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Salman Khan diz que é preciso virar as salas de aula ao contrário e sugere que, em vez de os alunos passarem muito tempo a fazer trabalhos de casa, em casa, devem fazê-lo na escola — é lá que os problemas devem ser trabalhados e isso permite que ganhem o seu próprio ritmo junto dos outros.

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publicado às 18:22

Momento Correio da Manhã

por Inês Teotónio Pereira, em 22.01.15

Segundo o meu filho de sete anos, Ronaldo acabou com Irina porque, e passo a citar, "ela é feia". 

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publicado às 18:15

Tolerância com a maldade

por Inês Teotónio Pereira, em 22.01.15

No i de sábado

 

Esta semana descobrimos uma série de coisas: descobrimos que existia um jornal satírico chamado "Charlie Hebdo", descobrimos que Ana Gomes é eurodeputada e tem conta do Twitter, descobrimos que existe um grupo terrorista muçulmano chamado Boko Haram na Nigéria que usa meninas de dez anos como bombistas suicidas e que matou dezenas de pessoas num mercado, descobrimos que existem líderes muçulmanos que consideram blasfémia fazer bonecos de neve e outros (ou os mesmos, já não sei) que acusam as mulheres que usam perfume de prostitutas e, por fim, descobrimos que existe uma editora inglesa que pediu aos seus autores que se moderem na utilização da palavra "porco" e derivados nos seus livros infantis para não susceptibilizar ou ofender muçulmanos e judeus. Também esta semana fomos Charlie, depois fomos Charlie, mas..., avançamos para um estádio em que os Charlie afinal são os outros e acabámos com a suspeita de que os Charlie não são flor que se cheire e que o melhor (e mais simples) é ser Tanaka, Ronaldo, coleccionador de borboletas ou defensor do lince da Malcata. Foi portanto uma semana carregada de emoção, informação e algum sobressalto. Não estamos habituados a isto. 

No final percebemos que o mundo não mudou, que os terroristas continuam terroristas, que o "Charlie Hebdo" continua a pôr Maomé na capa e que Ana Gomes ainda tem seguidores no Twitter. Afinal não vale a pena tanta emoção. Se sexta-feira passada o mundo era Charlie, esta sexta já é novamente cínico. Se na semana passada Hollande podia declarar guerra ao Iémen que toda agente aplaudia, esta semana já se critica o "Charlie Hebdo" por ter voltado a provocar os radicais jihadistas.

Nada de novo: o tempo move montanhas e resfria as emoções. Também no dia 12 de Setembro de 2001 não havia alma ocidental que não quisesse a "guerra contra o terror", no 12 de Março de 2004 não nos passava pela cabeça que 11 anos depois tivéssemos dificuldade em lembrar o nome da estação madrilena onde morreram barbaramente quase 200 pessoas e mais de 1700 ficaram feridas e, quanto aos atentados de Londres, a memória levou-os. A história repetiu-se com os assassinatos no "Charlie Hebdo": há uma semana tudo parecia muito pior do que hoje e daqui a meia dúzia de anos nem vai parecer assim tão mau.

É verdade que Portugal é um oásis na Europa e que neste cantinho é fácil ser Charlie e não ser porque no dia seguinte a única coisa que muda é o nosso estado no Facebook. Não temos escolas judaicas, não temos bairros do tamanho de cidades onde vivem apenas muçulmanos e onde a polícia ou os assistentes sociais têm medo de entrar e o nosso xeque David Munir é mais sensato e sereno que muitos líderes cristãos. Por isso em Portugal é fácil não ter convicções. Aliás, é muito mais fácil do que tê-las.

Nós estamos habituados a ver estes acontecimentos macabros sentados no balcão e por isso somos peritos em "mandar bocas", como os velhos dos Marretas e com a mesma emoção com que assistimos a filmes de acção. Somos peritos em análises ocas e emocionais. Apenas ocas e emocionais. Mas o que esta semana demonstrou, assim como todas as outras tragédias desde o 11 de Setembro demonstraram, é que a emoção sem convicções não tem qualquer sentido; é como o fumo sem fogo e as emoções, tal como o fumo, desvanecem- -se num abrir e fechar de olhos.

