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Tenho seis crianças em casa com um adulto

por Inês Teotónio Pereira, em 18.12.14

tenho medo de ligar para lá e estou com muita pena do adulto. 

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publicado às 12:40

Ainda não comprei um único presente de Natal

por Inês Teotónio Pereira, em 18.12.14

E sinto-me bem. 

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publicado às 12:37

humor-de-mãe-3D_net.jpg

 

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publicado às 11:02

No Natal sou quase comunista

por Inês Teotónio Pereira, em 17.12.14

O meu artigo no i de sábado 

 

O grande problema do capitalismo é que torna os meus filhos gananciosos. Vivessem eles num sítio onde não fossem bombardeados com anúncios e lojas onde a felicidade se vende a prestações ao preço da pêra-rocha e tínhamos todos uma vida mais calma e mais contemplativa. Em que eu teria mais tempo para contemplar a natureza e a filosofia, e eles menos tempo para pedinchar. Mas a realidade é adversa ao nosso bem-estar e, por isso, à felicidade dos meus filhos. E a culpa é do capitalismo, sem dúvida. Os meus filhos ambicionam o iPhone 6 e querem o seguinte: um cativo em Alvalade, passar pelo menos uma semana na neve ou nove dias e sete noites em Nova Iorque, ir a Madrid conhecer o Cristiano Ronaldo, uma quinta com cavalos e cães, comer pipocas e beber coca--cola às refeições e um cartão multibanco ilimitado para comprarem selvaticamente cromos para a caderneta referente à época 2014/2015 e gomas. Para já, é só. Mas na próxima semana pode ser que tenham outras ideias. Terão certamente. E eles querem tudo isto porque sabem que tudo isto existe. Vêem televisão, assimilam os anúncios, passam pelas montras e navegam na internet, corando de ansiedade e palpitando de desejo de cada vez que encontram uma novidade comercializável.

Para fazer frente a este bezerro de ouro disfarçado de brinquedos, tecnologia e viagens, estou cá eu. Eu, uma força de bloqueio entre eles e o capitalismo que nos entra pelas frechas mais recônditas das nossas vidas e nos polui a alma. Estou cá eu para dizer que não. Por isso, passo os dias a dizer não e já digo não porque sim, sem pensar. "Oh mãe podemos comprar... ?" "Não", respondo prontamente, sem os deixar acabar a frase. E eles, pobres vítimas deste capitalismo cruel, entristecem. Querem ter, mas não podem ter. Vendo- -lhes insistentemente a teoria saudável para o meu bolso que não ter faz crescer. É preciso que as crianças aprendam a lidar com a frustração, dizem os especialistas. Percebo, mas eles não. Se é assim, porque é que os amigos têm coisas que eles ambicionam e porque é que as crianças dos anúncios estão tão felizes? É muito melhor não ser frustrado, concluem com razoável discernimento e bom senso os nossos pequenos gananciosos.

Sim, o capitalismo polui a alma dos meus filhos e não me deixa outra alternativa senão ser contra ele. Justiça a sério, Natal genuíno, só se consegue vivenciar interrompendo o capitalismo por alguns meses. Ou têm todos ou não tem ninguém. A alternativa é deixar esse monstro aguçar a inveja e despertar a ganância das nossas crias ao som de uma melodia natalícia. É maldade haver tanto por onde escolher e mesquinho oferecer tudo isto enquanto toca o "Jingle Bells" nos corredores dos centros comerciais.

Natal são os presentes, as férias e comer bem. E é por isso que o Natal é a festa mais popular de todas. Não houvesse a tradição de darmos presentes uns aos outros, e às crianças em particular, e o 25 de Dezembro tinha entrado na lista de feriados a eliminar: seria razoável questionar a sua pertinência numa sociedade que se quer laica. Natal, meus senhores, é quando o capitalismo revela o seu esplendor máximo: sonso, ganancioso, materialista e financiado pelos bancos. Bancos maus que emprestam aos pais para darem aos filhos, sabendo que são os filhos que acabam a pagar os créditos. Soubessem os Reis Magos o que nós sabemos hoje e não se tinham aventurado atrás de uma estrela para darem presentes ao Menino Jesus. Foi, obviamente, uma má opção.

