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Cadeado no telefone

por Inês Teotónio Pereira, em 28.10.14

Crónica publicada no i de sábado 

 

Em casa dos meus pais o telefone estava quase sempre trancado com um cadeado por uma chave que a minha mãe escondia e que o meu pai tinha o desejo de engolir todas as vezes que abria a cartinha com a conta do mês. A chegada da conta do telefone e da electricidade, assim como a visita do "homem da taxa" (da televisão), eram alturas tensas em casa dos meus pais. Mas o telefone era o caso sintomático. O telefone, na perspectiva de quem pagava as contas, não era um serviço prioritário e o seu uso devia ser esporádico, limitado e extraordinário. Esta teoria chocava de frente com a ideia que nós, filhos, tínhamos da invenção de Bell: para nós, a água e o telefone tinham a mesma importância na função de sobrevivência da espécie, pois sem o telefone corríamos o perigo de ficar social e dramaticamente isolados. Para conciliar as duas vontades determinaram-se regras: só podíamos fazer chamadas locais, só depois das oito da noite e cada chamada tinha uma duração limitada pela ordem "desliguem o telefone!" passados 20 segundos do início do telefonema.

Está claro que furámos muitas vezes o sistema e que muito sofreu o meu pai com as contas que lhe iam chegando apesar do cadeado, mas sobrevivemos todos e o aparelho jaz hoje em paz, com as honras de um herói de guerra, na cave da casa dos meus pais.

Na mesma senda do telefone, também a televisão tinha as suas limitações: horários limitados e apenas dois canais. Quem queria ver televisão tinha de se sujeitar aos condicionalismos tecnológicos da época o que obrigava as famílias a estarem sempre reunidas caso quisessem ver televisão. Os pais viam os mesmos programas que os filhos e os filhos só conseguiam ver televisão na companhia dos pais.

Educar filhos na altura dos meus pais era canja. As regras eram impostas pelos condicionalismos financeiros (telefone) e tecnológicos (televisão) e não era preciso recorrer a princípios pedagógicos, de vida saudável ou morais para impor regras. Hoje, para nosso tormento, não é assim. Hoje há todo um vasto número de teorias sobre as várias opções que os nossos filhos têm e nós, pais, somos forçados a ter uma resposta para cada teoria com a grande desvantagem de não termos exemplos a seguir. Na verdade somos uns pioneiros desta nova era educacional e cabe a nós andar de catana em punho a devastar o denso mato das novas tecnologias, redes sociais e meios de comunicação.

Vejamos: alguém sabe com que idade devem os meninos ter facebook ou Instangram ou que tipo de chats devem eles utilizar? Devem os adultos ter a password de todas as redes sociais em que eles navegam e não os deixar sozinhos nesse submundo cibernético, ou devemos confiar que eles sabem gerir as suas relações e escolher o que vêem? E com que idade é suposto eles terem telemóveis com acesso à internet? Computadores: no quarto ou apenas na sala? Tablets: a partir de que idade? Impomos horário de navegação, de chat móvel e de televisão ou o limite é apenas a hora de dormir? E a televisão: o Walking Dead é para que idade? Quantas horas é que eles devem ver poder ver televisão e a que horas? Entre o telejornal e o Disney Channel, quem deve ganhar tendo em conta que os pais podem ver o telejornal quando os filhos forem para a cama?

Nós, pais, somos todos os dias confrontados com decisões destas e andamos literalmente aos papéis a tentar descobrir os melhores modelos para copiar. Entretanto, a realidade ultrapassa-nos todos os dias. Hoje, cada membro de uma família tem os seus programas de televisão, o seu telemóvel, o seu tablet, as suas redes sociais e cada um tem uma realidade distinta mesmo que esteja sentado ao lado do pai ou do irmão no sofá da sala. Hoje, os limites não são tecnológicos ou financeiros e a escolha é um exercício diário frenético. Hoje, os pais são obrigados a ter bom senso, a ler sobre tecnologia, psicologia e pedagogia e a optarem todos os dias entre verem o Disney Channel em família ou o House of Cards sozinhos e de madrugada. Já dantes, bastava que os pais trancassem o telefone com um cadeado e mandassem calar a filharada para viverem descansados.