Não é fácil ser contra o terrorismo sem cedências. É mais fácil achar que todos os actos macabros têm uma justificação e que o problema principal está nas motivações: desemprego, estado social, políticas de imigração, pobreza, cultura, blasfémia, etc. Assim, com este raciocínio cómodo, rapidamente chegamos à conclusão de que só mudando o mundo o conseguimos melhorar e, de caminho, erradicar o terrorismo. Mas não, a maldade não pode em caso algum ser relativizada e o mundo, apesar de tudo, está bem melhor do que estava há 40 ou 50 anos. A única coisa que tem piorado é que somos cada vez mais tolerantes com aquilo que não devíamos ser, ou seja, com a maldade. Basta ler os jornais dos últimos sete dias para se perceber isso.

Mudar o mundo começa por ensinar aos nossos filhos que a maldade não precisa de racionalidade para se expandir, apenas precisa de fragilidade e de ausência de resistência. "Porque é que estes terroristas fizeram isto?", perguntou-me um dos meus filhos. "Porque são assassinos", expliquei, "e os assassinos não precisam de uma razão para matar, apenas de uma desculpa." Isto foi sexta-feira passada e até hoje não registei mais perguntas.

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publicado às 14:39

O Sporting

por Inês Teotónio Pereira, em 22.01.15

- Mãe, já podemos ir jantar que o Sporting está a ganhar 2-0!
- Não querem esperar... Isto com o Sporting nunca se sabe ...
- Não!! Lá está a mãe a gozar !!

Fomos jantar . Acabámos de jantar. Sporting já está a perder.
Impossível não gozar.

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publicado às 14:35

Tive eu seis filhos e só agora é que o Papa vem dizer isto

por Inês Teotónio Pereira, em 20.01.15

Papa Francisco: "Não temos de ser como coelhos"

 

 

 

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publicado às 12:04

...

por Inês Teotónio Pereira, em 07.01.15

O meu bebé a chorar quando está doente parece a Bimby na velocidade espiga. 

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publicado às 10:49

O risco dos castigos

por Inês Teotónio Pereira, em 06.01.15

A minha crónica de sábado no 

 

Como as férias são longas e a paciência não, as relações entre pais e filhos azedam com frequência e facilidade durante esta quadra natalícia de paz, amor e harmonia. Não é fácil. As crianças estão excitadas com os presentes, com os primos e com o excesso de açúcar. Os pais estão falidos com os presentes, cansados de tudo e enjoados devido ao excesso de açúcar.

Não é fácil controlar a paciência. E foi por isso que, no outro dia, os meus filhos ficaram todos de castigo. Um castigo à antiga, coisa séria, tradicional e conservadora: durante um dia não puderam sair de casa, ver televisão, jogar consola ou mexer nos telemóveis e computador. Eles estranharam: "Já fizemos muito pior e não ficámos de castigo", reclamou um deles. Não cedemos. Os primos não vieram nesse dia, a televisão manteve-se silenciosa e tudo o que precisa de electricidade adormeceu. Restava-lhes ler, falar uns com os outros, dormir, estudar ou recorrer aos jogos de tabuleiro que vão acumulando o pó de uma década. Fizeram de tudo um pouco, mas passaram a maior parte da tarde a conquistar o mundo no Risco. Claro que eu também. Claro que este castigo me saiu caro porque me arrastou do sofá e de uma sessão da tarde para uma mesa de jantar com o objectivo de entreter cinco crianças que estão tão habituadas aos jogos de tabuleiro como ao hóquei no gelo. Claro que ganhei e, por isso, tive de jogar mais um e perder.

No dia seguinte, as crianças acordaram novamente livres. As portas de casa voltaram a abrir-se e todos os aparelhos electrónicos ganharam novamente vida. Mas a criançada voltou a sentar-se à mesa para jogar ao Risco. Do Risco passaram ao Cluedo e agora não há bola que os tire de casa nem filme que os distraia do mistério. Porquê? "Porque assim a mãe brinca connosco", dizia um deles. Apanhada.

Nós, pais e adultos em geral, gostamos muito de dizer que as crianças de hoje não sabem brincar e que não lêem, que são viciadas em televisão, que não socializam, que não têm imaginação e que são adversas a um pensamento mais elaborado porque os jogos que jogam e os programas que vêem transformaram-nos em autómatos com o cérebro atrofiado. Mas ao mesmo tempo que achamos, convictamente, tudo isto, damos-lhes telemóveis, tablets, 200 canais à escolha e consolas. E quando lhes damos um livro, procuramos a versão em filme para lhes facilitar a compreensão da leitura. Também numa viagem de carro que dure mais de meia hora, levamos as consolas para elas se entreterem em silêncio em vez de cantarem ou de passarem o tempo a repetir as matrículas. E no fim agradecemos a todos os génios da informática pelas tardes que passámos em silêncio, pelas viagens calmas e serenas e pelos fins- -de-semana harmoniosos em que a criançada está toda agarrada às novas e silenciosas tecnologias em vez de estar aos gritos, a fazer perguntas, birras ou correrias.