Por mim, pelos meus filhos, ou se acabava com o Natal ou se acabava com o capitalismo. As duas coisas não funcionam juntas: como é possível conciliar o espírito natalício do anúncio do azeite Galo com o plafond do nosso cartão de crédito e com a pedinchice infantil? Não é. No Natal comungo do anticapitalismo comunista. Não fosse o "pormenor" religioso da data e seria mesmo comunista durante todo o Advento; só vacilo porque não tenho a certeza de que os comunistas não ofereçam, também eles, presentes para festejar o nascimento de Jesus. Enfim, tirando o Papa Francisco, restam-me poucos aliados para enfrentar os meus filhos nesta quadra capitalista.

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publicado às 10:52

Para a próxima digo pêra rocha

por Inês Teotónio Pereira, em 17.12.14

- Alguém dê uma pêra ao bebé para ele se calar!
- Uma pêra...? Não podemos dar só uma palmada no rabo...?

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publicado às 10:48

- O teu filho mais novo é muito mimado?

- Não! Ele grita muito, é verdade, e  por isso nós acabamos por lhe fazer as vontades todas. Mas não é mimado, tem é muita personalidade.  

 

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publicado às 10:45

simplificações

por Inês Teotónio Pereira, em 11.12.14

- Não quero casar. 

- Porquê? 

- É difícil... 

- Porquê? 

- Porque se gasta muito dinheiro e não me apetece andar por todo o lado à procura de alguém para casar comigo. Não sei como escolher, é muito cansativo. .  

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publicado às 10:27

O planos profissionais do meu filho de sete anos: 

- Vou ser futebolista até aos trinta anos, depois vou ser arranjador ou engenheiro até aos 40, a seguir vou ser pescador porque não deve ser difícil e assim posso alimentar muitas pessoas e depois dos 50 anos quero ser professor de matemática. 

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publicado às 10:22

Generation gap

por Inês Teotónio Pereira, em 11.12.14

O meu artigo de sábado no

 

A sociedade portuguesa vive amarrada a uma série de preconceitos dos anos 70 e 80 e arrepia-se de cada vez que alguém se atreve a pisar o risco. Há coisas que não se devem escrever, há conceitos de que não se duvida, há sistemas que não se questionam e há mesmo opiniões que não se podem ter. Desde que comecei a trabalhar em jornais - há 20 anos - que a cartilha dos que opinam, sentenciam e protegem a moral e os bons costumes lusitanos é a mesma, e os poucos que vão aparecendo têm de a seguir ou vêem o seu espaço limitado, podendo ser legitimamente insultados. Sim, existem honrosas excepções - como já era, há 20 anos, "O Independente" -, mas o bom povo português não aprecia modernices e as excepções dificilmente deixam de o ser (basta espreitar a caixa de comentário de Henrique Raposo no "Expresso" para perceber).

Não é preciso ser sociólogo para constatar que esta é a realidade em que ainda hoje vivemos: basta abrir os jornais e ouvir os fóruns dos últimos dias para retirar vários exemplos. Mas o mais elucidativo de todos, que espelha de forma fidedigna esta vaca sagrada do anacrónico "sempre foi assim", são as opiniões sobre a prisão de Sócrates. João Miguel Tavares, uma das excepções, atreveu-se a presumir a culpa, em vez da inocência, do ex-primeiro-ministro e, exercendo a sua liberdade, escreveu isso mesmo nas páginas do "Público". Como era de esperar, os donos da opinião e a guarda pretoriana dos preconceitos do século passado enraiveceram-se e saltaram-lhe ao pescoço, insultando-o de quase tudo. João Miguel Tavares pisou o risco porque não obedeceu a uma regra sagrada: a do respeitinho pelos políticos consagrados. E esta é a vaca mais sagrada de todas. Opiniões arrojadas, pouco consensuais e que vão contra o mainstream só se podem ter nos cafés, não nos jornais - não vá alguém ler. Pode não se ter a mesma opinião de JMT, mas não é coerente, em nome da liberdade, condená-lo por tê-la. E esta fronteira, quase invisível, não pode em circunstância alguma ser móvel.

Portugal vive, assim, inclinado ao respeitinho e aos dogmas invioláveis, em que a liberdade tem donos, assim como a igualdade, a moral e os costumes. É assim porque sim e o regime tem os dias contados se deixar de ser assim, reclamam os nossos senadores da opinião.

