Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



A propósito das filhas góticas de Zapatero

por Inês Teotónio Pereira, em 30.09.09

no i:

 

Quando me pediram para imaginar a minha vida com um filho gótico fui imediatamente ao Google saber o que é um gótico. Resultado: hoje vou dormir de luz acesa. Depois de muitas caveiras, de navegar em páginas pretas e de ter privado com vírus aterrorizados que tentavam fugir para o meu computador, cheguei a uma conclusão: os meus filhos dificilmente irão abraçar a causa gótica, porque - e custa-me dizer isto - são uns medricas.

Um gótico enfrenta pesadelos - aliás, ele próprio é um pesadelo -, gosta de dormir de porta fechada, aprecia barulhos estranhos debaixo da cama e abraça esqueletos como se de ursinhos de peluche se tratasse. Pois, os meus filhos têm medo de ficar sozinhos em casa, quanto mais de participar num ForumGotik
. (...)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:45


12 comentários

De Leonardo B. a 30.09.2009 às 13:12


Um muito grato abraço, pelas oportunas reflexões, que quer se encontrem ou não em sintonia, são uma das mais válidas razões do ser humano: reflectir e ordenar esses abstractos códigos... um bem haja e

Deste lado do quintal, um abraço

Leonardo B.

De José Correia a 30.09.2009 às 14:09

Mesmo sendo mais dado à palavra falada do que escrita, confesso que um artigo que tão maravilhosamente descreve os "góticos" me está a dificultar a escrita do comentário. Os clichés, os fogos-de-vista, e o designar o "gótico" como se fosse uma doença psiquiátrica auto-imposta são autênticas pérolas literárias. A explicação logo na primeira frase de qual a metodologia utilizada para pesquisar profundamente essa cultura urbana enche-me, como pedagogo, de orgulho.

E para o próximo artigo, sugiro que explique ao mundo o que é uma freira, mas que seja um post ilustrado: utilizando a mesma metodologia idónea de investigação, desligue o Safe Search e escreva "freira". Não tenho dúvidas que os seus leitores vão ficar extremamente elucidados sobre como uma freira se deve vestir e comportar...

De José António Abreu a 01.10.2009 às 08:40

Posso sugerir-lhe, caro pedagogo José, que faça o mesmo com a palavra "humor"?

De Gabriela Correia a 06.10.2009 às 22:41

Como amiga (e mais uns trocos) do pedagogo José, posso dizer-lhe que ele não tem falta de sentido de humor.
Sabe porque é que a galinha atravessou a estrada? Provavelmente tal como todos nós sabe demasiado bem. E já não acha piada. Agora imagine se fosse uma galinha... Já chegava, não?
E já agora, sabe como é que se atira um gótico abaixo de uma árvore?

De Joaquim B. a 30.09.2009 às 19:20

Mais uma vez, fico abismado com a natureza das pessoas deste mundo, mais precisamente, deste país! Pois se há algo que continua a fascinar-me de forma negativa, é a rapidez com que uma pessoa julga outrem (e pior, julga mal) sem primeiro estudar essa pessoa a fundo. Neste caso, estudar uma toda cultura, não só nacional, como mundial.

Para nos situarmos bem, o movimento gótico nasceu na época vitoriana, talvez na altura não tivesse esse nome, mas as bases para tal nasceram nessa época. Disso nasceu (e cresceu) uma cultura, um grupo de pessoas que, ao contrário de mais de metade do mundo, sentem um fascínio enorme pelo lado negro da vida, chegando ao ponto de romantiza-lo. O fascínio pela forma como o ser humano é capaz de magoar alguém, pelos sentimentos de abandono e tristeza(e muitos outros), levaram a que as pessoas de fora rapidamente afirmassem que os góticos tinham obrigatoriamente que ser "tristes".

Ora, dizer que ser-se gótico é estar obrigatoriamente triste, cabe no mesmo saco que um homem que gosta de ver futebol é obrigatoriamente gay (afinal, são 22 gajos em campo a suar, de calções, e depois de vez em quando lá se mostram os peitorais...). Há quem ache a morte algo mau e terrível, há quem entenda que a morte é apenas o fim de um ciclo natural, e há quem veja na morte a salvação(sejamos sinceros, com guerra, corrupção e uma infinidade de injustiças a ocorrer ao dia, é difícil dizer que o mundo está bem...).

