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Sábia ignorância

por Inês Teotónio Pereira, em 12.07.10

No i do fim-de-semana

 

UMA DAS CARACTERÍSTICAS mais divertidas das crianças é que respondem sempre, quer saibam quer não saibam a resposta. Na dúvida, dizem qualquer coisa, não se calam perante a ignorância: se não sabem, inventam. E inventam quase sempre respostas de qualidade, algumas com categoria cinematográfica. 
No outro dia perguntei a um dos meus filhos: "Onde é que estão os óculos?" E ele respondeu: "Foi um homem que veio cá a casa ontem ao fim da tarde com um macaco e o macaco levou os óculos. Eu ainda disse para ele não levar os óculos e corri atrás dele, mas não consegui apanhá-lo: ele fugiu. A mãe também não estava cá."
Está explicado: perdeu os óculos. E esta história não é mais que uma maneira divertida de dizer "não sei". 
As crianças sabem como é a Lua, Deus, a China, os leões, os soldados romanos, os dinossauros, o centro da Terra, o fundo do mar, os marcianos sem nunca os terem visto. Mas sabem. E desenham-nos todos os dias. Um adulto, perante este desafio, vai ao Google Imagens e copia. 
Uma criança não tem medo de errar. Experimenta respostas e diverte-se imenso durante o processo porque não tem medo do disparate. Melhor, por não saber o que é um disparate. Depois, conforme vai crescendo, e de nós, pais e professores, lhe exigirmos certezas, de lhe ensinarmos o que é o ridículo e de lhe mostrarmos como é terrível falhar e errar, ela vai-se calando. Deixa de tentar. Até que a criatividade e a curiosidade se evaporam. E pronto, é quando já tem idade para tirar a carta.

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publicado às 10:45


1 comentário

De Felícia a 12.07.2010 às 13:32

As crianças sempre terão algo de valor para ensinar aos adultos. A sua maneira de estar na vida é a maior riqueza que nos poderiam transmitir. Uma mistura de safadeza e ingenuidade, de fantasia e de um acreditar forte que são capazes e que estão certas. Tomáramos muitos de nós, os graúdos acompanhar o ritmo e inteligência criativa dos mais novos!

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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