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E aos meus filhos deixo a dívida nacional

por Inês Teotónio Pereira, em 20.06.10

No i deste fim-de-semana

 

Os meus filhos estão a ser educados para sobreviver ao desemprego, à ausência de investimento e à falta de oportunidades num estado social morto e enterrado. Os meus filhos estão a ser preparados para viver num país que nós, pais e avós, depenámos e que lhes deixamos em herança com muito amor e muitas dívidas.
Os meus filhos estão tramados.
Eu, que cresci num país em franco crescimento subsidio/económico, onde me foi garantida paz, pão e habitação, como diria a saudosa APU, não faço ideia do que os espera.
Desconfio que por este andar, quando eles entrarem na selva do mercado de trabalho, só se salva quem souber muito sobre qualquer coisa muito útil, quem falar várias línguas e for muito trabalhador. Os outros, nem sei. Sei que a maioria dos pais não terá dinheiro para os sustentar, como os pais de hoje em dia, nem os governos para lhes dar subsídios, como os governos de hoje. Os nossos filhos vão entrar no mercado de trabalho afogados nas dívidas que o país contrai diariamente para pagar dívidas, fazer obras públicas, sustentar empresas públicas e manter o desperdício. O trabalho deles não será para gerar riqueza, mas para pagar juros. E nós diremos, com a autoridade de quem sabe o que são spreads baixinhos: "Sabes, a culpa foi da crise financeira mundial. O TGV parecia tão giro... Estuda filho, estuda!"
Não será melhor mudar o nome de Ministério da Educação para Ministério de Salvação Nacional? E, já agora, não fechar mais escolas? É que eles precisam mesmo de estudar para pagar as nossas dívidas.

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publicado às 20:30


3 comentários

De António Martins a 21.06.2010 às 09:48

Criados no consumismo e no facilitismo, não desenvolvem em si ideias, aglutinadas segundo uma direcção, de modo a se transformarem num ideal, pelo qual lutem e arrisquem até ao fim. Endeusam o prazer do bem, não discutem a substância e forma de todos o conseguirem, sem prejuízo para ninguém. O bem aparece, é preciso usufruí-lo.
Não interessa como aparece, quanto dura, se haverá sempre. O que é preciso é “esmifrá-lo”, e saborear aquelas sensações efémeras. Chupado aquele item da substância, deita-se fora e procura-se novo ponto de admiração.

De A mãe que capotou a 22.06.2010 às 11:35

Toda a gente a reclamar, os avos, os pais, os filhos e, no entanto, seria tão mais fácil e divertido se cada um mudasse pequenas coisas a pequena escala.

I have a dream ...

Bolas ! Já houve situações bem piores na historia da humanidade ! Quem quis , não perdeu tempo com queixumes...
Sou uma mãe capotada com muita paciência para muita coisas , mas o que farta, farta !

De António Martins a 23.06.2010 às 17:17

Não tenho um sonho. Tenho um ideal que apuro diariamente. Ele é para mim e para todos.
Também não gosto de queixumes, gosto de constatações e discutí-las.
Não gosto de propagandas baratas, nem submissões.
Não gosto de encobrir a realidade e mascará-la.
Portanto, o texto da Inês é muito bom, e acrescentei umas constatações.
Bom S. João para a Inês e para todos.

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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