- Não percebo porque é que se diz que o dia são 24 horas: essas horas todas não são todas dia, há umas que são noite. E se é noite, não é dia.
- Eu não gosto dessa senhora porque ela não disse que eu sou muito lindo; só a outra senhora é que disse.
- Não se arrancam flores nem se matam os peixes, não é mãe?
- É preciso pescar peixes, só assim podemos comer peixe ao jantar etc.
- Não! Podemos ir comprar ao supermercado, não é preciso matá-los!
- Mas eles estão no supermercado porque alguém os pescou... e matou.
- Ah... Eu cá não mato peixes, só os como.
- Mãe, quando eu estiver grande como é que eu vou comprar a minha roupa?
- Numa loja, com dinheiro...
- Mas vou à loja todo nu...?!
- Não, vestido...
- Mas quando eu for grande a minha roupa não me serve. Por isso é que eu tenho de comprar uma roupa nova.
- Afinal Jesus é filho de quem? A Maria casou-se com José ou com Deus?
Os meus filhos respondem-me com regularidade assim: "o que é...?!!" ou "temos pena..."
Dantes não era assim.
- Quem é que comeu os chocolates?!
- Nós todos.
Ninguém constrói coisas do Playmobil (uma espécie de IKEA para as crianças) tão bem e tão depressa quanto eu.
Os meus filhos não se lembram dos presentes que receberam no Natal de 2010. Em 2011 não me esforcei. Daqui a um ano cá estaremos para actualizar o registo.
Hoje fui deixar os meus filhos mais novos à creche e a creche estava fechada.
- Afinal não quero ser pai, quero ser cozinheiro. Já há muitos pais.
- Eu gosto muito de toda a gente: do pai, da mãe, dos manos, das professoras, dos tios, dos amigo e de todos. Mas gosto muito, muito é de mim.
- Os manos são mais fortes mas eu sou mais esperta; por isso não preciso de ser forte.
Victor Tavares Morais,
Cachimbo de Magritte
Os portugueses são um povo de extremos: ou vivem em euforia numa espécie de alienação colectiva, ou vivem em depressão em estado de neurose colectiva. Meio termo, vulgo racionalidade, não existe na nossa carga genética. Se é para sofrer, sofremos mesmo, em pensamento, actos e emoções. Cantamos fado, buzinamos sempre que houver oportunidade, gritamos com as criancinhas e carpimos. Carpimos, carpimos, carpimos até à exaustão.
E o Natal é uma excelente época para isto. Se já é mau o corte no subsídio, se já é péssimo não haver dinheiro para os presentes, se já é horroroso saber que para o ano ainda vai ser pior, então vamos tornar a coisa ainda mais negra. E como? É fácil: vamos roubar o Natal às crianças. Vamos contagiar as crianças com a nossa angústia, tristeza e o vazio do nosso cartão de crédito e fazê-las ver, sentir e sofrer com a nossa ansiedade natalícia.
Meus senhores: os nossos filhos estão deprimidos. Eles estão assustados com os presentes, porque acham que se tiverem presentes os pais vão morrer à fome e eles vão viver num orfanato. Os nosso meninos, tal como os pais, já não sabem distinguir o conceito de Natal com o de crise. Aliás, Natal é quando a crise é mais severa. Por isso, eles já não sonham com o Natal; eles têm pesadelos com o Natal.
Os meus filhos, por exemplo, querem um chocolate. Mais nada. Têm medo que lhes falte o leite se receberem um presente.
Portugueses e portuguesas, todos e todas, eles e elas: temos dois dias para emendar a mão, os nossos filhos querem o Natal de volta com ou sem presentes. Eles querem que nós nos ríamos, em vez de passarmos o Natal a carpir em frente aos presentes que gostávamos de lhes dar mas não podemos. Eles querem o espírito de Natal de volta, e não o espinho.
Helena Ferro de Gouveia,
No blog: "Domadora de Camaleões"
- Não quero esta mãe!
Obrigada aos milhares de professores que passam horas, dias, a arranjar coroas, a fazer asas, enfeites, sinos, máscaras e cenários, a ouvir gritos e a ensaiar teatros e, no fim, ainda têm de aturar os pais das criancinhas a refilarem porque a festa de Natal calhou num dia importantíssimo do calendário profissinal e tiveram de adiar reuniões inadiáveis - além de que o trânsito estava caótico - e porque, ainda por cima, o seu menino não fez de Menino Jesus mas sim de Burro.