No entanto, o país real, aquele que nos vai pagar as pensões e eleger os governos nas próximas décadas, vive noutro mundo e, felizmente, não entende esta ditadura de preconceitos. Nos últimos 20 anos, Portugal viu crescer uma geração que se habituou a ver as fronteiras muito para além das geográficas, que tem como certo que o mundo é bem mais pequeno e acessível do que na altura dos seus pais, que escolhe sem a ajuda de editores ou programadores a informação, séries e programas que vê, que não encara a língua como uma barreira ou o entretenimento como um luxo. É por isso uma geração totalmente livre, que escolhe aquilo em que acredita e que não precisa nem quer que lhe tracem limites politicamente correctos. A informação que recebe, a educação de que precisa e as ambições que tem não são compatíveis com condicionalismos à sua liberdade que, não sendo legais, são intrinsecamente culturais. A distância entre aquilo que se escreve ou comenta daquilo que é realidade desta geração é abissal, e os dogmas das décadas de 70 e 80 são, para estas crianças e jovens, qualquer coisa tão desajustada como a revolução da minissaia. Eles não entendem o que é o respeitinho e, por isso, não respeitam quem entende.

João Miguel Tavares, Henrique Raposo, Rui Ramos e outros tantos dão-nos um arzinho de como é agradável viver num mundo onde se pode ter opiniões honestamente livres e são a prova de que, se alguma coisa está em crise, não é o regime, mas sim o status de uma geração inteira de guardas pretorianos do politicamente correcto. É que todos os dias nasce mais uma criança

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publicado às 10:14

Dicionário Português-Parentês

por Inês Teotónio Pereira, em 03.12.14

 

Animais domésticos: piolhos.

Arrumação: não haver coisas no chão.

Limpeza: tudo o que não cheirar a cocó ou a vomitado está limpo.  

Descanso: silêncio.

Escola: tempos livres.

Família: serviço de baby-sitter gratuito.

TPC: não nos pagam para isto; também queremos uma FENPROF.  

Refeições: batalha campal com comida.

Birras: batalha campal com ou sem comida.

Sesta: a melhor invenção da pediatria.

Televisão: ritalina.

Computador: ritalina.

Livros infantis: Xanax

Programas de televisão infantis: LSD.

Telemóvel: não sendo comestível ajuda a aliviar as dores de dentes dos bebés.

Comandos: brinquedo predileto das crianças até aos dois anos (não recomendável o uso de pilhas).

Viagens: altruísmo/masoquismo; vomitado nos estofos do carro.

.Música: todo um vasto reportório que vai do clássico Doidas, doidas, doidas  andam as galinhas até à Violeta.

Notícias: publicidade entre as séries infantis.

Segurança: amarrá-los.

Super-mercado: local de repouso quando não se leva os filhos; local de batalhas campais com ou sem comida quando se leva os filhos.

Trabalho: férias.

Férias: trabalho.  

Nódoas: arte.

Paredes riscadas: arte.

Vida social: festas de anos infantis.

Carro: repositório de brinquedos e de restos de comida com rodas.    

 

(Continua) 

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publicado às 13:09

O primeiro primeiro-ministro dos meus filhos

por Inês Teotónio Pereira, em 03.12.14

A minha crónica de sábado no

 

Os meus filhos não fogem à regra de todo o país e estão também seriamente consternados com a prisão de José Sócrates. Eles não o dizem, até porque não sabem o que quer dizer "consternação", mas o silêncio que reina em minha casa sobre o caso judicial mais relevante "da história da democracia" diz tudo sobre a consternação dos meus filhos. José Sócrates foi o primeiro primeiro-ministro da vida deles e isso torna ainda mais grave o caso do último fim-de-semana. Tal como o primeiro dia de escola, as primeiras chuteiras, o primeiro amor ou a primeira viagem, também ninguém se esquece do seu primeiro primeiro-ministro. Da mesma forma que a minha geração cresceu com Sousa Veloso e o seu "TV Rural", os meus meninos cresceram com Sócrates e com o seu Magalhães. O destino assim determinou. É por isso inegável a ligação que eles têm a uma pessoa que os viu crescer (através da televisão, é certo) e que eles viram a governar o país durante a sua infância.

