Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



A primeira vez que me colaram a uma geração foi na altura em que a PGA era motivo mais do que suficiente para os bloquistas do principio dos anos 90 mostrarem o rabo aos ministros da educação. Foi à conta deles, dos bloquistas, que um cavaquista chamou à minha geração, geração rasca (salvo  erro o criativo foi o analista Pacheco Pereira, que era na altura uma espécie de Santos Silva de Cavaco, mas sem pasta). 

Ainda hoje tenho a certeza absoluta de que o insulto não era para mim nem dirigido a ninguém que eu conheça; quase que posso jurar que Pacheco Pereira se referia justamente aos bloqusitas da época, que em vez de irem às aulas e depois para casa estudar para a PGA, passavam as tardes entre o café em frente ao liceu e a escadaria da Assembleia da República a mostrarem os rabos às câmara de televisão só para chatearem o Marques Mendes, que na altura mandava na televisão, e o Dias Loureiro, que mandava na polícia, e o Ministro da Educação, que já não me lembro quem era porque estava sempre a mudar.

Tenho ideia que as manifestações dos rabos também contestavam o pagamento das propinas, porque dantes só se pagava para estudar na Católica e na Lusíada, que eram as universidades dos meninos ricos e maus alunos, ou só uma coisa ou só outra, porque não tinham entrado no estado que era sempre a primeira escolha.

A geração rasca ainda fez a PGA, que era canja, andou na universidade, não pagou propinas, fez os cursos do Torres Couto e da Teresa Costa Macedo onde se ganhava trinta contos ou mais vindos da CEE (a CEE dava dinheiro ao Torres Couto e à Teresa Costa Macedo para fazerem cursos de fotografia em vez de ajudar as pescas, a agricultura, as pequenas e médias empresas e o sector produtivo) e começou a ir à neve. 

A geração rasca cresceu saudável, porque quando as pessoas da geração rasca eram crianças não havia cereais de chocolate e ao pequeno-almoço comia-se pão com marmelada e leite que se fervia num fervedor (também não existiam gomas e os dentistas não distribuíam aparelhos para os dentes por tudo e por nada).

A geração rasca tirou cursos de economia, de gestão e de direito, foi trabalhar para os escritórios de advogados e para as empresas, fez contratos de trabalho, passou recibos verdes, fez biscates para ganhar dinheiro para poder sair à noite, mudou de empregos, comprou casas com os créditos à habitação da Nova Rede onde só trabalhavam homens (e não alugou casas por dois contos ou por quinhentos escudos como os pais que ainda tinham a lata de se irem queixar os senhorios porque a torneira estava pingar). Gastou dinheiro que se fartou, pagou impostos por todas as gerações passadas até aos anos 30 ou 40 e trabalhou e estudou que que nem um camelo. Ainda hoje é assim.

Quanto à música, bom, só o Abrunhosa é que adaptou um original para contestar e para vender mais discos, mais nada. Nem uma notinha.

A geração rasca, a minha, foi a melhor geração desde o final da II Guerra, no  mínimo: sobrevivemos aos direitos adquiridos da geração de cima e agora temos de aturar a lamurias da geração de baixo que reclama direitos adquiridos.   

Já a geração dos meus filhos, proponho, por exemplo, a Pacheco Pereira, que se comece desde já a chamar de geração que se raspa, porque se os nossos filhos não optarem por se rasparem daqui para fora, arriscam-se a ficar na terrinha a trabalhar numa coisa qualquer, que não tem nada a ver com o curso que tiraram ou com outro qualquer que exista, para pagar dívidas e para sustentar a geração à rasca que daqui a cinquenta anos ainda vai estar a mandar curriculos para a PT, a EDP, a RTP, a CP, a Galp, a CGD, a REN (entretanto, já falidas) e a ouvir os deolinda.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:47


7 comentários

De Pedro Lima a 10.03.2011 às 16:47

Só uma correcção. Não foi Pacheco Pereira a proferir tão famosa frase, mas sim Vicente Jorge Silva, Director do Público à data.

De Francisco a 10.03.2011 às 17:28

Sem com isto diminuir a validade (e a qualidade) do texto, creio que o autor da expressão 'geração rasca' foi o então director do 'Público', Vicente Jorge Silva

De Tiago Melo Cartaxo a 10.03.2011 às 17:52

peço desculpa...
não foi Pacheco Pereira, mas sim um senhor chamado Vicente Jorge Silva, que nunca percebi em que é que é bom... Não é bom jornalista, não é bom realizador, não é bom político... e rascas somos nós???

De Anónimo a 10.03.2011 às 17:58

Quem chamou geração rasca e já o assumiu depois disso várias vezes, foi Vicente Jorge Silva, que no público fazia caminho para nas eleições imediatamente seguintes ser deputado do guterres.

Comentar post



A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
ver perfil

Livros da mãe






Seguir no Facebook


Pesquisar

  Pesquisar no Blog