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A questão doutrinal

por Inês Teotónio Pereira, em 07.06.10

No i do fim-de-semana

 

Uma das coisas que mais gosto de fazer com os meus filhos é influenciá-los. Deliro. Ter a oportunidade de explicar, com tempo, o meu ponto de vista, a minha versão dos factos, a minha ideologia, as minhas crenças a pessoas inocentes, sãs, crédulas, civilizadas e inteligentes que não querem discussão mas sim informação, é fantástico. Um sossego. Eu não discuto, ensino. Experimento argumentos, ensaio raciocínios e conto histórias elucidativas das minhas verdades aos meus fiéis seguidores, que me fixam com olhos esbugalhados. Também não imponho nada; explico o óbvio. E claro que eles acreditam piamente em tudo o que lhes digo: se também acreditam quando lhes garanto que a sopa já arrefeceu, não duvidam quando digo que "ajuda humanitária turca" é com aspas. Uma das inúmeras vantagens destas prelecções domésticas e familiares, além das óbvias, que são benéficas para a sociedade em geral, é que me obrigam a dominar e a rever os temas, a melhorar a argumentação para poder explicar as minhas teses com maior clareza. Como tenho de ensinar os conceitos mais elementares, estou constantemente em reciclagem doutrinal. Por exemplo, quando um deles me pergunta o que é um socialista, tenho de lhes dar a definição de imposto, de empresas públicas, de Mário Soares, etc. (sim, é verdade, as crianças de hoje crescem sem Mário Soares nas suas vidas). Claro que a conversa só acaba quando eles ficam devidamente esclarecidos das consequências do socialismo. "Ah, mas isso é manipular as crianças." Claro que é! E só tenho até à adolescência deles para o fazer. Mas cá eu chamo a isto educar.

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publicado às 15:26


4 comentários

De Nuno a 07.06.2010 às 18:14

Também faço isso, não a um nível político, mas sim a um nível social, entre eles. Adoro cortar nos que pensam que são grandes e priveligiar os mais pequenos. Adoro fazer passar a mensagem que por mais feios, gordos ou maus que sejam, são pessoas e têm direito a divertirem-se e a viver; e nem são menos que os outros nem têm que aceitar ser calcados...

E penso que ao tentar mudar estas mentalidades de existirem lideres e subjugados estou a conseguir mudar a sociedade do futuro. E isso deixa-me feliz, nem que seja um pouquinho :D

(ensino miúdos a patinar, com os seus 4, 5, 6 e 7 anos)

De Anónimo a 07.06.2010 às 18:16

Adorei!
P.F.

De Carla a 08.06.2010 às 11:21

Eu faço exactamente a mesma coisa. E mal posso esperar que o meu cresça um pouco mais para lhes poder contar a forma como a vida dos avós melhorou tanto por causa de pessoas como o Álvaro Cunhal, o Mário Soares ou o Vasco Gonçalves. Eu também adoro catequizá-lo, para o lado esquerdo é certo, pelas exactas mesmas razões que a Inês apresenta. Também creio que a isso se chama educar.

De Isabel a 08.06.2010 às 17:03

e um dia todos vão crescer e queira Deus que saibam pensar pelas próprias cabeças

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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