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Sustos de morte

por Inês Teotónio Pereira, em 15.02.11

As crianças preocupam-se imenso com a morte. Quando percebem que mais cedo ou mais tarde vão morrer, recusam-se a acreditar e entram em negação. "Morrer, eu? Mas ainda agora nasci..." Esta angústia vem acompanhada de milhares de disparates. Alguns são sobre questões prosaicas, relacionadas com o dia-a-dia - são as mais estranhas: "Quem é que vai ser o primeiro a morrer cá em casa? Se eu for o último a morrer, quem vai ficar a tomar conta de mim?" Ou esta: "Quando os pais e a avó morrerem quem é que me vai buscar à escola?" Outras perguntas são mais dirigidas às causas: "Se eu não respirar e não dormir morro?"
Mas a maioria dos dilemas tem a ver com o day after: "Ok, morro, e depois vou para onde? Posso voltar?" Ficam genuinamente sossegadas, confortadas, quando ouvem falar de Céu. A ideia agrada-lhes, tendo em conta que a alternativa é virarem esqueletos. E o Céu? Bom, quando as crianças percebem que existe a possibilidade de Céu, é o fim: Como é que não caímos do Céu? Quem é que lá está? Existem escolas no Céu? Há baloiços? Se o céu é assim tão bom, porque é que se chora quando alguém morre? Posso não morrer?, pedem-me eles. A mim... 
O mais desagradável das perguntas sobre a morte é que não há boas notícias. Por mais cristão, budista ou muçulmano que se seja, ninguém consegue falar com entusiasmo da maravilha que vai ser quando morrermos, que ansiosos estamos por lá chegar. Que queremos imenso ir para o Céu, ou reencarnar numa árvore. E quando não há convicção, as crianças desconfiam.

 

(e pronto, esta é a ultima, é a da semana passada.)

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publicado às 21:38



A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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