Um chefe é sempre chefe e, como institucionais que são todas as crianças, os chefes respeitam-se. Por mais que se diga cobras e lagartos de quem detém o poder, as crianças não fazem juízos complexos e simplesmente inclinam-se perante os chefes porque se inclinam sempre perante o poder. Seja de um político, seja de um professor ou de um padre. Foi por isso que este fim-de-semana os meus filhos ficaram consternados. "Faz-me impressão", dizem eles, remetendo-se de seguida a um silêncio respeitoso, como se estivessem a guardar o segredo de justiça.

Eles não entendem um décimo do que ouvem na televisão, não fazem ideia do que são as instituições, não sabem o que quer dizer separação de poderes e muito menos que existe uma coisa chamada processo penal. Sabem apenas que o senhor mais poderoso da sua infância foi preso. E isso, compreensivelmente, "faz impressão". Como, porquê, que tipo de prisão ou quem o prendeu, não interessa nada, e eles não querem saber. No mundo da criança existem os bons e os maus, os que mandam e os que obedecem, os ricos e os pobres; são os ricos que compram, os que mandam quem detém o poder e os bons que prendem os maus. É simples.

Ora no passado fim-de-semana este mundo maniqueísta dos meus filhos desabou e agora nada será como dantes. Afinal quem manda aqui? Quem são os bons e quem são os maus? Ninguém lhes diz e eles agora sabem que nada é tão simples ou linear como pensavam. Perguntava um deles, consternado, e revelando a confusão que se instalou na sua cabeça: "Ele está em prisão pensativa para poder pensar no que fez?" Mas mal foi desfeito o engano voltámos ao silêncio.

Passou uma semana do terramoto e os meus filhos ainda não se recompuseram. Não é que eles tivessem empatia com o ex-primeiro-ministro, que passava ao lado do seu dia-a-dia. O problema é que no entender deles um primeiro-ministro, ex ou não, é uma instituição, e as instituições não vão parar ao mesmo sítio das pessoas que roubam carros ou assaltam velhinhas. É como se de repente o Sporting ou o Mosteiro dos Jerónimos fossem presos. Impossível. Para os meus filhos, as pessoas não interessam, o que interessa é o que fazem e se alguém o que faz na vida é mandar num país inteiro está obviamente acima de qualquer suspeita. Pois aquilo que parece é. Dizia um dos meus irmãos em pequeno sempre que via um carro com estilo a passar: "Eh pai, aquele tipo deve ser bestial!" Não lhe passava pela cabeça que não fosse.

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publicado às 11:01

O comunismo e os nossos filhos

por Inês Teotónio Pereira, em 20.11.14

A minha crónica de sábado no i 

 

Tal como a larga maioria dos portugueses, cresci num mundo divido pelo Muro de Berlim, em que o comunismo era uma realidade presente em todas as áreas, do cinema à literatura, da educação à política e até nos desenhos animados da Checoslováquia ou da Hungria apresentados por Vasco Granja. Para mim, e para a maioria dos portugueses, o mundo para lá da cortina de ferro era uma espécie de planeta distante de onde poucos saíam para nos contar como era, que nos incomodava ao mesmo tempo que nos ajudava a formar a nossa consciência política e onde agradecíamos ter a sorte de não viver. Cresci num mundo de regimes e ideologias, em que o comunismo era a actualidade e em que ninguém sabia quando, como ou se iria acabar.

Há 25 anos, com a queda do Muro de Berlim, esse mundo onde a maioria de nós cresceu desapareceu. Em poucos meses não ficou pedra sobre pedra dessa realidade e a União Soviética, o Bloco de Leste, o Pacto de Varsóvia e o KGB foram palavras que desapareceram do léxico, das discussões políticas, da política internacional e da nova ordem mundial. E até os filmes do 007 tiveram de encontrar novos maus, novas crises e novos espiões, assim como John Le Carré novos enredos para os seus livros de espionagem. O comunismo estava morto e enterrado debaixo dos escombros do Muro e se dúvidas houvesse quanto à sua falência, aos horrores que provocou e à miséria que semeou, a abertura dos arquivos e as histórias de cada uma das famílias que viveram para lá da cortina de ferro dissiparam-nas todas. O mundo mudou e em Novembro de 1989 era certo que ninguém se iria esquecer dos horrores do comunismo, ninguém iria ter saudades da divisão de Berlim e que para trás ficava uma ideologia falhada e por isso morta.

