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De ir às lágrimas

por Inês Teotónio Pereira, em 15.04.10

Lourenço Cordeiro
Aqui
Benfica 2 - 0 Sporting
Aqui fica o minuto a minuto:

19:15 - O tom de voz da minha mulher ao telefone precipita-me para casa. Fico com a sensação de que mãe ou filho não estão bem.
19:31 - Afinal, mãe e filho não estão bem. A mãe tem algumas queixas que já tentou reportar à médica que não atendeu a chamada. Foi deixado um sms. Por outro lado, o filho fez uma coisa pela primeira vez que está a deixar a mãe preocupada: fez três cocós (quando se é pai, há uma série de palavras que ganham legitimidade, como por exemplo «cocó», «xixi», e «pilinha») em 45 minutos.
19:32 - Actualização: quatro cocós em 46 minutos. Desta vez já ao meu colo, pelo que sou eu quem dá a notícia à mãe dele: todos os sinais de pânico disparam.
19:41 - Outro sms é enviado, desta vez ao pediatra que não atende o telefone.
19:43 - O pediatra ainda não respondeu, pelo que a ansiedade ainda não parou de crescer. Numa medida que viria a provar-se imprudente, proponho ligarmos para a linha Saúde 24.
19:58 - Atende uma enfermeira. Começa a fazer-me perguntas que eu vou respondendo; outras preciso de perguntar à minha mulher, que está ao meu lado a tratar do nosso filho.
20:01 - A enfermeira pede para passar o telefone à pessoa que está ao meu lado e a quem eu estou a fazer perguntas. Informo que se trata da mãe e cumpro a ordem.
20:02 - Pelas respostas que a minha mulher vai dando ao telefone, percebo que a enfermeira está a repetir ipsis verbis todas as perguntas que acabou de me fazer, o que conforma, evidentemente, um insulto à condição de «pai». Não levo a peito.
20:06 - O veredicto: ele deve ter diarreia, mas o melhor é ser observado. No Hospital da Estefânia. O mais rapidamente possível.
20:07 - Entro em hiperventilação; pânico; desespero. Percebo que o pânico e o desespero não se prendem com o facto de o meu filho precisar de ir ao hospital pela primeira vez na vida. Ele é uma criança e as crianças vão muito aos hospitais, estou preparado para isso. Não, para o leitor perceber o motivo do meu pânico, é preciso recuar seis horas no tempo: à hora do almoço as partes (eu e ela) tinham chegado a um acordo no sentido de permitir que uma delas (eu) se ausentasse do castelo (a nossa casa) de modo a poder dirigir-se ao local mais próximo detentor de Sporttv. Não foi preciso verbalizar nenhum aditamento a esse contrato que está, nesta altura, completamente obsoleto. O meu pânico não se deve à evidência de eu não me poder dirigir ao café aqui de baixo (isso já eu percebi no princípio do relato): o meu pânico está na possibilidade de eu não chegar sequer a ouvir o jogo. Sinto um vazio dentro de mim tão grande, tão grande.
20:15 - Vamos todos manter a calma. Afinal, quatro cocós em 46 minutos deve ser normal, não nos esqueçamos que eles comem 3% do seu peso em leite sete vezes por dia, ou seja, o equivalente a um adulto normal (eu) beber 2,5 litros de leite de três em três horas. Sejamos sérios: se eu bebesse 2,5 litros de leite de três em três horas teria de ser alimentado directamente na casa-de-banho.
20:19 - Um acordo foi celebrado: esperar pela chamada do pediatra e agir em conformidade.
20:31 - O pediatra ainda não ligou. Vou suspirando de alívio: sei que enquanto o pediatra não ligar, não há Estefânia para ninguém. Começo à procura de sites que façam a transmissão ilegal do jogo.
20:40 - Consigo uma transmissão impecável. Não há sinal do pediatra. Vamos a isto.
20:45 - Éder Luís, caralho? Éder Luís?!
20:49 - O pediatra continua sem ligar. Não gosto nada disto: a posse de bola parece-me vacilante.
20:51 - O pediatra liga. Tiro o volume do jogo, mas não todo. Ouvido na sala do lado. Suspense: haverá Estefânia ou não haverá Estefânia?
20:53 - A minha mulher desliga e diz obrigado, sorridente. Instintivamente, volto a aumentar o volume da transmissão ilegal. O pediatra, com recurso a um quinto das perguntas da enfermeira, decreta a calma geral e diz que o importante é ele comer. Eu sabia que havia uma razão para ter sugerido este pediatra.
21:30 - A primeira parte acaba com muitas preocupações. Por outro lado, o meu filho decidiu iniciar um período relativamente prolongado isento de movimento intestinais.
21:32 - Liga a médica da minha mulher. Receita-lhe um antibiótico.
21:39 - Absolutamente surpreendido pela minha determinação, pego nas chaves do carro e saio à procura de uma farmácia de serviço. A péssima primeira parte do Benfica não é alheia a esta decisão.
21:52 - Encontro finalmente a farmácia. O farmacêutico, compreensivelmente transtornado por alguém estar ali a obrigá-lo a largar a Sporttv que quase de certeza absoluta tem lá na sala do fundo, não me quer vender o produto. Diz que só com receita. Largo a bomba-atómica retórica: junto, na mesma frase, «bebé», «mãe», «amamentação», «dores, muitas dores», «urgência», «desespero» e «Aimar». O farmacêutico, comovido com o Aimar, aceita fazer-me uma «venda suspensa». Fico sem saber o que é uma venda suspensa: eu dei-lhe o dinheiro, ele deu-me o produto, pareceu-me uma venda absolutamente não suspensa.
22:04 - De volta ao carro. Espero não ter perdido nada. Confirmo que não perdi nada: continua 0-0.
22:06 - Golo! Cardozo! Caralho! Vamos embora! Campeões, campeões, nós somos campeões!
22:09 - Largo, finalmente, a buzina.
22:10 - Continuo em direcção ao Blockbuster, que, se ainda não fechou as portas, espera um DVD meu.
22:21 - Aimar! Se for preciso mudar-te as fraldas, eu vou aí, eu vou aí!
22:31 - Chego a casa. Informo a minha mulher que «estamos» a ganhar por 2-0. Ela, numa manifestação de solidariedade para com esta pessoa que lhe foi buscar a droga, indica ficar contente com esta notícia.
22:36 - Acaba o jogo. O meu filho nunca mais fez cocó desde que o jogo começou.
22:37 - Chego à segunda grande conclusão da noite (a primeira, obviamente, é a de que a vida de pai é feita de muitos sacrifícios e nervos, o que seria o meu filho estrear-se num Benfica-Sporting com uma derrota, isto dá cabo de uma pessoa): o meu filho estava nervoso! O meu filho estava nervoso por causa do jogo (quem nunca passou meia-hora na casa-de-banho antes de um dérbi que atire a primeira pedra). É agora tudo claro com a água. Verto uma lágrima de orgulho.

(A minha mulher está óptima, obrigado.)

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publicado às 11:08



A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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