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Roubámos o Natal às criancinhas

por Inês Teotónio Pereira, em 23.12.11

No i de hoje

 

Os portugueses são um povo de extremos: ou vivem em euforia numa espécie de alienação colectiva, ou vivem em depressão em estado de neurose colectiva. Meio termo, vulgo racionalidade, não existe na nossa carga genética. Se é para sofrer, sofremos mesmo, em pensamento, actos e emoções. Cantamos fado, buzinamos sempre que houver oportunidade, gritamos com as criancinhas e carpimos. Carpimos, carpimos, carpimos até à exaustão.

E o Natal é uma excelente época para isto. Se já é mau o corte no subsídio, se já é péssimo não haver dinheiro para os presentes, se já é horroroso saber que para o ano ainda vai ser pior, então vamos tornar a coisa ainda mais negra. E como? É fácil: vamos roubar o Natal às crianças. Vamos contagiar as crianças com a nossa angústia, tristeza e o vazio do nosso cartão de crédito e fazê-las ver, sentir e sofrer com a nossa ansiedade natalícia.

Meus senhores: os nossos filhos estão deprimidos. Eles estão assustados com os presentes, porque acham que se tiverem presentes os pais vão morrer à fome e eles vão viver num orfanato. Os nosso meninos, tal como os pais, já não sabem distinguir o conceito de Natal com o de crise. Aliás, Natal é quando a crise é mais severa. Por isso, eles já não sonham com o Natal; eles têm pesadelos com o Natal.  

Os meus filhos, por exemplo, querem um chocolate. Mais nada. Têm medo que lhes falte o leite se receberem um presente.

Portugueses e portuguesas, todos e todas, eles e elas: temos dois dias para emendar a mão, os nossos filhos querem o Natal de volta com ou sem presentes. Eles querem que nós nos ríamos, em vez de passarmos o Natal a carpir em frente aos presentes que gostávamos de lhes dar mas não podemos. Eles querem o espírito de Natal de volta, e não o espinho.

 

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publicado às 13:18


2 comentários

De Pedro Pestana Bastos a 23.12.2011 às 15:35

Que bem apanhado Inês. Acho que tens muita razão.
PPB

De na primeira pessoa do singular a 02.01.2012 às 15:05

é muito preocupante, para mim e para o meu marido, ver como as nossas filhas, de 6 e 8 anos andam obcecadas com medo de não termos dinheiro para comer, ou vestir. A mais velha anda aterrorizada. No supermercado escrutina as nossas compras, pergunta porque compramos, á quantidade eo o preço. O bisavô tem estado no hospital, e a preocupação dela foi logo saber se era público ou privado, e quanto ia custar, e não se o velhote estava a melhorar.
Por outro lado, têm percebi muito bem e têm sido compreensivas com os cortes que a nossa família de ex classe média teve de fazer em 2011 e vai ter de agravar em 2012.
Agora, tira-lhes o Natal, nunca.Até porque nem todo o Natal é comprado. É a expectativa, são as festas na escola, são os trabalhos da catequese, é a família. São as prendas feitas por nós. É serviço. São as pessoas.
Por isso, o natal, menos farto, é verdade, foi igual para elas. Com metade da família a 24, a outra metade a 25, e muita alegria e amor

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Autora

Inês Teotónio Pereira
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