Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Os génios

por Inês Teotónio Pereira, em 28.07.11

(No i de sexta-feira)

 

Existem dois factores determinantes que fazem com que as crianças sejam uns seres fantásticos em questões de fantasia: a falta de vergonha e a falta de sabedoria. As crianças acreditam em qualquer coisa, tenha ela cinco olhos, seja verde e fale, ou seja uma simples e enfadonha fada que dedica a sua vida a voar de casa em casa a comprar dentes de leite que estão escondidos nos locais mais estranhos. As crianças como não sabem quase nada inventam quase tudo, e fazem-no com todo o descaramento porque não têm vergonha nenhuma em dar asas à sua imaginação, em pôr a imaginação a trabalhar. Aquilo que não tem resposta, tem mesmo de ter, mesmo que a resposta seja absolutamente absurda. Para as crianças não existem limites para o disparate: é deixá-las falar e nem o céu é o limite.

O pior é que qualquer criança acaba por crescer e com ela cresce a vergonha de errar e de inventar. E pronto, é o princípio do fim da fantasia. O processo e o progresso nesta área vai ficando cada vez mais estreito com o assimilar de novos conhecimento, quando a razão começa a dominar, quando a verdade dos factos teimam em interferir numa boa história, numa boa fantasia é, finalmente, o fim. Há quem aguente todas estas adversidades e consiga sobreviver com estoicismo ao mundo da fantasia – são os artistas, os autores de histórias infantis e mais duas ou três pessoas – mas a maioria dos mortais cede. Cede à pressão dos pais que querem que os meninos “ponham os pés no chão” e que “cresçam”, que se concentrem em factos reais e que não se deixem abstrair da realidade, que se deixam, enfim, de disparates infantis. E os meninos crescem. Chatos, enfadonhos e cheios de competências objectivas. Com vergonha de se enganarem e, por isso, sem coragem de inventar. Os que conseguem conciliar os dois mundos, o da criatividade e da fantasia infantil e o da sabedoria, são os génios. Aqueles que percebem que nada é assim tão sério que não possa ser improvisado, fantasiado, questionado, inventado, são os que fazem a diferença. E, na maioria dos casos, riem-se muito mais vezes que os comuns mortais.   

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:28



A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
ver perfil

Livros da mãe






Seguir no Facebook


Pesquisar

  Pesquisar no Blog