Um gótico, para além de romantizar o lado negro da vida, é também uma pessoa reservada, que respeita o espaço pessoal dos outros e gosta de ter o seu respeitado. O gótico não fecha a porta do quarto por ser anti-social. O gótico respeita as outras pessoas, não invade o espaço pessoal de ninguém, a menos que lhe dêem permissão para tal. Daí que imagine que todo e qualquer gótico que veja a sua notícia só tenha uma coisa a fazer: rir. Sim, por incrível que pareça (ou não), os góticos riem-se. Os góticos têm amigos. Os góticos são pessoas como todas as outras! Porque ser-se gótico é seguir um estilo e uma filosofia de vida. Ser-se gótico é amar o lado negro do universo. É mais que um grito de rebeldia adolescente-oprimido-pelos-pais: é uma forma de pensar, estar, viver.

Ser gótico é ser infeliz? Infeliz é aquele que fala sem saber.

De Gabriela Correia a 30.09.2009 às 20:35

Parte 1.

Cara senhora,
Confesso que quando hoje o meu caro amigo Leonardo B. me pediu autorização para usar uma fotografia minha num post que pôs no seu blog, eu fiquei cheia de curiosidade para saber porque uma fotografiazita amadora das minhas merecia ter tal uso. Neste momento acho que é porque eu posso ser considerada gótica e o nome com que assino as minhas fotos soa a algo muito “dark”, embora eu (que o escolhi) diga que tem mais a ver com Darwin do que com Bram Stoker.
No entanto tb lhe posso dizer que sou licenciada, tenho uns quantos cursos de formação profissionall, faço Ioga e Reiki, e tenho uma gata – atenção – que não é preta!
O problema de pôr o mesmo rótulo a toda a gente que se veste de preto é que há mais espécies de góticos do que de formigas e acredite, há muitas espécies de formigas. Veja lá que até há formigas-feiticeiras (devem ser góticas). Poucos “góticos” gostam desse epíteto exactamente por causa das generalizações, daí a expressão que usamos cá pelo Porto “Góticos são os arcos da Sé”. Eu,por exemplo, já fui chamada de “corporate goth”, que são aqueles que conseguem disfarçar qualquer coisinha “gótica” no meio da roupa de trabalho, no entanto, poucas das pessoas com quem trabalhei me identificariam como tal, até porque duvido que me contratassem para certos cargos que já ocupei, se fosse vestida com roupa normalmente associada com “góticos”.
Outro fenómeno curioso é que em Lisboa e arredores os “góticos” são associados a ideais políticos de Direita, enquanto no Porto são maioritariamente de Esquerda, o que também dá uma confusão terrível quando nos tentam “etiquetar” em termos políticos.
Embora haja uma fundo estético comum aos ditos góticos, são tão iguais uns aos outros como qualquer outro grupo sujeito a estereótipos. Que o diga a minha amiga Lylia, muçulmana convicta e muito amiga das suas mini-saias e de partilhar com o mundo o seu lindo cabelo pintado de louro. Se há algumas pessoas que se vestem de preto que resolvem ser infelizes, o problema é delas, mas posso dizer-lhe que pela minha observação isso acontece em gente muito nova, que está a mudar o seu estatuto na sociedade e a ser empurrada para decisões que vão decidir o seu futuro e não sabem como lidar com essa pressão. No meu tempo chamava-se adolescência e dava a toda a gente independentemente da preferência cromática.
Analisando o seu artigo mais em pormenor, devo dizer que não duvido que nas suas pesquisas tenha encontrado páginas pretas, agora mais vírus que em outros sítios, acho muito estranho, se calhar é o anti-vírus que não é grande coisa. O meu computador já tem uns aninhos, já viu muitas páginas pretas e ainda está funcional.
Enfrentar pesadelos não me parece assim muito mau, acho que é bom enfrentarmos os nossos medos, embora tenha um que me recuso a enfrentar, a não ser munida de um grande aspirador ou da minha mãe com o seu fantástico chinelo: aranhas! (Mas esperem, as aranhas não são uma das coqueluches dos góticos? Como posso eu ter medo de aranhas se sou gótica? Oh porque é que a vida tem que ser tão enigmática? A escuridão abate-se sobre a minha alma...)
Gosto e dormir de porta fechada, sim. Porque o meu quarto fica em frente à porta do corredor que é de vidro e onde passa toda a gente e se eu não fechar a porta não durmo com a luz e com o barulho. Mas porquê? Os “não-góticos” dormem de porta aberta? Nunca tinha ouvido essa. Barulhos estranhos debaixo da cama normalmente são culpa da gata (aquela que não é preta) e não gosto particularmente, principalmente se me acordarem.
Não tenho esqueletos no quarto. Nem dentro do armário. Quanto a peluches, encontro um cão, dois coelhos, dois morcegos (são da Nici, dêem-me um desconto) e um diabo, mas aí temos outro problema. O diabo em questão segura um coração que diz “I love you”, logo estou outra vez baralhada. É gótico ou não é gótico? Satânico, talvez.

