sim na opinião de cada professor que está a resposta ao sucesso de cada um dos nossos filhos. Do ministro esperamos que confie em quem sabe dando-lhes autonomia para cumprirem a sua missão de ensinar e facilitando o seu trabalho eliminando a burocracia da sua agenda. É disto que se deve falar quando se fala de educação. Quanto aos métodos de leitura ou à dificuldade do exame de matemática, são temas tão polémicos e pacíficos quanto os cortes de cabelo de Ronaldo - em que só o barbeiro do próprio está habilitado a responder.

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publicado às 12:11

...

por Inês Teotónio Pereira, em 26.06.14

Boa notícia:

- Os meus três filhos mais velhos vão passar quatro dias fora. 

Má notícia:

- Durante quatro dias vou ficar sem os três babysiters dos meus três filhos mais novos.  

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publicado às 11:57

Procura-se especialista

por Inês Teotónio Pereira, em 24.06.14

O meu artigo de sábado no i 

 

Existem duas entidades em quem os pais já não confiam: neles próprios e nos avós. Ao fim de séculos a confiar nestas duas instituições milenares chegou a altura de atirar a toalha ao chão e de procurar novas experiências que ajudem a educar e a criar os filhos. Nada do que valia, agora vale, é esta a infeliz certeza das novas gerações de pais. Está tudo em aberto no que diz respeito há educação ou à criação dos filhos e tudo pode ser dito e escrito porque haverá sempre interessados, likes, polémica e comentários. Está tudo em aberto: do mais importante ao mais ridículo.

Os pais acham que não sabem coisa alguma sobre a arte de educar e criar filhos. Confiam mais em qualquer livro, em qualquer especialista - seja ele pediatra, sociólogo, neuropsicólogo, ou apenas estudioso - ou em blogues, que ditam sentenças e teorias, do que neles próprios. A intuição foi de férias para parte incerta e os avós, bom, os avós são mais velhos e não estão inteirados dos tempos modernos: os tempos são outros, por isso as crianças também devem ser diferentes. Sim, é um mistério que apesar da falta de doutrina publicada e da escassez de especialistas encartados durante todos estes milénios, a humanidade tenha conseguido sobreviver.

E quais são os temas centrais que preocupam os pais e que servem de substrato para a sobrevivência de tantos especialistas? Tudo e mais um par de botas. Há umas semanas estoirou uma polémica dentro da temática pais e filhos que, tendo em conta o entusiasmo que suscitou, põe em causa a importância de assuntos como os massacres no Iraque ou o próprio joelho de Ronaldo. Um pediatra espanhol, um verdadeiro especialista em vender livros na Ibéria, deu uma entrevista ao Observador onde declara peremptoriamente que as crianças não devem ser castigadas, devem dormir na cama dos pais até à idade que entenderem, que os legumes não fazem falta nenhuma à dieta ibérica dos nossos infantes e, pasme com a grande novidade, os pais devem amar os filhos. O mundo paternal estremeceu e o debate centrado nos legumes, na cama dos pais e nos castigos tomou conta da temática pais e filhos. Ficámos, então, todos a saber que há um mundo de filosofia por detrás destes temas.

Esta semana o Observador descobriu mais um especialista espanhol, que também é campeão literário de vendas, que revela o segredo na arte de adormecer uma criança: "A ideia é deixar as crianças na sua própria cama, com a luz do quarto apagada e a porta aberta. É provável que chorem, pelo que os pais devem visitar os filhos, em intervalos de tempo progressivamente maiores, no sentido de os acalmar. A calma e a serenidade são factores importantes." O mesmo método deve ser aplicado na arte de enfiar legumes pela boca abaixo dos nossos filhos: calma e serenidade; assim como no que toca à disciplina: constância em vez de rigidez. O mundo dos pais dividiu--se entre os dois espanhóis. Está uma verdadeira revolução em curso.

O caso é sério. O facto de haver mercado para estes especialistas é um caso sério porque é a constatação de que os pais acham que não conseguem sozinhos descobrir fórmulas para adormecerem os filhos, que não sabem como fazer com que seres que têm um terço do seu tamanho comam um prato de sopa e não consideram claro como água que as crianças precisam de regras coerentes, constantes e de sanções caso haja necessidade de as forçar a respeitarem as ditas regras. Quanto à evidência de "terem de ser amadas", nem sei que diga.

O caso é sério porque revela que os pais se consideram incompetentes para responderem a estas questões e não confiam em quem os educou - nos avós - para esclarecerem as dúvidas. É sério porque parece que, afinal, a experiência e a intuição não servem para nada. Não há por aí mais um especialista que queira escrever sobre isto?

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publicado às 15:17

- Este diz melhor mal do que o outro por isso é que vai ganhar. É isso, não é? 

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publicado às 15:03

Nós e eles

por Inês Teotónio Pereira, em 17.06.14

De repente a selecção já não somos nós mas sim eles. 

 

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publicado às 17:21

Portugal - Alemanha

por Inês Teotónio Pereira, em 17.06.14

Não há nada mais eficaz que levar 4-0 para se ter a criançada em silêncio. 

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publicado às 17:13

Modern family em família

por Inês Teotónio Pereira, em 17.06.14

- Se duas senhoras se casarem podem ter filhos?

(responde a irmã de oito anos):

- Claro que não: não vês que é preciso uma ligação para ter filhos!   

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publicado às 17:08


A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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