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O tempo (II)

por Inês Teotónio Pereira, em 05.07.10

No i do fim-de-semana

 

Perguntam-me se tenho tempo para os meus filhos. É recorrente. É uma pergunta que vai e vem. Mas nunca percebi a dúvida: tempo para quê? Para brincar, para conversar, para ver televisão? Não sei. Quando a próxima pessoa que me perguntar sobre o tempo vou tentar perceber. "Desculpe, mas tempo para quê?" 
É que eu não tenho tempo para nada. Nunca tive. Não sei ter tempo. Estou sempre a perdê-lo, constantemente atrasada. Mesmo quando não tenho nada que fazer, aproveito o tempo livre para fazer uma coisa qualquer e o tempo nunca chega. 
Por isso não sei se tenho tempo para os meus filhos ou não. Como nunca fiz um horário, não tenho dados para quantificar. Sei que há dias em que estou mais tempo com eles, outros menos; às vezes é em exclusivo, outras vezes é uma confusão. Depende.
A questão pertinente - e aqui vai uma dica para quem se interessa pelo tema - é: "Olhe, desculpe, aproveita o tempo que está com os seus filhos, ou está sempre aos gritos, a fazer coisas parvas e não os deixa falar? E eles, conversam consigo, ou ficam pregados à televisão e às consolas?"
A minha teoria sobre a problemática do tempo é que qualquer viagem de carro de casa para a escola, uma conversa antes de adormecerem, um telefonema para casa com as perguntas certas, valem ouro. As crianças, os filhos, precisam é de sentir a importância que têm. E para lhes mostrar isso a quantidade de tempo tem uma importância relativa. O que sei é que desde que tenho filhos deixei de ter tempo para ler: adormeço sempre.

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publicado às 11:33


1 comentário

De António Martins a 08.07.2010 às 16:24

Claro que o “tempo” é algo insuportável porque nos dá dicas sobre o sofrimento.
Para viver precisamos de sentir, isto é, viver para melhor representar, e para tal precisamos de tempo para estar perante algo. Neste caso, perante o prazer de estar com alguém que amamos para além de tudo. Para criarmos a boa ideia não chega só ouvir, ou só ver, ou só cheirar, ou só tocar, precisamos de algum tempo para tudo isso em conjunto. Amar não é supor, permanecer em dúvida, é partilhar olhares, tocar, ralhar na presença, é disciplinar, saber a verdade dos nossos filhos…. É preciso ter o tempo necessário para ser família, sentir a necessidade de proximidade entre uns e outros. Diria melhor apreender uns com os outros.
Nessa, nesta ou qualquer outra cidade com a organização social actual e imposta haverá um tempo certo para estar junto em família de modo harmonioso?
Ao falar do tempo, a questão não se coloca no “eu”, mas no “nós”, nós como sociedade.
A sociedade urbana da disponibilidade máxima em segunda família tem que se recolocar numa sociedade de proximidade em que a primeira família tem o seu lugar muito próprio. E assim, a orientação política não pode descurar essa situação, entre outras fundamentais à vida com o menor sofrimento possível.

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
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