Não ter nada disto dá trabalho. Aquela tarde em que eu e os meus filhos ficámos de castigo foi prova disso. Fazer a vez das consolas, da televisão e dos computadores não é fácil. Tira-nos dos sofás, dos nossos computadores e das nossas televisões para sermos pais. Para ouvirmos e brincarmos com os nossos filhos, para os ensinar a jogar em vez de ser ao contrário - porque, se das consolas percebem eles, do Risco ou do Monopólio sabemos nós. O novo mundo não está mal e as tecnologias não são o Demo, o que está mal é a falta de opções que insistentemente damos aos nossos filhos: se eles soubessem que existe vida para além dos computadores e das consolas, de certeza que as listas de Natal seriam outras. Mas como os nossos fins-de-semana seriam mais barulhentos e trabalhosos, o melhor é deixar as coisas como estão e não se fala mais nisto.

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publicado às 12:11

Tenho seis crianças em casa com um adulto

por Inês Teotónio Pereira, em 18.12.14

tenho medo de ligar para lá e estou com muita pena do adulto. 

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publicado às 12:40

Ainda não comprei um único presente de Natal

por Inês Teotónio Pereira, em 18.12.14

E sinto-me bem. 

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publicado às 12:37

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publicado às 11:02

No Natal sou quase comunista

por Inês Teotónio Pereira, em 17.12.14

O meu artigo no i de sábado 

 

O grande problema do capitalismo é que torna os meus filhos gananciosos. Vivessem eles num sítio onde não fossem bombardeados com anúncios e lojas onde a felicidade se vende a prestações ao preço da pêra-rocha e tínhamos todos uma vida mais calma e mais contemplativa. Em que eu teria mais tempo para contemplar a natureza e a filosofia, e eles menos tempo para pedinchar. Mas a realidade é adversa ao nosso bem-estar e, por isso, à felicidade dos meus filhos. E a culpa é do capitalismo, sem dúvida. Os meus filhos ambicionam o iPhone 6 e querem o seguinte: um cativo em Alvalade, passar pelo menos uma semana na neve ou nove dias e sete noites em Nova Iorque, ir a Madrid conhecer o Cristiano Ronaldo, uma quinta com cavalos e cães, comer pipocas e beber coca--cola às refeições e um cartão multibanco ilimitado para comprarem selvaticamente cromos para a caderneta referente à época 2014/2015 e gomas. Para já, é só. Mas na próxima semana pode ser que tenham outras ideias. Terão certamente. E eles querem tudo isto porque sabem que tudo isto existe. Vêem televisão, assimilam os anúncios, passam pelas montras e navegam na internet, corando de ansiedade e palpitando de desejo de cada vez que encontram uma novidade comercializável.

Para fazer frente a este bezerro de ouro disfarçado de brinquedos, tecnologia e viagens, estou cá eu. Eu, uma força de bloqueio entre eles e o capitalismo que nos entra pelas frechas mais recônditas das nossas vidas e nos polui a alma. Estou cá eu para dizer que não. Por isso, passo os dias a dizer não e já digo não porque sim, sem pensar. "Oh mãe podemos comprar... ?" "Não", respondo prontamente, sem os deixar acabar a frase. E eles, pobres vítimas deste capitalismo cruel, entristecem. Querem ter, mas não podem ter. Vendo- -lhes insistentemente a teoria saudável para o meu bolso que não ter faz crescer. É preciso que as crianças aprendam a lidar com a frustração, dizem os especialistas. Percebo, mas eles não. Se é assim, porque é que os amigos têm coisas que eles ambicionam e porque é que as crianças dos anúncios estão tão felizes? É muito melhor não ser frustrado, concluem com razoável discernimento e bom senso os nossos pequenos gananciosos.

