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A escola

por Inês Teotónio Pereira, em 04.10.10

No i da outra semana

 

Uma das grandes vantagens de ser adulto é não ter a obrigação de ir à escola. Há mais, há milhares delas, mas a maior, a melhor de todas, é a ausência nas nossas vidas do conceito de escola por obrigação. No nosso mundo só existe liberdade de aprender e ninguém aceita trabalhar para aquecer. Isso é para os nossos filhos. Se nos levantamos da caminha cedo, se andamos em transportes públicos e se aturamos coleguinhas e patrões insuportáveis, é por dinheiro, não por interesse. É porque nos pagam no final de cada mês. Ponto. Caso contrário nem um terramoto nos faria pôr o pezinho no chão às sete da manhã.
Mas as crianças não. Elas trabalham de graça, completamente de borla. Saem do quentinho das suas camas a troco de zero euros, nem um rendimentozinho mínimo recebem depois de um mês de sacrifício. E como se não bastasse ainda há quem grite com elas (eu, por exemplo), quem mande trabalhos para casa (as professoras) e quem as castigue por terem más prestações (assim de repente não me estou a lembrar de ninguém). Ninguém lhes dá prémios de produtividade; pelo contrário, damos-lhes livros cada vez mais complicados conforme o rendimento.
E as crianças não se revoltam. Não, elas vão todos os dias para o trabalho sem rancor, com gosto mesmo, a acreditar disciplinarmente que tudo isto é para seu bem num futuro longínquo, incerto e desconhecido. Por isso cumprem e vão à escola por obrigação.
Até que crescemos. Ufa! E quando chegamos a casa já não estudamos, mandamos estudar. Lá se fazem, cá se pagam.

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publicado às 10:09


1 comentário

De A. Monteiro Nunes a 13.10.2010 às 17:40

" tudo isto é para seu bem num futuro longínquo". Ora aqui está porque é que o actual estado da Educação e da Escola, que não perspectiva qualquer bem no futuro para os pobres "investidores compulsivos" desta geração, constitui a maior fraude dos tempos que correm e dos políticos que nos (des)governam. Obrigado por nos fazer reparar nisso de um modo tão sugestivo.

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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