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As crianças e a religião em 1900 caracteres

por Inês Teotónio Pereira, em 23.09.11

No i da semna passada

 

As crianças nascem crentes e crescem religiosas. Elas acreditam em tudo: em fantasmas, no pai Natal, no lobo mau ou na fada azul. Não peneiram, nem editam as crenças: acumulam crenças. São multi-crentes. Não têm qualquer preconceito, e quanto mais exotérico, estranho e improvável, melhor. Mais credível é. Mais sobrenatural e, por isso, mais fascinante. E se houver ritos, então, é uma maravilha: podem brincar.

As crianças ainda não dividiram o mundo entre aquilo que é normal e aquilo que não é. Para elas é tudo normal e possível: estar em todo lado, ler as mentes, ser invisível, voar, ter asas. Não há limite. A lógica racional é qualquer de castradora para os seus cérebros em acelerada evolução. Por isso, qualquer criança tem fé. Tem fé em Deus ou no Pai Natal, mas tem fé. (Deve ser por isso que Nossa Senhora apareceu a três crianças, se tivesse aparecido a três adultos eles teriam fugido esbaforidos de braços no ar rumo à esquadra mais próxima e teriam sido entrevistados pelo jornal Incrível da época).

As crianças não duvidam, apenas questionam. Elas fazem perguntas para esclarecerem a sua fé, não é por duvidarem dela. Querem pormenores: como é que não caímos do Céu, como é que Jesus cabe em tantos corações, como é que o Pai Natal entra nas casas que não têm lareira, por que é que a fada dos dentes faz colecção de dentes? Só quando deixam de ser crianças é que entram no campo da incredibilidade e já não querem saber.

Mas durante a infância são as ovelhas mais fiéis que qualquer religião possa ter. É que além desta aceitação inata pelo sobrenatural, ajuda o facto de as crianças serem absolutamente maniqueístas. Nas suas cabecinhas existe o bem e o mal e os maus estão de um lado e os bons estão no outro; eles não se misturam, como no mundo dos adultos. Por isso aliam a sua religiosidade à justiça. É tudo mais fácil, portanto.

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publicado às 14:28


1 comentário

De Sara a 26.09.2011 às 10:08

Fantástico... Em poucas linhas disse tudo. Bravo!
O problema é quando elas nos põem na linha de fogo e nos fazem questões para as quais não temos resposta... Ai sim, temos que ir buscar ao fundo da nossa essência todas as nossas lembranças e crenças e ritos e tudo e tudo...

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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