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Na porta do meu frigorífico

por Inês Teotónio Pereira, em 22.03.10

No i deste fim-de-semana

 

Na porta do meu frigorífico estão penduradas três listas de regras: uma descreve em pormenor tudo o que é proibido fazer, outra é exclusivamente dedicada aos deveres e a última enumera os direitos da criançada. Este processo legislativo doméstico foi uma iniciativa das bases, ou seja, dos meus filhos. Eles próprios queriam ver escrito o que não podem fazer porque se estava a tornar cada dia mais difícil decorar tantas regras e limitações, como gritar, pôr os pés em cima dos sofás, bater nos mais novos, comer na sala, etc. O básico.
Mas as coisas não correram muito bem: eles exageraram na febre normativa e o resultado desta lista foi uma espécie de código penal da Birmânia em versão doméstica e familiar. Paciência, digo eu. E cumpra-se.
Aproveitei a boleia e ditei os deveres: saiu uma listinha pindérica onde se diz que suas excelências têm de arrumar os brinquedos, ajudar a levantar os pratos da mesa, despejar o lixo, estudar - enfim, o mínimo.
No entanto, depois de expostas as listas, achei que o frigorífico mais parecia o "Mein Kampf", na exacta a medida em que um frigorífico pode ser comparado com o "Mein Kampf", e resolvi criar uma lista de direitos. Sim, de direitos das crianças. Mas não me lembrei de nenhum, além dos básicos da ONU, e convoquei uma assembleia doméstica para receber contributos. "Ver televisão", disse um deles. "OK", disse eu, "mas só quando eu deixar, está bem?" Eles concordaram. E assim chegámos a um entendimento, uma espécie de estatuto que está entre o democrático e a minha autoridade. Acho que vou enviar o meu frigorífico ao Ministério da Educação.

 

 

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publicado às 12:52


3 comentários

De Elisabete Martins a 22.03.2010 às 14:08

Um espectáculo! Gosto imenso da maneira como escreve.
Já agora, é possível também enviar-me o dito cujo? Nem que seja só a porta. Cá em casa, todos estão a precisar.
Beijinhos,
Beta & Co.

De Ana Maria Mendes a 23.03.2010 às 15:35

Cá em minha casa a democracia funciona assim, principalmente em momentos de crise: "Enquanto eu for tua mãe, quem manda sou eu!". Eh eh...

De df a 23.03.2010 às 18:32

envie para a Sra ministra que bastante falta lhe faz! REGRAS!!!

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
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