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Medo

por Inês Teotónio Pereira, em 09.09.10

(No i do fim de semana)

 

Se eu tivesse metade da imaginação dos meus filhos nunca dormiria de luz apagada. Iria sempre à casa de banho a meio da noite encostada à parede, com o coração aos saltos e a tremer de medo. Só fechava os olhos se eles, os olhos, me obrigassem. Jamais o faria por opção. Teria medo da claridade do dia e pânico da escuridão da noite. Ficaria aterrada com o silêncio e em sobressalto com o barulho. Estaria sempre em alerta. Sempre. Se acreditasse em metade das coisas em que os meus filhos acreditam e inventam, não teria coragem de sair à rua nem de perto da minha mãe. Nunca.
Eu não saberia viver se desconfiasse que podia estar um crocodilo debaixo da minha cama à espera que eu pusesse o pezinho no chão, ou se imaginasse que a sombra do roupão fosse um esqueleto assassino ansioso que eu me levantasse a meio da noite para... zás, me esmigalhar a cabeça. Dava em doida se acreditasse que monstros, fantasmas, feiticeiros, bruxas, mortos-vivos, vampiros e outras coisas sem cabeça são tão reais como a taxa de desemprego e que todos me queriam matar. E, claro, passava o dia agarrada à minha mãezinha se levasse a sério metade dos contos infantis.
Mas os meus meninos não. Eles vivem lado a lado com estes perigos e nem tremem com a escuridão. Nada. E quando acordam a meio da noite para irem à casa de banho, passam por crocodilos, fantasmas, caranguejos assassinos de dedos dos pés e cobras venenosas, sem um ruído. Eu acho que optava por fazer xixi na cama.
Porque será que esta coragem toda se vai com a idade?

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publicado às 10:54


1 comentário

De A mãe que capotou a 09.09.2010 às 13:11

Não vou refilar. Era mesmo para declarar que adoro alguns dos textos deste blogue. Não todos, mas alguns. Já deve ser alguma coisa, de tão raro que é por esta blogosfera fora.

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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