Mas não. Passaram 25 anos da queda do Muro e o nosso PCP, por quem o tempo não passou, começa assim um comunicado publicado no jornal "Avante": "Mais do que a 'queda do muro de Berlim' o que as forças da reacção e da social--democracia celebram é o fim da República Democrática Alemã (RDA), é a anexação (a que chamam de 'unificação') da RDA pela República Federal Alemã (RFA) com a formação de uma 'grande Alemanha' imperialista [...]" E continua: "Aquilo a que assistimos no território da ex-RDA foi à destruição forçada das realizações económicas, sociais e culturais de mais de quarenta anos de poder dos trabalhadores [...]"

Sim, é verdade que o PCP não está a dizer nada de novo e está apenas a reafirmar a sua versão da história: há 25 anos que diz o mesmo, da mesma forma que o politburo sempre negou a existência do Gulag e de muitas outras "invenções das forças de reacção". Mas o que torna este comunicado actual, e de certa forma novidade, é que ele não é dirigido a quem viveu esta época ou se emocionou com a queda do Muro, que obviamente encolhe os ombros perante a dimensão do absurdo que ali está escrito. Este comunicado é para ser lido por todos aqueles que cresceram num mundo sem Pacto de Varsóvia, que vão fazer Erasmus para a Croácia sem nunca terem ouvido falar de Tito e que acham que Brejnev é da geração do Kaiser. É dirigido a uma geração, cada vez mais maioritária, que não viveu o comunismo nem de um lado do Muro nem do outro e que por isso não tem a obrigação de não se esquecer.

"Num processo acidentado, feito de avanços e recuos, de vitórias e derrotas, o futuro da humanidade não é o capitalismo mas o socialismo e o comunismo", diz o PCP com convicção.

Parece surreal que isto possa acontecer ou até que possa ser escrito, mas a verdade é que se não explicarmos aos nossos filhos o que foi o comunismo e se não lhes mostrarmos os seus horrores, daqui a uns anos, quando a maioria já não for formada por aqueles que comemoraram a queda do Muro, o seu repúdio não será tão óbvio. Para nós, que sabemos o quanto era um privilégio viver em liberdade e que testemunhámos um dos períodos mais negros da história, é fácil achar que "comunismo nunca mais" é uma evidência e o contrário absurdo. Mas aqueles para quem o comunismo é uma realidade tão distante como o Império Otomano, não é tão certo que daqui a uns anos esta não seja novamente considerada a ideologia "nova" para corrigir as desigualdades sociais. O PCP sabe isso e sabe que é fácil enganar uma geração que cresceu a considerar a liberdade tão garantida como o ar que respira, da mesma forma que é hábil a explorar a pobreza e as desigualdades como combustível para alimentar sua lunática luta de classes. Não sei se a história se repete, mas pelo sim pelo não já pus o meu filho mais velho a ler "O Triunfo dos Porcos".

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publicado às 11:38

Momento Calvin

por Inês Teotónio Pereira, em 13.11.14

- Hoje cheguei quinze minutos atrasado à aula de dúvidas, mas foi de propóstio? 

- O quê?! Porquê? 

- É que só tinha dúvidas para meia hora e a aula é de 45 minutos.  

 

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publicado às 13:13

Tempo para ouvir

por Inês Teotónio Pereira, em 11.11.14

 

No i de sábado

Há umas semanas convidaram-me de uma escola para falar sobre este tema a uma plateia composta por dezenas de pais, educadoras e professores. Convidaram-me por simpatia e sem saberem que o meu talento para dar palestras é equivalente ao de António Costa para fazer programas governo ou consultar a meteorologia. Mas fui. O objectivo era dissertar sobre a importância de ouvir os nossos filhos e o tempo que dedicamos a essa tarefa.

