Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Nós e eles

por Inês Teotónio Pereira, em 21.03.11

Crónica do i de 12 de Março

 

Pelo menos dez vezes por dia os pais comparam a vida que os seus filhos têm com a vida que eles tinham quando eram da idade dos filhos. E comparam tudo: os livros que liam, as manias que tinham, os medos, as brincadeiras, os programas de televisão que viam, a maneira como falam com os mais velhos, as coisas que comiam, o tipo de amigos com quem brincavam, as obrigações domésticas, o desempenho na escola, etc. E com esta enjoativa e nostálgica comparação criam um padrão (os pais adoram ter padrões para se sentirem importantes), o padrão da sua infância. E os filhos que os aturem: "Quando eu tinha a tua idade não me sentava no sofá!", "Quando eu tinha a tua idade, fazia a cama todos os dias"; "Quando eu tinha a tua idade ia para a escola a pé, não era a mãezinha que me levava lá", "Quando eu tinha a tua idade descascava a fruta sozinho"; "Quando eu tinha a tua idade não via telenovelas". Enfim, podíamos ficar aqui o sábado inteiro a debitar exemplos, mas já se deve ter percebido a ideia: os pais passam os dias a insultar os filhos. Não é de propósito, é mesmo assim. Acusam os filhos de serem incompetentes, de não serem parecidos com eles - esses arautos da raça humana - e vão-se embora amuados como se não tivessem culpa nenhuma pelo triste fado de o filho não saber cortar um bife, uma desgraça de filho, é que é. De vez em quando, os pais têm ataques de genica e tentam moldar os filhos. Não é bem educar, é mesmo moldar. Percebem então que as crianças até sabem pôr a mesa, só que nunca lhes pedem. É o que dá crescer em prosperidade: não se contam armas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:14



A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
ver perfil

Livros da mãe






Seguir no Facebook


Pesquisar

  Pesquisar no Blog