Os filhos não são brinquedos, não se escolhem, não se trocam, não se aperfeiçoam, nem se devolvem. Muito menos funcionam com pilhas e nunca, nunca trazem livros de instruções. E é isto que torna esta tarefa de pai e mãe tão ingrata, difícil e imprevisível. Os filhos lá por serem nossos, não nos pertencem; somos nós que os alimentamos, educamos e sustentamos, mas por junto é só para isso que servimos. De resto eles são eles e desenvolvem-se, crescem, pensam e sentem apesar de nós. E quando já não são educáveis, sustentáveis e alimentáveis, deixam de ser nossos. Os filhos, ao contrário da dívida da casa, não duram uma vida. Duram apenas uns aninhos e não há qualquer garantia de que fiquem nossos.
E, então, o que é que resta ao fim desses anos de sustento e dedicação? Resta uma ligação. No fim é esta ligação que conta: depois de milhões de litros de leite consumidos de dias e dias de explicações, de milhares de ordens e de noites sem dormir é só isso que resta. Uma simples ligação.
Ora, como eles são todos diferentes, e alguns muito difíceis de conhecer, esta ligação tem vários níveis de consistência. Um pai ou uma mãe pode passar uma vida toda sem conhecer o seu filho, sem imaginar o que ele está a pensar ou prever o seu comportamento. E nestes casos é preciso um esforço racional para criar uma relação. Não é para gostar, é para interagir. Os filhos gostam sempre dos pais e os pais quase sempre dos filhos, mas nem todos se dão entre eles. Tal como o telemovel ou a internet, é preciso manter compromissos ao final do mês e ver se há rede. Ou ficamos sem ligação.
Mas assim está muito mais giro. (Agora com o link a funcionar)
- Mãe, eu fiz o avô do Jesus para o presépio da escola. Ele não tinha era avó. O pai dele já era velho. E também fiz a manta. Tudo em barro.
- O meu mister nasceu em 1980. É muita velho!!
- Tenho uma coisa para dizer...
- O quê?
- A mãe não se zanga?
- Depende...
- Tive um teste!
- E então, por que é que eu havia de me zangar?
- Porque se zanga sempre...
- Só quando me escondem! Mas sabias?
- Sabia. Respondi a tudo!
- Não, do teste...
- Sim respondi a tudo
- Mas sabias que ias ter o teste?
- Não, mas sabia tudo no teste.
- Então, não há razão para eu me zangar.
- Porque eu não sabia do teste ou porque eu sabia tudo do teste?
- Isso.
- Não percebo... Mas não está zangada, pois não?
- Não!
- Ah, agora está...
Viver em austeridade: pressupõe que existe escolha, que se poupa e que se gasta pouco. Que se vive de forma austera: sem esbanjar, com pouco.
Situação da economia portuguesa: não há dinheiro, não há opção entre austeridade e outra coisa qualquer.
Em Portugal, viver em auteridade não é uma opção, já é quase um privilégio.
Piquetes de greve: grupo de pessoas que têm como missão assegurar que todos fazem greve. Os que querem e os que não querem fazer greve. Porquê? Porque, dizem eles, que o interesse colectivo é superior ao interesse de cada um. Por isso, quem não quer fazer greve não está do lado do interesse comum, que é o interesse dos trabalhadores que estão em luta eterna com o patrões. Logo, esse alguém que não quer fazer greve deve ser obrigado a estar do lado dos trabalhadores contra os patrões. Se não estiver, ele enfraquece a luta dos trabalhadores e fortalece os patrões que querem esmagar os trabalhadores. Por isso, é moralmente aceite atirar pedras a autocarros, insultar os colegas, ameaçar os outros colegas e andar à pancada com toda a gente que não queira fazer greve. Objectivo: prender todos os que não exercem o direito à greve. Sem mais.
A barreira ideológica que me separa desta gente, é a barreira da decência e da liberdade.
Os portugueses têm um enorme problema com a liberdade: adoram o conceito mas gostam pouco de o exercer. A malta gosta de liberdade desde que não dê muito trabalho. E fazer escolhas, antes de mais, dá um trabalhão. Bom, bom é ter tudo escolhidinho e pronto a levar: “Olhe, desculpe, pode embrulhar uma liberdade se faz favor, escolha o senhor que eu ainda vou ali aos frescos”. Liberdade de escolherem por nós: é essa a liberdade à portuguesa.
O banco é que sabe se a minha casa vale x ou y; o ministério da educação é que sabe qual deve ser a escola do meu filho; o piquete de greve (uma aberração) é que sabe se devo fazer greve ou não. Eu obedeço e cumpro. Sempre em liberdade, claro. Desde que não me chateiem, que o Benfica vá ganhando e que ainda tenha minis do frigorífico, vivo bem com estes intermediários à minha liberdade.