Sim, o capitalismo polui a alma dos meus filhos e não me deixa outra alternativa senão ser contra ele. Justiça a sério, Natal genuíno, só se consegue vivenciar interrompendo o capitalismo por alguns meses. Ou têm todos ou não tem ninguém. A alternativa é deixar esse monstro aguçar a inveja e despertar a ganância das nossas crias ao som de uma melodia natalícia. É maldade haver tanto por onde escolher e mesquinho oferecer tudo isto enquanto toca o "Jingle Bells" nos corredores dos centros comerciais.

Natal são os presentes, as férias e comer bem. E é por isso que o Natal é a festa mais popular de todas. Não houvesse a tradição de darmos presentes uns aos outros, e às crianças em particular, e o 25 de Dezembro tinha entrado na lista de feriados a eliminar: seria razoável questionar a sua pertinência numa sociedade que se quer laica. Natal, meus senhores, é quando o capitalismo revela o seu esplendor máximo: sonso, ganancioso, materialista e financiado pelos bancos. Bancos maus que emprestam aos pais para darem aos filhos, sabendo que são os filhos que acabam a pagar os créditos. Soubessem os Reis Magos o que nós sabemos hoje e não se tinham aventurado atrás de uma estrela para darem presentes ao Menino Jesus. Foi, obviamente, uma má opção.

Por mim, pelos meus filhos, ou se acabava com o Natal ou se acabava com o capitalismo. As duas coisas não funcionam juntas: como é possível conciliar o espírito natalício do anúncio do azeite Galo com o plafond do nosso cartão de crédito e com a pedinchice infantil? Não é. No Natal comungo do anticapitalismo comunista. Não fosse o "pormenor" religioso da data e seria mesmo comunista durante todo o Advento; só vacilo porque não tenho a certeza de que os comunistas não ofereçam, também eles, presentes para festejar o nascimento de Jesus. Enfim, tirando o Papa Francisco, restam-me poucos aliados para enfrentar os meus filhos nesta quadra capitalista.

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publicado às 10:52

Para a próxima digo pêra rocha

por Inês Teotónio Pereira, em 17.12.14

- Alguém dê uma pêra ao bebé para ele se calar!
- Uma pêra...? Não podemos dar só uma palmada no rabo...?

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publicado às 10:48

- O teu filho mais novo é muito mimado?

- Não! Ele grita muito, é verdade, e  por isso nós acabamos por lhe fazer as vontades todas. Mas não é mimado, tem é muita personalidade.  

 

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publicado às 10:45

simplificações

por Inês Teotónio Pereira, em 11.12.14

- Não quero casar. 

- Porquê? 

- É difícil... 

- Porquê? 

- Porque se gasta muito dinheiro e não me apetece andar por todo o lado à procura de alguém para casar comigo. Não sei como escolher, é muito cansativo. .  

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publicado às 10:27

O planos profissionais do meu filho de sete anos: 

- Vou ser futebolista até aos trinta anos, depois vou ser arranjador ou engenheiro até aos 40, a seguir vou ser pescador porque não deve ser difícil e assim posso alimentar muitas pessoas e depois dos 50 anos quero ser professor de matemática. 

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publicado às 10:22

Generation gap

por Inês Teotónio Pereira, em 11.12.14

O meu artigo de sábado no

 

A sociedade portuguesa vive amarrada a uma série de preconceitos dos anos 70 e 80 e arrepia-se de cada vez que alguém se atreve a pisar o risco. Há coisas que não se devem escrever, há conceitos de que não se duvida, há sistemas que não se questionam e há mesmo opiniões que não se podem ter. Desde que comecei a trabalhar em jornais - há 20 anos - que a cartilha dos que opinam, sentenciam e protegem a moral e os bons costumes lusitanos é a mesma, e os poucos que vão aparecendo têm de a seguir ou vêem o seu espaço limitado, podendo ser legitimamente insultados. Sim, existem honrosas excepções - como já era, há 20 anos, "O Independente" -, mas o bom povo português não aprecia modernices e as excepções dificilmente deixam de o ser (basta espreitar a caixa de comentário de Henrique Raposo no "Expresso" para perceber).

