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Crónicas de outras semanas no i

por Inês Teotónio Pereira, em 27.09.10

Ter jeito para crianças

 

É um dom. Ou se nasce com jeito para crianças ou se morre sem jeito para crianças. É assim como lidar com os animais, há quem saiba e há quem seja sempre mordido pelo cão do vizinho. É um fado.
Não ter jeito para crianças é uma espécie de maldição. Uma pessoa não sabe o que dizer quando conhece uma criancinha nova. Não sabe o que lhe perguntar, tem medo que ela ainda nem saiba falar, não desconfia se ela tem anos ou apenas meses e não quer nem saber. Uma criança, para esta esmagadora maioria silenciosa é um foco de tensão pior e mais enervante do que o Médio Oriente para o Conselho de Segurança da ONU. E como cada criancinha nova é mesmo nova, não tem paralelo, é dificílimo decorar regras: não as há. A única coisa constante é a imprevisibilidade.
Quem não tem jeito para crianças denuncia-se logo pela voz: mal vê uma criança muda o tom, como um adolescente descontrolado, colocando-a mais grossa ou em falsete e falando mais pausadamente ou mais alto, como se estivesse a conversar com a tia-avó de 90 anos. Encarna um personagem qualquer e atira com a primeira coisa que lhe vem à cabeça: "Então rapaz, as miúdas?" Mas, por mais vividos que tenham sido os três anos de vida do rapaz, ele fica mudo. É confrangedor, para quem assiste.
Quem sofre deste mal não tem cura. Mesmo quando tem filhos. Ainda que possa ter jeito para os seus, continua a não ter nenhum para os dos outros. Porque, uma coisa é a generalidade das crianças, outra, bem diferente, são os nossos filhos.

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publicado às 19:58



A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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