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A escola em minha casa

por Inês Teotónio Pereira, em 20.10.14

Artigo escrito no no início deste ano lectivo sobre o pesadelo dos TPC 

 

 

No início de cada ano lectivo, as conversas e discussões sobre os trabalhos de casa enviados pela escola é recorrente. Não tanto quanto as peripécias na colocação de professores, mas para lá caminha. Este assunto é normalmente restrito a pais e psicólogos de um lado e a professores do outro. Não sendo matéria legislável, o interesse do público acaba por ser residual. No entanto, só esta semana já existem manifestos, crónicas de opinião, debates em blogues e muitos comentários sobre as virtudes e os efeitos nefastos dos trabalhos de casa. Os pais agitam-se, os professores reagem e os psicólogos manifestam-se contra a falta de sono das crianças e a falta de tempo para serem crianças.

Pois a minha opinião sobre o tema é simples: sou contra os TPC por princípio. Sou contra o peso da escola na vida das famílias e sou contra todas as regras pedagógicas que são cegas às particularidades de cada criança. As crianças passam pelo menos oito horas na escola. Ali é-lhes exigido tudo: que aprendam, que cresçam social e emocionalmente, que desenvolvam hábitos de trabalho, de organização e que sejam responsáveis. Os nossos filhos vivem grande parte das suas vidas dentro de uma escola e são entregues a profissionais que têm como função ensinar-lhes tudo isto. Cada avaliação trimestral afere tudo isto e todas as competências que adquirem ao longo dos anos reflectem também tudo isto. A escola é hoje quase tudo na vida dos nossos filhos e a todos os níveis. A família apanha o que sobra. O que sobra de tempo, de disposição, de amizades e até de formação. Na maioria dos casos, esta realidade não é uma opção: o dia-a-dia, as rotinas, o trabalho, os transportes, o trânsito e a organização das nossas vidas a isso obrigam. Todos os dias resta-nos pouco tempo sem obrigações e os nossos filhos também apanham o que sobra.

É claro que os pais não devem nem podem estar alheados da vida escolar dos filhos. Mas há uma fronteira e cada macaco no seu galho. A nós cabe educar a criançada, o que não é pouco. Transmitir-lhes o que consideramos serem as prioridades da vida, ajudá-los a serem responsáveis, a terem a auto-estima a níveis razoáveis, a formar o carácter e, acima de tudo, ajudá-los a serem felizes. Sempre ligados à escola e sempre com a escola ligada às nossas vidas. Mas da mesma forma que eu não tenho qualquer autoridade na elaboração de um exame, na escolha das disciplinas que são leccionadas aos meus filhos, na forma e no ritmo com que o professor dá as aulas, também a escola não deve invadir o nosso final de dia e apropriar-se de um tempo que não é seu por direito.

Os trabalhos de casa são uma espécie de tempo roubado aos pais, às famílias e às crianças. Mesmo aquela meia hora (nunca cumprida) pedagogicamente aconselhável para ser gasta com TPC, é menos meia hora para nós os termos como filhos e não como alunos, e para eles gastarem como crianças e não como estudantes.

Sim, há matérias que precisam de ser lidas com mais atenção, exercícios que é preciso praticar e outras tarefas que são aconselháveis fora das aulas. Há crianças que precisam de trabalho extra para melhorem o desempenho, para apanharem o comboio ou para perceberem que é nas aulas e com os professores que se aprende. Mas tudo isto deve ser excepção. Em casa a autoridade é dos pais e só a eles compete decidir - ouvindo ou não o conselho dos professores - como é que os filhos devem ocupar o seu tempo sem que por isso sejam prejudicados na escola.

Não, não concordo com os TPC e ainda não encontrei uma justificação pedagógica que me fizesse mudar de opinião. Excepcionalmente, claro que sim, porque cada caso é um caso; como regra, acho que é uma espécie de tratamento invasivo e fútil. Agora vou ali ajudar os meus filhos a acabar alguns TPC porque está na hora de ir jantar e fazer figas para que os professores deles não nos castiguem com mais TPC por causa desta crónica.

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publicado às 12:22


3 comentários

De Anónimo a 20.10.2014 às 13:14

oh yeah!!!!

De T. a 21.10.2014 às 09:58

No colégio onde estudei na primária, após a hora do lanche, havia a "Sala de Estudo". Eram 60 minutos dedicados aos TPC's e/ou ao estudo (vigiados por uma educadora), conforme a necessidade do dia. Terminado o período, os livros e cadernos eram arrumados num armário designado para o efeito, e só voltavam a ser abertos na manhã seguinte. Para casa, seguia a mala vazia, e uma miúda com tempo para brincar e ir às actividades onde gostava de "gastar" o seu tempo livre.

Para os mais cépticos, que possam achar que isto nada mais seria do que fechar os miúdos numa sala, enquanto os pais não chegavam, o propósito era mais do que cumprido. Todos sabíamos que ao nos empenharmos naquela hora, iríamos livres para casa, o que acabava por ser um óptimo incentivo. No meu caso em particular, tinha o incentivo extra de saber que a minha mãe (professora) não permitiria que eu terminasse os trabalhos em casa - a Sala de Estudo era para levada a sério, e a única vez que decidi preguiçar, passei a vergonha de não ter os trabalhos feitos na manhã seguinte.

Tudo isto para dizer que concordo consigo. Pelo menos em parte. Não tenho uma opinião formada sobre os mais velhos, uma vez que um sistema deste género implicaria uma grande articulação entre professoras - que muitas vezes nem para datas de testes se articulam, quanto mais para controlar o volume ou a frequência de TPC. Mas para o primeiro ciclo, não tenho a mais pequena dúvida de que não só seria possível, como seria benéfico. Para os miúdos, e para a família.

De SergioLopes a 21.10.2014 às 11:02

Apesar de ainda não estar perante uma situação destas, uma vez que a minha filha ainda não tem TPC, já li vários artigos que partilho de opinião igual, tal como este.
Podendo não ser a maneira mais correcta, mas já estou a sofrer por antecipação, quando chegar a altura dos TPC, não sei como será possível "enfiar" isso na cabeça dos professores sem que a minha filha não seja prejudicada na escola.

Já deixei a escola á uns bons anos, considero que cá por casa fazemos um acompanhamento correcto da evolução da nossa filha na escola e, em casa, tentamos transmitir a melhor educação que sabemos / conseguimos. Há (tem de haver) tempo para trabalhos manuais (ainda está nesta fase), livros, histórias e brincadeiras. Penso que tudo isto é um TPC disfarçado e que fazemos de bom grado.

Quando chegar a altura dos TPC's a "sério" estou a antever um desespero entre o que pensamos ser correcto (não terem de nos roubar esse tempo com a nossa filha) e o que os professores ordenam que se faça em casa.

Até lá apenas nos resta fazer figas para que apanhe professores com mentes mais abertas em relação a este assunto, pois, caso contrário, se a pequena não fizer o que traz da escola para fazer em casa, certamente será prejudicada na avaliação.


Obrigado

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
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