Não é preciso ser sociólogo para constatar que esta é a realidade em que ainda hoje vivemos: basta abrir os jornais e ouvir os fóruns dos últimos dias para retirar vários exemplos. Mas o mais elucidativo de todos, que espelha de forma fidedigna esta vaca sagrada do anacrónico "sempre foi assim", são as opiniões sobre a prisão de Sócrates. João Miguel Tavares, uma das excepções, atreveu-se a presumir a culpa, em vez da inocência, do ex-primeiro-ministro e, exercendo a sua liberdade, escreveu isso mesmo nas páginas do "Público". Como era de esperar, os donos da opinião e a guarda pretoriana dos preconceitos do século passado enraiveceram-se e saltaram-lhe ao pescoço, insultando-o de quase tudo. João Miguel Tavares pisou o risco porque não obedeceu a uma regra sagrada: a do respeitinho pelos políticos consagrados. E esta é a vaca mais sagrada de todas. Opiniões arrojadas, pouco consensuais e que vão contra o mainstream só se podem ter nos cafés, não nos jornais - não vá alguém ler. Pode não se ter a mesma opinião de JMT, mas não é coerente, em nome da liberdade, condená-lo por tê-la. E esta fronteira, quase invisível, não pode em circunstância alguma ser móvel.

Portugal vive, assim, inclinado ao respeitinho e aos dogmas invioláveis, em que a liberdade tem donos, assim como a igualdade, a moral e os costumes. É assim porque sim e o regime tem os dias contados se deixar de ser assim, reclamam os nossos senadores da opinião.

No entanto, o país real, aquele que nos vai pagar as pensões e eleger os governos nas próximas décadas, vive noutro mundo e, felizmente, não entende esta ditadura de preconceitos. Nos últimos 20 anos, Portugal viu crescer uma geração que se habituou a ver as fronteiras muito para além das geográficas, que tem como certo que o mundo é bem mais pequeno e acessível do que na altura dos seus pais, que escolhe sem a ajuda de editores ou programadores a informação, séries e programas que vê, que não encara a língua como uma barreira ou o entretenimento como um luxo. É por isso uma geração totalmente livre, que escolhe aquilo em que acredita e que não precisa nem quer que lhe tracem limites politicamente correctos. A informação que recebe, a educação de que precisa e as ambições que tem não são compatíveis com condicionalismos à sua liberdade que, não sendo legais, são intrinsecamente culturais. A distância entre aquilo que se escreve ou comenta daquilo que é realidade desta geração é abissal, e os dogmas das décadas de 70 e 80 são, para estas crianças e jovens, qualquer coisa tão desajustada como a revolução da minissaia. Eles não entendem o que é o respeitinho e, por isso, não respeitam quem entende.

João Miguel Tavares, Henrique Raposo, Rui Ramos e outros tantos dão-nos um arzinho de como é agradável viver num mundo onde se pode ter opiniões honestamente livres e são a prova de que, se alguma coisa está em crise, não é o regime, mas sim o status de uma geração inteira de guardas pretorianos do politicamente correcto. É que todos os dias nasce mais uma criança

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publicado às 10:14

Dicionário Português-Parentês

por Inês Teotónio Pereira, em 03.12.14

 

Animais domésticos: piolhos.

Arrumação: não haver coisas no chão.

Limpeza: tudo o que não cheirar a cocó ou a vomitado está limpo.  

Descanso: silêncio.

Escola: tempos livres.

Família: serviço de baby-sitter gratuito.

TPC: não nos pagam para isto; também queremos uma FENPROF.  

Refeições: batalha campal com comida.

Birras: batalha campal com ou sem comida.

Sesta: a melhor invenção da pediatria.

Televisão: ritalina.

Computador: ritalina.

Livros infantis: Xanax

Programas de televisão infantis: LSD.

Telemóvel: não sendo comestível ajuda a aliviar as dores de dentes dos bebés.

Comandos: brinquedo predileto das crianças até aos dois anos (não recomendável o uso de pilhas).

Viagens: altruísmo/masoquismo; vomitado nos estofos do carro.

.Música: todo um vasto reportório que vai do clássico Doidas, doidas, doidas  andam as galinhas até à Violeta.

Notícias: publicidade entre as séries infantis.

Segurança: amarrá-los.

Super-mercado: local de repouso quando não se leva os filhos; local de batalhas campais com ou sem comida quando se leva os filhos.

Trabalho: férias.

Férias: trabalho.  

Nódoas: arte.

Paredes riscadas: arte.

Vida social: festas de anos infantis.

Carro: repositório de brinquedos e de restos de comida com rodas.    