Na preparação da dita palestra fiz uma reflexão sobre a minha experiência como ouvinte dos meus estridentes filhos, uma retrospectiva dos meus dias e um balanço da atenção que lhes dedico, na esperança de com isso encontrar alguma coisa para dizer que valesse a pena ser ouvida. Revelou-se uma reflexão penosa. O exercício serviu para constatar que todo o tempo que passo com eles é sobretudo gasto em ordens, tarefas, estudo, organização, urgência e questões inadiáveis. O que sobra é fundamentalmente dedicado ao sofá e a um estado quase vegetativo. Realizei que tenho filhos menos exigentes da minha atenção que ouço menos do que mereciam e que falam menos do que deviam. E concluí que ouvir, ouvir, com toda a atenção e dedicação, só tenho ouvido os gritos do mais novo que enquanto não aprende a falar vai imitando o som de vários tipos de sirenes.

É verdade que nem sempre foi assim e já houve tempos em que me empenhei com grande profissionalismo a ouvir os meus filhos: o empenho chegou a ser tal que até criei um blog onde registava as gracinhas que eles diziam e os diálogos surrealistas que travávamos. Mas, a prova de que a crise do tempo para ouvir entrou em minha casa, está na escassez de posts no dito de blog.

A minha experiência não era, portanto, digna de ser partilhável com pais dedicados e preocupados que se dão ao trabalho de sair de casa depois do jantar só para ouvirem uma pessoa dura de ouvido falar sobre audição. Anunciava-se um desastre se insistisse pelo caminho sempre perigoso do exemplo. E como a verdade liberta, há que dizer a verdade.

Ora, a verdade nua e crua é que é uma grande chatice dedicar tempo a ouvir crianças pequenas. Dá trabalho, exige paciência, requer resistência física e psicológica ao cansaço e é acima de tudo uma escolha racional. As crianças dizem tudo o que lhes passa pela cabeça, sem filtro, sem lógica, muitas vezes sem contexto, sem fim e sem principio. Acompanhar genuinamente o raciocínio de uma criança ou descobrir o fundamento de uma história que ela conta ou inventa, é um desafio complexo. Claro que elas dizem coisas muito engraçadas e que ouvi-las a descobrir o mundo é uma delicia, mas a verdade é que nada disto está na nossa agenda nem consideramos suficientemente divertido para nos lembrarmos todos os dias.

Ouvir os nossos filhos é uma tarefa, uma obrigação, antes de ser uma vontade. As relações entre pais e filhos, como todas as outras relações humanas, alimentam-se, cultivam-se e constroem-se, e só ouvindo o que os outros têm para dizer é que os conhecemos e ganhamos a sua confiança. Se não ouvirmos, só cultivamos silêncio. Mais do que tempo, é preciso um horário para ouvir os nossos filhos - dez minutos durante o dia, a hora de jantar, um bocadinho antes de se deitarem, o caminho da escola - qualquer um serve. É que os horários cumprem-se, mesmo quando não nos apetece.

Quanto à palestra, sei que, ao contrário das cheias de Lisboa, não se voltará repetir.

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publicado às 14:42

O objectivo da vida

por Inês Teotónio Pereira, em 06.11.14

- Sim, eu sei que o objectivo da vida não é só divertrimo-nos e ganhar dinheiro, mas também ainda não sei qual é?   

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publicado às 11:50

Dificuldades de aprendizagem

por Inês Teotónio Pereira, em 06.11.14

A minha crónica de sábado no 

 

Um dos meus filhos tinha dificuldades de aprendizagem. Começou a ler tarde, dava erros ortográficos, distraía--se com as moscas (literalmente), não decorava coisa alguma e sempre que podia deixava os trabalhos de casa por fazer. Também se esquecia de tudo, era desorganizado, não dava importância aos testes nem percebia o fundamento das avaliações. Não era competitivo e tinha dificuldade em perceber a importância que os pais e os professores dão à escola. Desde cedo que desenhava com pormenor e aos cinco anos já fazia desenhos em perspectiva e com profundidade, mas não tinha paciência para pintar ou para fazer os traços direitos. Um dia, numa luta renhida com as contas de dividir, levantou a cabeça e desabafou: "Gostava de saber o que é que este lápis pensa se ele conseguisse pensar." Foi mais ou menos nessa altura que descobrimos que usava a parede junto da secretária para desenhar enquanto fingia que estudava. Era também talentoso a representar e conseguia inventar uma história interminável a partir de dois palitos. Da escola chegavam-nos notícias de "falta de interesse", "falta de concentração" porque "é muito distraído" e "trabalha pouco". Em casa, nós, pais, pressionávamos, castigávamos e espremíamos a criança cada vez que chegava mais um recado ou mais uma nota. Sobre os talentos pouco lhe dizíamos porque o tempo era escasso e o calendário escolar não dava tréguas: antes do teatro está a Matemática e antes da criatividade está o Português, sentenciávamos.

