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Sem rede

por Inês Teotónio Pereira, em 13.12.11

No i de sexta -feira

 

Os filhos não são brinquedos, não se escolhem, não se trocam, não se aperfeiçoam, nem se devolvem. Muito menos funcionam com pilhas e nunca, nunca trazem livros de instruções. E é isto que torna esta tarefa de pai e mãe tão ingrata, difícil e imprevisível. Os filhos lá por serem nossos, não nos pertencem; somos nós que os alimentamos, educamos e sustentamos, mas por junto é só para isso que servimos. De resto eles são eles e desenvolvem-se, crescem, pensam e sentem apesar de nós. E quando já não são educáveis, sustentáveis e alimentáveis, deixam de ser nossos. Os filhos, ao contrário da dívida da casa, não duram uma vida. Duram apenas uns aninhos e não há qualquer garantia de que fiquem nossos.
E, então, o que é que resta ao fim desses anos de sustento e dedicação? Resta uma ligação. No fim é esta ligação que conta: depois de milhões de litros de leite consumidos de dias e dias de explicações, de milhares de ordens e de noites sem dormir é só isso que resta. Uma simples ligação. 
Ora, como eles são todos diferentes, e alguns muito difíceis de conhecer, esta ligação tem vários níveis de consistência. Um pai ou uma mãe pode passar uma vida toda sem conhecer o seu filho, sem imaginar o que ele está a pensar ou prever o seu comportamento. E nestes casos é preciso um esforço racional para criar uma relação. Não é para gostar, é para interagir. Os filhos gostam sempre dos pais e os pais quase sempre dos filhos, mas nem todos se dão entre eles. Tal como o telemovel ou a internet, é preciso manter compromissos ao final do mês e ver se há rede. Ou ficamos sem ligação.

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publicado às 18:15


6 comentários

De Becas a 14.12.2011 às 11:26

Uiiiiiiiiiiii! não está fácil!
Sim, mas uma ligação única. E o peso enorme de saber que "a mãe" é sempre a pessoa que marcas mais profundas deixa noutra.
Hoje já é outro dia, e o sol brilha um pouco.

De andreia lopes a 14.12.2011 às 12:35

Não, não é nada fácil. A essa ligação eu chamo "cordão umbilical" e espero que, tal como eu, os meus filhos nunca o cortem. Mesmo que me deixem os cabelos em pé e sempre, sempre a gritar sozinha .

De claudia a 15.12.2011 às 10:54

Novamente, mais um daqueles posts que aplaudo de pé! Obrigada.

De paulo a 15.12.2011 às 14:55

Definição de filho, segundo Saramago.....“Filho é um ser que nos foi emprestado para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo ! Ser pai ou mãe é o maior acto de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo o tipo de dor, principalmente o da incerteza de estar a agir correctamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo”.

De Sara Belo a 15.12.2011 às 20:31

....e perder a ligação, é morrer!

De avidaem30m2 a 02.01.2012 às 17:03

Na perspetiva de filha apenas, concordo com cada frase. É mesmo mesmo assim!

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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