 

(Continua) 

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publicado às 13:09

O primeiro primeiro-ministro dos meus filhos

por Inês Teotónio Pereira, em 03.12.14

A minha crónica de sábado no

 

Os meus filhos não fogem à regra de todo o país e estão também seriamente consternados com a prisão de José Sócrates. Eles não o dizem, até porque não sabem o que quer dizer "consternação", mas o silêncio que reina em minha casa sobre o caso judicial mais relevante "da história da democracia" diz tudo sobre a consternação dos meus filhos. José Sócrates foi o primeiro primeiro-ministro da vida deles e isso torna ainda mais grave o caso do último fim-de-semana. Tal como o primeiro dia de escola, as primeiras chuteiras, o primeiro amor ou a primeira viagem, também ninguém se esquece do seu primeiro primeiro-ministro. Da mesma forma que a minha geração cresceu com Sousa Veloso e o seu "TV Rural", os meus meninos cresceram com Sócrates e com o seu Magalhães. O destino assim determinou. É por isso inegável a ligação que eles têm a uma pessoa que os viu crescer (através da televisão, é certo) e que eles viram a governar o país durante a sua infância.

Um chefe é sempre chefe e, como institucionais que são todas as crianças, os chefes respeitam-se. Por mais que se diga cobras e lagartos de quem detém o poder, as crianças não fazem juízos complexos e simplesmente inclinam-se perante os chefes porque se inclinam sempre perante o poder. Seja de um político, seja de um professor ou de um padre. Foi por isso que este fim-de-semana os meus filhos ficaram consternados. "Faz-me impressão", dizem eles, remetendo-se de seguida a um silêncio respeitoso, como se estivessem a guardar o segredo de justiça.

Eles não entendem um décimo do que ouvem na televisão, não fazem ideia do que são as instituições, não sabem o que quer dizer separação de poderes e muito menos que existe uma coisa chamada processo penal. Sabem apenas que o senhor mais poderoso da sua infância foi preso. E isso, compreensivelmente, "faz impressão". Como, porquê, que tipo de prisão ou quem o prendeu, não interessa nada, e eles não querem saber. No mundo da criança existem os bons e os maus, os que mandam e os que obedecem, os ricos e os pobres; são os ricos que compram, os que mandam quem detém o poder e os bons que prendem os maus. É simples.

Ora no passado fim-de-semana este mundo maniqueísta dos meus filhos desabou e agora nada será como dantes. Afinal quem manda aqui? Quem são os bons e quem são os maus? Ninguém lhes diz e eles agora sabem que nada é tão simples ou linear como pensavam. Perguntava um deles, consternado, e revelando a confusão que se instalou na sua cabeça: "Ele está em prisão pensativa para poder pensar no que fez?" Mas mal foi desfeito o engano voltámos ao silêncio.

Passou uma semana do terramoto e os meus filhos ainda não se recompuseram. Não é que eles tivessem empatia com o ex-primeiro-ministro, que passava ao lado do seu dia-a-dia. O problema é que no entender deles um primeiro-ministro, ex ou não, é uma instituição, e as instituições não vão parar ao mesmo sítio das pessoas que roubam carros ou assaltam velhinhas. É como se de repente o Sporting ou o Mosteiro dos Jerónimos fossem presos. Impossível. Para os meus filhos, as pessoas não interessam, o que interessa é o que fazem e se alguém o que faz na vida é mandar num país inteiro está obviamente acima de qualquer suspeita. Pois aquilo que parece é. Dizia um dos meus irmãos em pequeno sempre que via um carro com estilo a passar: "Eh pai, aquele tipo deve ser bestial!" Não lhe passava pela cabeça que não fosse.

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publicado às 11:01

O comunismo e os nossos filhos

por Inês Teotónio Pereira, em 20.11.14

A minha crónica de sábado no i 

 

Tal como a larga maioria dos portugueses, cresci num mundo divido pelo Muro de Berlim, em que o comunismo era uma realidade presente em todas as áreas, do cinema à literatura, da educação à política e até nos desenhos animados da Checoslováquia ou da Hungria apresentados por Vasco Granja. Para mim, e para a maioria dos portugueses, o mundo para lá da cortina de ferro era uma espécie de planeta distante de onde poucos saíam para nos contar como era, que nos incomodava ao mesmo tempo que nos ajudava a formar a nossa consciência política e onde agradecíamos ter a sorte de não viver. Cresci num mundo de regimes e ideologias, em que o comunismo era a actualidade e em que ninguém sabia quando, como ou se iria acabar.