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publicado às 12:18


4 comentários

De Curly a 28.10.2014 às 12:39

LOL os meus pais a dada altura tb colocaram cadeado no telefone...mas eu descobri que este se destrancava em 3 tempos com aquelas tesouras do chinês (pequenas e dobráveis)...que tb destrancavam a caixa do correio, o que me permitiu receber uma ou duas cartinhas de amor...
hehehehe

De Makiavel a 30.10.2014 às 14:29

A regra em casa, nos tempos de filha pré-adolescente e adolescente, era: na hora de ir dormir, telemóvel desligado e fora do quarto. Se se aplicar isso aos actuais terminais móveis (iPads, internet móvel, etc.) 1/3 do dia é passado sem estarem ligados. E não lhes faz falta nenhuma, é só benefício. Ainda ficam com 2/3 do dia de total liberdade.

De Sónia de blogsemnome a 30.10.2014 às 17:27

Sem duvida Inês (tem o nome da minha filha) que não é fácil encontrar a dosagem correta. Para complicar um pouco mais as coisas, nem sempre os jovens têm o melhor exemplo em casa (os próprios pais, passam horas e horas a utilizar as novas tecnologias), mas sem duvida que tem que haver regras...

De Aerdna a 31.10.2014 às 03:41

Li algures, que os pais se vão sempre debater com os modelos de educação, porque estamos sempre a preparar as nossas crianças para um futuro que nos é desconhecido. Nòs crescemos numa época que jà não era igual à que os nossos pais tinham vivenciado, e o mesmo se passa agora.

Sou mãe de uma criança de 4 anos, e depois de muito ler, observar, diria até estudar, decidi limitar a exposição à Tv e novas tecnologias. Até porque eu aprendi a usar um computador jà tinha mais de 20 anos e não me dou mal com a màquina, até porque são criadas para serem intuitivas.

Até agora tenho sido mais ou menos bem sucedida. Mas, as trocas de informação entre pares, no jardim, o convivio com primos e vizinhos têm aguçado a curiosidade. Mudei a estratégia do limitar para o desviar a atenção. Tento que os desenhos animados se intercalem com pinturas, jogos sociais (tipo tabuleiro para a idade dele), puzzles e sempre que o tempo permite: doses de jardim e parque infantil.

Até à data tem sido possìvel, não proibir mas limitar, não sei como serà mais tarde. Mas dà muito trabalho e exige muita entrega e presença. Nos tempos que correm em Portugal estar presente é um "luxo". Abdiquei de muita coisa para estar presente, mas tenho consciência que isso quase nunca é possìvel. E aì reside o meu medo: "Valerà a pena eu tentar dar a educação que acho correta? Como serà quando todos os meninos de 4 anos crescerem, e começarem a trocar experiências entre si? Terei dado todas as ferramentas necessàrias para o desenvolvimento de um cidadão ùtil à sua sociedade? Terei ensinado a conhecer-se a si mesmo? Terei feito bem o meu trabalho? Serà o meu filho capaz de ser feliz?

Apesar do medo quero acreditar que sim. Afinal a sociedade precisa de individuos diferentes entre si. Se fossemos todos iguais serìamos um exèrcito, e fariamos todos a mesma coisa. A evolução ficaria comprometida: afinal a sociedade não sobrevive sò de doutores. Precisa de artesãos, artistas, lavradores, etc...

Bàsicamente quero para o meu filho, o mesmo que os meus pais quiseram para mim, e quero acreditar que todos os pais querem para os seus filhos: que seja capaz de Ser Feliz. E a felicidade também se faz de lembranças e quantas mais experiências mais lembranças.

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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