No 4.o ano conheceu os livros do Harry Potter e foi assim que se viciou na leitura. Os erros, esses, persistiam e as notas continuavam a sair esforçadas. A motivação era mínima e a escola continuava a ser um mal necessário na qual passava os dias. O Harry Potter era o seu esconderijo. No 6.o ano chegaram os exames e com eles a possibilidade real de fracassar. Assustou--se com a eventualidade e, ajudado pela maturidade, estudou três semanas seguidas sem levantar cabeça, com horas marcadas para as refeições e com objectivos diários impostos por nós. Conseguiu a melhor nota da escola e da vida dele no exame de Matemática e deixou pais e professores de queixo no chão. Gostou da experiência e ainda mais da sensação. Nunca mais repetiu o resultado, mas as notas nunca mais saíram esforçadas, os trabalhos de casa nunca mais ficaram por fazer e nunca mais se denunciou a sua falta de concentração.

Para trás ficou o teatro e do desenho nunca mais ouvimos falar. Diz ele que não desenha bem porque não consegue fazer traços direitos ou imitar paisagens. A comparação com os desenhos fotográficos dos colegas e as classificações suficientes dos professores esfriaram o seu empenho e comprovaram que o seu talento afinal era apenas suficiente. Com a ajuda do tempo acabou por desistir. Dos oito anos da vida escolar do meu filho tiro duas conclusões. A primeira é que durante anos dei mais importância à escola e às considerações dos professores que ao meu filho, dei mais importância às dificuldades denunciadas pelos professores que aos talentos que eu conhecia. Sem saber cavei um fosso de frustrações que aumentava cada vez que chegava uma nota ou um recado, como se cada um deles fosse mais uma prova do seu fracasso (e do meu). Sem querer amolguei-lhe a auto-estima e eduquei-o tendo como referência as pautas escolares.

A segunda é que apesar de mim e da escola ele conseguiu. Conseguiu porque quis, porque um dia resolveu querer. As ameaças, as pressões, os castigos e o desespero perante cada má nota não tiveram qualquer efeito positivo, apenas negativo. As dificuldades de aprendizagem são apenas isso, dificuldades. E não querem dizer mais nada sobre os nossos filhos. No dia em que os confundimos com as dificuldades deles, em que olhamos para eles e em vez de crianças vimos problemas de matemática, os nossos filhos facilmente acreditam que são eles próprios os erros e os problemas. E então sim, as dificuldades perpetuam-se e podem ultrapassar em muito o âmbito da escola. A felicidade e o futuro dos nossos filhos não se medem pelo seu desempenho escolar - que mais cedo ou mais tarde, com mais ou menos trabalho, acaba por se cumprir - mas podem estar comprometidos se nós, pais, os julgarmos e medirmos por isso. O principal problema das dificuldades de aprendizagem é a dificuldade dos pais - não dos filhos - em lidar com elas.

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publicado às 11:48

Sabemos que eles estão a crescer

por Inês Teotónio Pereira, em 31.10.14

quando já não percebemos nada do livro de Matemática ou de Física, temos de ler a História de Portugal de Rui Ramos para os ajudarmos a estudar História e constatamos que a literatura obrigatória que eles lêem é bem mais densa do que os livros que acumulamos na mesinha de cabeceira.  

 

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publicado às 11:26

Sexto

por Inês Teotónio Pereira, em 30.10.14

O meu filho mais novo tem três galos na cabeça à conta das cabeadas que dá nas portas e das quedas diárias; uma unha negra, por se ter entalado numa porta; e três picadas de melga na cara que infectaram. 

Diz o meu filho mais velho, compreensivelmente desconfiado da minha competência:

- Não deviamos ir com ele ao médico?