Há 25 anos, com a queda do Muro de Berlim, esse mundo onde a maioria de nós cresceu desapareceu. Em poucos meses não ficou pedra sobre pedra dessa realidade e a União Soviética, o Bloco de Leste, o Pacto de Varsóvia e o KGB foram palavras que desapareceram do léxico, das discussões políticas, da política internacional e da nova ordem mundial. E até os filmes do 007 tiveram de encontrar novos maus, novas crises e novos espiões, assim como John Le Carré novos enredos para os seus livros de espionagem. O comunismo estava morto e enterrado debaixo dos escombros do Muro e se dúvidas houvesse quanto à sua falência, aos horrores que provocou e à miséria que semeou, a abertura dos arquivos e as histórias de cada uma das famílias que viveram para lá da cortina de ferro dissiparam-nas todas. O mundo mudou e em Novembro de 1989 era certo que ninguém se iria esquecer dos horrores do comunismo, ninguém iria ter saudades da divisão de Berlim e que para trás ficava uma ideologia falhada e por isso morta.

Mas não. Passaram 25 anos da queda do Muro e o nosso PCP, por quem o tempo não passou, começa assim um comunicado publicado no jornal "Avante": "Mais do que a 'queda do muro de Berlim' o que as forças da reacção e da social--democracia celebram é o fim da República Democrática Alemã (RDA), é a anexação (a que chamam de 'unificação') da RDA pela República Federal Alemã (RFA) com a formação de uma 'grande Alemanha' imperialista [...]" E continua: "Aquilo a que assistimos no território da ex-RDA foi à destruição forçada das realizações económicas, sociais e culturais de mais de quarenta anos de poder dos trabalhadores [...]"

Sim, é verdade que o PCP não está a dizer nada de novo e está apenas a reafirmar a sua versão da história: há 25 anos que diz o mesmo, da mesma forma que o politburo sempre negou a existência do Gulag e de muitas outras "invenções das forças de reacção". Mas o que torna este comunicado actual, e de certa forma novidade, é que ele não é dirigido a quem viveu esta época ou se emocionou com a queda do Muro, que obviamente encolhe os ombros perante a dimensão do absurdo que ali está escrito. Este comunicado é para ser lido por todos aqueles que cresceram num mundo sem Pacto de Varsóvia, que vão fazer Erasmus para a Croácia sem nunca terem ouvido falar de Tito e que acham que Brejnev é da geração do Kaiser. É dirigido a uma geração, cada vez mais maioritária, que não viveu o comunismo nem de um lado do Muro nem do outro e que por isso não tem a obrigação de não se esquecer.

"Num processo acidentado, feito de avanços e recuos, de vitórias e derrotas, o futuro da humanidade não é o capitalismo mas o socialismo e o comunismo", diz o PCP com convicção.

Parece surreal que isto possa acontecer ou até que possa ser escrito, mas a verdade é que se não explicarmos aos nossos filhos o que foi o comunismo e se não lhes mostrarmos os seus horrores, daqui a uns anos, quando a maioria já não for formada por aqueles que comemoraram a queda do Muro, o seu repúdio não será tão óbvio. Para nós, que sabemos o quanto era um privilégio viver em liberdade e que testemunhámos um dos períodos mais negros da história, é fácil achar que "comunismo nunca mais" é uma evidência e o contrário absurdo. Mas aqueles para quem o comunismo é uma realidade tão distante como o Império Otomano, não é tão certo que daqui a uns anos esta não seja novamente considerada a ideologia "nova" para corrigir as desigualdades sociais. O PCP sabe isso e sabe que é fácil enganar uma geração que cresceu a considerar a liberdade tão garantida como o ar que respira, da mesma forma que é hábil a explorar a pobreza e as desigualdades como combustível para alimentar sua lunática luta de classes. Não sei se a história se repete, mas pelo sim pelo não já pus o meu filho mais velho a ler "O Triunfo dos Porcos".

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publicado às 11:38

Momento Calvin

por Inês Teotónio Pereira, em 13.11.14

- Hoje cheguei quinze minutos atrasado à aula de dúvidas, mas foi de propóstio? 

- O quê?! Porquê? 

- É que só tinha dúvidas para meia hora e a aula é de 45 minutos.  

 

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publicado às 13:13


A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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