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Aproveitamento mínimo garatido

por Inês Teotónio Pereira, em 13.08.10

No i do fim-de-semana

 

O RENDIMENTO mínimo chegou à escola. Agora querem que os nossos meninos tenham um rendimento mínimo de desempenho escolar: não chumbarem. No mínimo passam e no máximo também.
Se uma das grandes questões doutrinais dos dias de hoje é "trabalhar para quê se vamos ali abaixo à Segurança Social e metemos os papéis para o rendimento mínimo?", a segunda questão doutrinal do século xxi português será "estudar para quê se chegamos ali à escola e passamos sempre?".
Eu percebo a lógica: na dúvida premeiam-se os cábulas e os calões. Dá muito menos trabalho a toda a gente, não se exclui nem se chateia ninguém e é fixe, pá. Mas agora expliquem- -me como se eu tivesse seis anos: como é que se explica uma coisa destas a uma criança de seis, oito, dez, 12, 14 anos?
Sei que a crença que está por detrás desta tese do final dos chumbos é que a retenção prejudica a maioria dos alunos. Faz-lhes mal chumbar, dizem. Mas estudos, estatísticas, trabalhinhos de casa que é bom e dá trabalho, não há. Há uma crença; não há uma lógica.
Ora nós, os pais, que estamos habituados a explicar tudo muito bem aos nossos meninos - se não comes, ficas doente; se não domes, ficas cansado; se não lês, ficas iletrado - não saberíamos como descalçar esta bota: se não estudas... nada. Não se passa nada. É indiferente.
Mas o pior é para os que estudam, que também passam. Porque o mérito, neste sistema, é não dar em cábula logo no pré- -escolar, já que o aproveitamento estará sempre, no mínimo, garantido

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publicado às 14:45


2 comentários

De Ines Bettencourt a 13.08.2010 às 19:00

é por essas e por outras que cada vez mais me convenço que a minha querida escola alemã é que é... que rebaldaria que vai neste país!

De Susana Brás a 23.08.2010 às 01:16

Sim existe uma lógica. Convido-a a conhecer os meus filhos. A minha filha teve 5 a tudo com excepção de 4 a Inglês. Poucas vezes a vi na secretária a estudar e despacha todos os trabalhos durante os intervalos da escola. Sempre foi assim. Mas tenho orgulho mesmo é no meu filho. Tem 9 anos e vai para o 5º ano. Nunca chumbou mas pelo seus padrões nunca devia ter saído da primeira classe. Sim porque dá erros a quase todas as palavras e ainda ontem me disse que 5 vezes dois eram 12. Sim trabalhamos quase todos os dias (a não ser durante as férias de praia e na semana do Natal) . Desde que me lembro. Ele, eu, o Pai e muitos técnicos educacionais, em dias alternados. Mudei de trabalho com metade do salário para ter mais tempo. Sim fartamo-nos de trabalhar. E no entanto os resultados não são os que desejamos. Diga-me agora então o que eu devo dizer ao meu filho tão trabalhador e bondoso e extraordinário. Que algumas pessoas (graças a deus cada vez menos) acham que as crianças com dificuldades de aprendizagem devem repetir até conseguirem. Conseguirem o impossível para elas. E depois se não conseguirem abandonem a escola . Assim como antigamente. Para descanso dos medianos. Isto nada tem a ver com promover a excelência. Tem a ver com falta de informação. Com o acreditar no pressuposto errado de que todo o trabalho dá lugar a sucesso escolar. E que se não conseguir repita mais do mesmo. Gosto muito daquilo que escreve. Peço-lhe que reflicta nesta questão por outro prisma. Para que consiga dizer aos seus filhos que somos todos diferentes. E que alguns precisam de mais ajuda. E não de castigo. Ou então explique-me quanto anos acha que o meu filho deve chumbar em cada ano lectivo para não ser confundido com os seus. E ser impedido de aprender coisas novas todos os anos. E progredir no estudo do meio ou em qualquer outra matéria em que tenha mais facilidade. Os técnicos, os médicos (veja a crónica do Prof. Daniel Sampaio da semana passado na Pública) e os estudiosos nas dificuldades de aprendizagem são da opinião de que a retenção nada ajuda quem precisa. Acha mesmo que anda tanta gente louca a apostar na preguiça ou existe outra razão lógica para isso?

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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