    

 

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publicado às 13:04

Cadeado no telefone

por Inês Teotónio Pereira, em 28.10.14

Crónica publicada no i de sábado 

 

Em casa dos meus pais o telefone estava quase sempre trancado com um cadeado por uma chave que a minha mãe escondia e que o meu pai tinha o desejo de engolir todas as vezes que abria a cartinha com a conta do mês. A chegada da conta do telefone e da electricidade, assim como a visita do "homem da taxa" (da televisão), eram alturas tensas em casa dos meus pais. Mas o telefone era o caso sintomático. O telefone, na perspectiva de quem pagava as contas, não era um serviço prioritário e o seu uso devia ser esporádico, limitado e extraordinário. Esta teoria chocava de frente com a ideia que nós, filhos, tínhamos da invenção de Bell: para nós, a água e o telefone tinham a mesma importância na função de sobrevivência da espécie, pois sem o telefone corríamos o perigo de ficar social e dramaticamente isolados. Para conciliar as duas vontades determinaram-se regras: só podíamos fazer chamadas locais, só depois das oito da noite e cada chamada tinha uma duração limitada pela ordem "desliguem o telefone!" passados 20 segundos do início do telefonema.

Está claro que furámos muitas vezes o sistema e que muito sofreu o meu pai com as contas que lhe iam chegando apesar do cadeado, mas sobrevivemos todos e o aparelho jaz hoje em paz, com as honras de um herói de guerra, na cave da casa dos meus pais.

Na mesma senda do telefone, também a televisão tinha as suas limitações: horários limitados e apenas dois canais. Quem queria ver televisão tinha de se sujeitar aos condicionalismos tecnológicos da época o que obrigava as famílias a estarem sempre reunidas caso quisessem ver televisão. Os pais viam os mesmos programas que os filhos e os filhos só conseguiam ver televisão na companhia dos pais.

Educar filhos na altura dos meus pais era canja. As regras eram impostas pelos condicionalismos financeiros (telefone) e tecnológicos (televisão) e não era preciso recorrer a princípios pedagógicos, de vida saudável ou morais para impor regras. Hoje, para nosso tormento, não é assim. Hoje há todo um vasto número de teorias sobre as várias opções que os nossos filhos têm e nós, pais, somos forçados a ter uma resposta para cada teoria com a grande desvantagem de não termos exemplos a seguir. Na verdade somos uns pioneiros desta nova era educacional e cabe a nós andar de catana em punho a devastar o denso mato das novas tecnologias, redes sociais e meios de comunicação.

Vejamos: alguém sabe com que idade devem os meninos ter facebook ou Instangram ou que tipo de chats devem eles utilizar? Devem os adultos ter a password de todas as redes sociais em que eles navegam e não os deixar sozinhos nesse submundo cibernético, ou devemos confiar que eles sabem gerir as suas relações e escolher o que vêem? E com que idade é suposto eles terem telemóveis com acesso à internet? Computadores: no quarto ou apenas na sala? Tablets: a partir de que idade? Impomos horário de navegação, de chat móvel e de televisão ou o limite é apenas a hora de dormir? E a televisão: o Walking Dead é para que idade? Quantas horas é que eles devem ver poder ver televisão e a que horas? Entre o telejornal e o Disney Channel, quem deve ganhar tendo em conta que os pais podem ver o telejornal quando os filhos forem para a cama?

Nós, pais, somos todos os dias confrontados com decisões destas e andamos literalmente aos papéis a tentar descobrir os melhores modelos para copiar. Entretanto, a realidade ultrapassa-nos todos os dias. Hoje, cada membro de uma família tem os seus programas de televisão, o seu telemóvel, o seu tablet, as suas redes sociais e cada um tem uma realidade distinta mesmo que esteja sentado ao lado do pai ou do irmão no sofá da sala. Hoje, os limites não são tecnológicos ou financeiros e a escolha é um exercício diário frenético. Hoje, os pais são obrigados a ter bom senso, a ler sobre tecnologia, psicologia e pedagogia e a optarem todos os dias entre verem o Disney Channel em família ou o House of Cards sozinhos e de madrugada. Já dantes, bastava que os pais trancassem o telefone com um cadeado e mandassem calar a filharada para viverem descansados.

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publicado às 12:18

Estava eu entre o arroz, a salada e o jantar do bebé quando entra um dos meus filhos na cozinha, senta-se e diz: 

- Gosto imenso de vir para aqui para a cozinha sentar-me: gosto imenso de ver as pessoas a trabalhar. 

E disse isto sem um pingo de malícia. 

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publicado às 12:42


A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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