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coisas do outro blog

por Inês Teotónio Pereira, em 23.09.10

Quando a realidade dos factos não interfere nas eleições

Ou como destruir os propósitos democráticos de uma criança contando-lhe a história recente da nossa democracia.

 

O meu filho perguntou-me se era preciso ser popular para concorrer às eleições a delegado de turma. Para concorrer não, respondi eu, mas para ganhar sim.

Ele ficou de rastos. Não conhece quase ninguém na nova turma mas acha que tem o melhor programa, as melhores ideias e que é o rapaz certo para garantir a estabilidade necessária que a turma precisa para funcionar bem.

E agora, como explicar isto a vinte e tal crianças, aos seus pares? Ele fez cartazes, recortou uma espécie de flyers onde garante solidez na liderança e espera que os colegas se convençam a votar nele. Espera que no dia das eleições todos pensem: "Este rapaz deve ser o melhor líder, não gosta de futebol mas tem as ideias certas para o nosso grupo".

Ainda assim, está inseguro. E voltou a perguntar-me: "Mesmo que eu tenha as melhores ideias mas não seja o mais popular, posso perder?" Confirmei. Acrescentei que, normalmente, o que conta é a popularidade. E as ideias? Contei-lhe a história recente da democracia portuguesa e dei especial ênfase às últimas eleições legislativas. O meu intuito era aliviar a carga do rapaz mostrando-lhe que até no mundo dos mais velhos é assim.

Resultado: agora quer levar gomas para a escola - a versão infantil dos frigoríficos.

Ainda tentei emendar a mão e explicar que ser popular não é agradar a todos e que o mais importante é ter convicções, ser trabalhador, corajoso, sério, responsável e determinado. É convencer as pessoas, com a verdade, da eficácia das nossas ideias. Não comprá-las. Azar: isso era o que ele pensava antes de eu me ter metido no assunto. Antes de a realidade dos factos relatados pela própria mãe o desmentirem e de ele descobrir que, muitas vezes, quando a verdade vem recheada de más notícias é destronada pela popularidade do facilitismo. Só não tive ainda oportunidade de lhe explicar que quando é assim, a história acaba sempre mal. De lhe mostrar que, segundo a História, são opções destas, erradas e populistas, que dão cabo das democracias. Mas ainda vou a tempo. É só ele chegar das aulas...

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publicado às 15:42



A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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