De Dari a 02.10.2009 às 16:32

Adorei o teu comentário! Está muitíssimo bem escrito, construído e até contém um delicioso e fluido tom de humor.
(Adoraria ler-te mais ;_; ...)

Esqueceste-te de mencionar que o pessoal gótico costuma ser um pouquinho mais interessado nas artes (literatura, pintura e música, especialmente) e sente um certo fascínio pela Natureza e por locais antigos e imersos em ecos de memórias (uhh, História...). ^u^

E que detestamos preconceitos. E jornalismo de imprensa cor-de-rosa -.-'

*

De Gabriela Correia a 06.10.2009 às 22:28

O comentário já estava um pouquinho grande... ;)
Obrigada pelos elogios.

De maria do mar a 07.10.2009 às 13:33

sô dona gabriela e sô dona dari, não trabalham? e se trabalham? não estão a pensar começar a levar-se um bocadinho menos a sério? Têm- se em muito boa conta. Góticas, freaks, hippies, rastafaris, não suportam que alguém não vos leve assim tão a sério e simplesmente brinque e diga o que lhe apetecer? Preconceito? Quem os tiver que os saiba expor devidamente e com graça. Umas tareias de cócegas faziam-vos bem.
maria do mar

De Gabriela Correia a 30.09.2009 às 20:38

Parte 2


O meu primeiro pensamento quando li o seu artigo foi pedir à minha mãe que lhe escrevesse uma resposta, mas depois de a encontrar a fazer uma fantástica torta de chocolate desisti da ideia. Convenhamos, há prioridades. No entanto pedi que me confirmasse uma ideia que eu cá tinha: a minha mãe não tem medo dos meus amigos, aliás até gosta bastante deles. E não precisa de nos seguir para nenhum lado porque é convidada várias vezes para sair connosco, ela é que não é muito dada a saídas. Nem me parece particularmente assustada quando me entrou pelo quarto dentro há cinco minutos e disse “Ouve lá, mas tu ficaste ou não de levar a reciclagem?”. É certo que a minha mãe já teve que se afligir com depressões da minha parte, mas teve o bom senso de as associar a mortes e doenças de pessoas chegadas e dificuldades escolares, e não na roupa preta.
Já agora, pesquisei no Google o nome Inês Pereira e fui ter ao site de um cabeleireiro. Portanto vou partir do príncípio que a amiga é cabeleireira e até começou recentemente a fazer tatuagens. Pois... Como a maioria das pessoas sabem (ou deviam saber) a Internet não é fonte infalível de informação, e também gostaria de saber de todos os resultados que o Google lhe deu, quantos é que leu. É que eu só li o primeiro, daí presumir que é cabeleireira.

Apesar de não concordar com o seu ponto de vista desejo-lho felicidades e que os seus filhos abracem a causa que os faça mais felizes. E agora que sabe que há muitos tipos de góticos e nem todos são identificáveis à primeira vista deixo-lhe uma frase do meu querido Conde Patrácula:

“Tenham uma boa noite... Se conseguirem!”

De Ana Elias a 01.10.2009 às 14:35

Muito bom, Inês!

Comentar post



A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
ver perfil

Livros da mãe






Seguir no Facebook


Pesquisar

  Pesquisar no Blog