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Sim, os meus filhos precisam de férias

por Inês Teotónio Pereira, em 13.12.10

(Crónica publicada no i no último fim-de-semana)

 

Há horas dramáticas na vida dos pais: as primeiras da manhã, as horas de estudo, as horas do banho e as horas do jantar. Aqueles que sobrevivem a estas horas sem perder a calma pelo menos seis vezes devem ir ao médico. Já.
Especula-se que a quebra da taxa de natalidade se deve às dificuldades financeiras, à ambição profissional, ao tamanho das casas, ao preço das escolas e ao facto de Sócrates não ter dado os 200 euros por cada nascituro conforme tinha prometido três dias antes das eleições. Não concordo. A minha teoria é que as pessoas não querem ter filhos porque estão traumatizadas. Estão traumatizados com as birras das sete da manhã por causa da cor da camisola, com os gritos porque a sopa está quente, com as cenas porque os meninos não querem tomar banho ou não querem sair da banheira e com as dolorosas horas de estudo que são experiências idênticas às que provocam stresse pós-guerra. A paciência, a calma, a lucidez o sangue frio que são exigidos nestas horas, nenhum ser humano (excepção feita à minha mãe) possui. E é por causa destas horas que as pessoas preferem interromper o processo de multiplicação da espécie e ir de férias para a Jamaica. Claro.
E quando eles se lembram de ir à casa de banho quando estamos quase, quase a sair de casa e vários minutos atrasados? É de loucos. Há dias que eu não os deixo na escola: atiro-os para dentro da escola e fujo. São os dias em que os meus filhos são meras tarefas que tenho de cumprir; não são bem filhos.

 

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publicado às 12:32


11 comentários

De claudia a 13.12.2010 às 14:46

Como eu comprendo!!!

De Ana Martins a 14.12.2010 às 10:37

Como me revejo nesse post!
De acrescentar que o meu filho, que tem 10 anos, demora mais tempo ao espelho, de manhã, do que eu e a irmã juntas.
Sem palavras, as vezes também ia para a Jamaica.

De Lura do Grilo a 13.12.2010 às 21:36

Sim .. é tudo verdade. Mas durante o dia estes arrufos esquecem e as saudades crescem a "ponto de rebuçado".

De Dani a 14.12.2010 às 00:56

São aqueles dias em que me apetece atirar os meus pela janela; subscrevo! Mas tem esperança, a coisa melhora com a idade... :)

De Susana Ramalho a 14.12.2010 às 10:38

Eu também a compreendo mas depois, há os beijos e os abraços e aqueles momentos em que o nosso orgulho supera todas as birras: "a minha bailarina, M-7 anos", "oh mãe, eu quero aprender a tocar piano, mas primeiro tenho que aprender as figuras rítmicas, F-5 anos" e "(ao ver-nos abraçados) eu também quero namorar com voçês, A-3 anos"
São eles que nos provocam os sorriso mais ternos e as lágrimas contidas!
Susana

De AGaja a 14.12.2010 às 14:45

"São os dias em que os meus filhos são meras tarefas que tenho de cumprir; não são bem filhos."
simplesmente Adorei

AGaja

De José a 14.12.2010 às 15:07

Vim cá parar através de um mail que recebi. Não concordo. Os pais andam cansados pela pressão profissional que são alvo, pelo desiquilibrio entre vidas pessoal e profissional, pela falta de produtividade que obriga a entrar cedo e sair tarde, pela falta de equilibrio entre o próprio casal. A culpa será sempre dos outros?
Eu tenho uma filha de 2 anos e penso nisso todos os dias. E sinto-me mal quando a seguir ao jantar fecho os olhos no sofá e ela continua a brincar, por sair de casa de manhã antes de ela acordar, por não conseguir aguentar essas birras. Muitas dessas atitudes são demonstrações da falta de atenção que eles sentem. Eu penso assim.

De Ana Mourato a 15.12.2010 às 10:55

Adorei! Partilho deste desabafo de mãe sem qualquer sentimentos de culpa, porque mesmo com horas dramáticas e caóticas, a minha filha preenche a minha vida e somos inseparáveis.

De MÃE (in)FELIZ a 15.12.2010 às 14:55

Revejo-me completamente nesse quadro! Hoje em dia tudo nos é imposto com tal exigência que eu digo que precisava de ser duas para poder corresponder a todas as expectativas. Traumatizante, sem qualquer dúvida. Mas muito compensador quando recebemos aquele beijo, quando sentimos aquele abraço e sobretudo quando ouvimos: "Mãe, gosto tanto de ti! És o amor do meu coração!"
É isto que nos dá alento e força para seguir em frente.

De Gonçalo Nascimento Rodrigues a 15.12.2010 às 17:46

Tudo, mas tudo o que tenho e vivo com os meus filhos vale 1 zilião de vezes mais que todas essas obrigações, traumas e irritações.

No caso dos filhos, é mesmo verdade: o amor suplanta tudo. E não há amor como o de pai/filho.

De Sonia Luz a 18.12.2010 às 18:34

e é tão verdade... meu deus... !!! Há dias assim....

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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