Ora, a liberdade dos nossos filhos anda pelas mesmas ruas da amargura. A malta gosta imenso de falar de autonomia, de emancipação das nossas crianças, de como os pais de antigamente eram castradores e de como actualmente os pais são tão porreiros, mas é só conversa. Na prática, nós os pais, somos um obstáculo à liberdade dos nossos filhos e estamos ao nível da KGB: nós é que sabemos o que é melhor para os nossos meninos e exercemos o poder nesse sentido. Afinal quem é que enche o frigorífico e paga a box? Pois, pois, o menino é muito criativo mas não é o melhor a Matemática, por isso, há que impor regras, disciplina e metas. Também não os podemos largar na rua, porque é perigoso e ele não tem “maturidade”. Ou seja, a liberdade dele é minha.
É uma espécie de socialismo familiar: os pais estão em todo o lado e dizem que é para o “melhor de todos”. Tretas: estão em todo lado porque têm medo de perder o controlo dos filhos, assim como os governos socialistas têm medo de perder o poder no país. Em nome do bem comum, claro. Mas liberdade é, antes de tudo, confiar. E confiar... bom... É uma coisa séria. Não vale a pena arriscar.
- Eu até gosto de ser criança. Só que não aproveio nada porque tenho a escola.
No jornal i
Os irmãos vivem entre dois processos: o da concorrência e o da lealdade. São concorrentes em tudo aquilo que toca ao futebol, aos desenhos, às corridas, aos amigos, aos presentes de Natal ou aos mimos das avós. E são leais quando se trata de cerrar fileiras contra qualquer força exterior, como por exemplo, os pais. Aí são leais uns aos outros, como se uma tropa de elite se tratasse, e não olham a meios para se defenderem uns outros. Mais injusta é a vida ou os comportamentos dos pais, mais leais são os irmãos uns com os outros. Eles conspiram, lutam, enfrentam, defendem-se, escondem-se e encobrem-se instintivamente e sempre que lhes cheira a injustiça. Nascem assim, os irmãos. Ainda não sabem falar e já sabem ser irmãos.
Eles só concorrem nas coisas que não são importantes. Em tudo o resto assinam pactos de sangue silenciosos e normalmente contra o poder: os pais.
Ora, este equilíbrio funciona na perfeição quando os pais deixam que as forças da natureza humana fluam com naturalidade; deixam que a natureza siga o seu curso. O pior é que quando nos atrevemos a armar em pseudo-justiceiros e vamos a terreno interferir na relação entre os nossos filhos. E provocamos o efeito que uma fábrica de produtos tóxicos provoca numa ribeira: estraga.
É que os irmãos, ao contrário dos pais, acham natural que um seja melhor do que o outro no desporto ou na escola. E vivem bem com isso. Não concorrem, porque não é importante. Eles só reparam qual é o melhor e o pior quando os pais tentam compensar o aselha da bola com mimos, ou aquele que tem piores notas com mais atenção. Ai sim, eles afinam. E afinam entre eles. Justiça, é capital dos filhos; os pais que se fiquem pelo poder executivo. Em nome da estabilidade.
- Ele é que se porta mal! Ele devia estar sempre de castigo ou ser expulso cá de casa.
As crianças têm o poder de condicionar a vida dos pais. Mas não têm culpa nenhuma de ter nascido. Devemos ser criativos, portanto.
Começaram agora a sair as primeiras avaliações e as primeiras tosses. A Grécia a comparar com aquilo que os meus filhos me estão a preparar é uma brincadeira.
Uns dos principais factores de sofrimento dos pais são os remorsos. Os remorsos são uma espécie de parasitas que se alimentam da boa consciência dos pais e que são propagados pelos filhos com o objectivo maléfico de lançar uma epidemia de remorsos de forma a enfraquecer-nos. É basicamente isto. Os remorsos são o cavalo de Tróia dos filhos, são uma forma maliciosa de invadirem quem lhes parece mais forte, e maior, atingindo directamente no coração do adversário: os pais.
Quem é pai ou mãe, sofre ou já sofreu desta doença, desta fraqueza, deste martírio. E as razões são várias, dolorosas e numerosas. Ou porque nos zangamos com toda a razão e a criança teve uma reacção absolutamente desproporcionada desatando aos gritos em absoluto sofrimento como se não houvesse amanhã; ou porque vamos sair à noite e o menino na hora da despedida baixou a cabeça e perguntou em voz baixa “vai sair outra vez…é?”; ou porque mandamos a criança para a cama só pelo sossego que a ida para a cama de um filho proporciona, e essa é, por isso, uma atitude egoísta; ou porque achamos que devíamos brincar mais com os nossos filhos e zangarmo-nos menos; ou porque simplesmente trabalhamos e passamos pouco tempo em casa, e é por causa disso que a criança teve negativa a Matemática. Todos os dias, todos os pais têm pelo menos seis ou sete vezes remorsos. Um drama.
