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A problemática do tu

por Inês Teotónio Pereira, em 07.05.10

Uma boa pergunta esta de Bill, a que vou tentar responder, também com sinceridade. O que penso eu dos meus filhos me tratarem por você?

Para começar penso que sim, concordo com os meus filhos. Eu também trato a minha mãe por você e a minha mãe a minha avó e a minha avó, não sei, mas também devia tratar a minha bisavó por você (ou a minha mãe não a trataria por você).

No entanto, deixe-me fazer uma ressalva: eles não me tratam bem por você, tratam-me por mãe. Ou seja, ele não dizem: "Ó mãe, não quero comer mais, você encheu-me o prato!". Não, eles dizem: "Ó mãe, não quero comer mais, a mãe encheu-me o prato".

Mas isto é um pormenor, eu sei. O busílis na questão está no facto de eles não me tratarem por tu.

Porquê? Questiona quem questiona este tipo tratamento. Serão os meus filhos snobs, cagões, betinhos, meninos bem, da linha, da Foz, da Lapa, da mamã, do papá, monárquicos, duques, condes, barões, queques, enfim? É este um tratamento do tipo elitista?

Não. E não quer dizer nada.

Eles não me tratam por tu porque não.  É assim. É como é, porque sempre foi. É simples. Pode deixar de ser, não faz mal nenhum. Mas não deixou. E sem razão nenhuma. Quer isto quer dizer que eles não são como as pessoas "normais" ou que as pessoas "normais" tratam os pais por você? Não, quer apenas dizer que eles não tratam os pais por tu. Ponto. Porque não. Não lhes dá jeito. É uma mania, um hábito.

Se acho bem? Não acho bem nem mal. Acho irrelevante, indiferente, sem significado, sem leitura. Se gosto? Gosto, porque gosto que eles me tratem como eu trato a minha mãe.  Dá-me mais jeito.

Não, Bill, o mundo não se divide entre os que tratam os pais por tu e os outros. Isso é um absurdo, além de ser redutor. O mundo divide-se entre os parvos e os outros. E cada um trata os pais como bem entende. Porque sim, ou porque é parvo, ou porque não é parvo, ou porque é arrogante, ou porque é elitista, ou porque se está nas tintas, ou porque é isso que lhe sai. Tem o mesmo significado que tem o facto de o Bill me tratar por você - nenhum. É o que lhe sai, não é? Nem sequer é por não me conhecer, ou por uma questão de respeito. Porque se não me conhece, nem sequer me deve respeito. Dá-lhe mais jeito, pronto. Mas não faz mal, eu não me importo.

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publicado às 10:37


14 comentários

De Inês a 07.05.2010 às 12:49

E já agora, Inês, o que pensa do inverso, i.e., os pais que não tratam os filhos por tu mas na 3ª pessoa do singular? (em minha opinião cada um sabe o que é melhor, mais adequado, etc...)
Inês

De jonasnuts a 07.05.2010 às 12:55

Claro que o mundo não se divide entre quem trata os pais por tu e os que tratam os pais na 2ª pessoa.

Toda a gente sabe que o mundo se divide entre cumprimentam com dois beijinhos e os que cumprimentam com um beijinho :)

De Inês Teotónio Pereira a 07.05.2010 às 13:18

Ah, é verdade. Esses betos de merda! Bjs :-)

De clara a 07.05.2010 às 14:36

eu tenho um filho que me trata na segunda pessoa do singular e outro que me trata na terceira do singular, ambos por mãe. são do mesmo pai. será que um se safa e o outro n?

De Ana Deslandes a 07.05.2010 às 15:13

Mas afinal, o que é que isso interessa? Uns tratam por tu outros por você, não somos todos iguais. Podem tratar por tu com imenso respeito ou por você sem respeito nenhum! Não tem nada a ver com divisões de grupos... os filhos tratam os pais com estes lhes ensinaram... Os meus filhos mais velhos tratam-me por "você" mas o mais novo trata-me por tu... so what ?

De Sofia Enes a 07.05.2010 às 16:01

Eu trato a mãe por tu e o pai na terceira pessoa (não uso o você, para mim é uma tremenda falta de educação tratar alguém por você, ouve-se tanto "você isto, você aquilo...")
Porquê? Porque sim, aconteceu, comecei a fazê-lo e ninguém levou a mal e atrás de mim vieram os meus irmãos...
O que interessa é que repeitem os pais, sejam educados... não de que forma se dirigem a eles...
O mesmo em relação aos beijinhos, se é um ou dois... pelo amor de Deus, o que interessa isso?? Há tanta coisa bem mais importante e relevante...

De filipa a 07.05.2010 às 17:26

beijinhos... os holandeses dão 3... e isso significa que são o quê ?

De maria isabel prata a 07.05.2010 às 22:44

os meus filhos tratam o pai e a mãe por tu, eu sempre tratei os meus pais , tios e avós por você sem o você: Se calhar se tivesse pensado nisso preferia que os meus filhos me tratassem como eu trato a minha mãe, mas não aconteceu assim, e está muito bem. Só aprendi a dar dois beijos quase adulta, antes até um já era demais. E sou uma perigosa esquerdista :)

De Bill a 08.05.2010 às 01:55

Bem, a resposta à minha pergunta tomou um dimensão que eu não esperava. Eu não insinuei coisa alguma, quis apenas saber o que pensava da questão e porventura como justificaria a sua opinião pelo simples facto de gostar do que leio aqui e pela forma peculiar como trata e retrata as questões da maternidade, entre outras.
"Não, Bill, o mundo não se divide entre os que tratam os pais por tu e os outros.", a única pessoa a equacionar tal divisão foi a Inês, não eu, longe de mim está pensar de tal forma. Não tente pressagiar o que penso sobre a hipotética (!) betice que é tratar os pais por você. Certamente sabe que em alguns meios e em alguns estratos sociais o tratamento entre pais filhos na equação tu/você é justificada d'outra forma, até como sendo "de bem"; mas são prismas e explicações como quaisquer outras, como a da Inês.
Tratei-a por você, pelo respeito que lhe tenho a priori, precisamente pelo facto de não a conhecer, mas também por ser costume no sentido de ser uma prática reiterada no trato de pessoas que não nos são próximas ou coisa que o valha.

De Ana Elias a 08.05.2010 às 12:10

Gabo-lhe a paciência para uma explicação tão exaustiva.
Mas, continuo a preferir a resposta que deu no outro dia à mesma pergunta: " Porque é giro, sei lá..." :)

De Ana Elias a 08.05.2010 às 12:26

Ah! ... trato os meus filhos pelo nome (2a pessoa do singular quando a coisa corre de feição, 3a do singular quando se portam mal... conforme me dá mais jeito), mas, só lhes dou um beijo de cada vez. Uma perfeita incoerência maternal! :)

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
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