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o perigo da febre

por Inês Teotónio Pereira, em 15.02.11

AS CRIANÇAS são todas hipocondríacas: deliram com remédios e quase todas se pelam por ficar doentes. Uma virozesinha, uma tosse de cão, uma dorzinha de barriga ou de cabeça, um enjoo, enfim, qualquer coisa que justifique bloquear uma ida à escola e crie uma enorme confusão na rotina familiar é boa. Ficar doente em criança é um luxo, um privilégio em que se ganha direito a tratamento VIP. Cair na cama é o mesmo que passar um ou mais dias num hotel de cinco estrelas, onde se come o que se quer e quando se quer, vê-se televisão na cama, recebem-se presentes, atenção e mimo, muito mimo. Hoje até os remédios sabem bem.
No entanto, no que diz respeito a esta temática da doença, quando nós éramos crianças tínhamos muito mais sorte. E porquê? Porque dantes não havia termómetros digitais: os termómetros digitais vieram acabar com qualquer possibilidade de inflacionar a febre e de prolongar as férias de cama. Agora já ninguém aquece o termómetro no cobertor, não dá tempo. Os termómetros demoram segundos a revelar a verdade sobre a febre e não os cinco longos minutos que antigamente o mercúrio demorava a subir. 
Hoje em dia as crianças não têm hipóteses: uma criança que se atreva a aldrabar a febre para faltar às aulas arrisca-se a ser arrastada pelos pais a meio da noite para as urgências de um hospital qualquer, correndo sérios riscos de ficar mesmo doente. Dantes não havia este perigo; ficávamos na cama durante três dias a chá, torradas e beijinhos. Bons tempos, em que a febre não era urgente, era apenas febre.

 

(crónica do i de há imensas semanas)

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publicado às 21:30


1 comentário

De Celisol a 16.02.2011 às 10:43

Inês, se houver por aqui algum pediatra, daqueles simpáticos, a ler isto vai ficar extremamente irritado e a berrar: NÃO É FEBRE! É TEMPERATURA!

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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