É certo que os remorsos, ao contrário de outras doenças, não matam, mas moem. E as crianças sabem isso. Sabem e controlam os pais e as mães através dos remorsos, como se fossem um comando à distância: “Podes ir jantar fora, mas vais-te arrepender: o bifinho vai saber a vinagre. Ehehehe…”.
É urgente que seja lançado um Plano Nacional de Erradicação dos Remorsos e da Promoção do Alivio de Consciência. Mais uma vez, somos nós contra eles, os filhos.
Devia existir um Plano Nacional de Erradicação dos Remorsos.
Mais uma vez, AHC com toda a razão.
- Mãe, onde é que se compram pessoas?
- Porque...?
- Para eu comprar a minha mulher e os meus filhos quando for adulto.
Uma série de especialista em educação estiveram reunidos em Espanha (no Encontro: 'Família e Escola: um espaço de convivência') e concluíram o seguinte: “O aumento da violência nas escolas reflecte crise de autoridade familiar”.
Ou seja, os pais preferem passar bons momentos com os filhos a impor-lhes regras, educá-los e discipliná-los. E é por uma boa razão: isso dá trabalho e o pouco tempo que se tem para passar com os filhos não deve ser desperdiçado em coisas que chateiam as crianças, deve ser alegre e sem conflitos. Eles vão ter tempo para isso. Disciplina e autoridade são termos militares e, convenhamos, os nossos filhos não estão a fazer a recruta. Resultado prático desta atitude generosa: as crianças de hoje não reconhecem no pai ou na mãe a figura de autoridade e por isso não reconhecem autoridade em ninguém. Nem nas forças da autoridade, nem nos mais velhos, nem nos professores, nada.
Os nossos meninos são educados livres dessas amarras, desses preconceitos que foram atirados para o caixote de lixo do século XX. Os tempos são outros e são modernos.
Mas a verdade é que as crianças precisam de disciplina para poderem ser livres. Para saberem respeitar a liberdade e saberem viver em liberdade. Liberdade não é anarquia. Concluem os filósofos, sociólogos, médicos e professores reunidos em Espanha que as crianças não são hoje mais violentas ou mais indisciplinadas do que antes; o problema é que “têm menos respeito pela autoridade dos mais velhos”. Deixaram de ter respeito pelas pessoas de respeito. A começar pelos pais. O pior, é que no final da história os únicos prejudicados são eles próprios. No entanto, haja esperança que pelo menos os nossos filhos eduquem os nossos netos de outra maneira.
da Laura. Bom nome, bem escrito, com pinta.
As crianças, por definição, acham que podem fazer o que querem. Eles nascem assim: se têm fome, têm de comer já, se têm sono, têm de dormir imediatamente, se querem brincar com a chave do carro que está em cima da prateleira de vidrinhos, têm de trepar a prateleira de vidrinhos. É assim que funciona a suas cabecinhas e elas não acham concebível que o mundo funcione de outra maneira. Muitas vezes, quando os pais se apercebem que em vez de filhos estão a criar monstrinhos, já é tarde de mais: eles já não aceitam um “não” como resposta, choram mais do que falam e gritam mais do que riem.
Até que vão para a escola. E na escola inicia-se o processo de frustração e aprende-se o significado do não. Ali, os meninos têm de funcionar em grupo, têm de respeitar hierarquias e as ordens não são meros conselhos. Não, é mesmo não. As crianças aprendem a viver e a conviver com as frustrações, quer os pais queiram ou não.
Hoje, cabe também aos professores e educadores a função de explicarem a uma criança que nunca fez a cama ou levantou o prato da mesa, que tem de fazer os trabalhos de casa, tem de arrumar a cadeira, tem de pôr as tampas nas canetas e que não pode falar nas aulas. Ou seja, que não querer fazer, não é o mesmo que não fazer.
Um dos meus filho revelou-me recentemente que gosta da escola mas acha “que os professores tornam a escola uma seca”, (que é a mesma coisa que dizer que gosta de omeletas, mas que gostava mais se elas não tivessem ovos). Ou seja, para ele a vida devia ser uma festa contínua, aulas incluindo, e os professores são um obstáculo à rambóia, são uma espécie de “horas para chegar a casa”. Conclusão: está tudo bem na escola. O processo de desenvolvimento da minha criança está saudavelmente em curso. Com a preciosa ajuda dos professores dele, que me ajudam todos os dias a educá-lo. Ou seja, ele está saudavelmente frustrado.
- Mãe, nós temos peixe dentro de nós?
- Não...
- Ah... Então só temos carne, é isso?
A grande obra prima que partilha o nome e alguns diálogos com este blog está aqui na coluna do lado esquerdo. Quem não sabe que este blog existe em forma de livro (e é bem melhor), fica a saber e já o pode comprar.
- Mãe, se as maçãs caem das árvores porque é que não são de graça?