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Educação de café

por Inês Teotónio Pereira, em 01.07.14

O meu artigo de sábado no i 

 

Um dos maiores erros que se comete quando se fala de educação é opinar também sobre pedagogia. A pedagogia, a par do futebol, é um dos temas mais apetecíveis nas conversas de café. Todos têm uma palavra a dizer sobre metas curriculares, dificuldade dos exames, métodos de aprendizagem de leitura, desenvolvimento do pensamento abstracto, exercício de memória, etc. Não interessa a formação que se tem, interessa a sensação que se tem sobre cada um destes temas. A educação, assim como o futebol, está repleta de treinadores de bancada especialistas em pedagogia. Ao contrário do que acontece, por exemplo, no sector da saúde, em que os treinadores de bancada apenas discutem a organização, o tempo de espera nas urgências e as taxas moderadoras, e não as diferentes técnicas de execução de uma cirurgia de peito aberto, na educação as opiniões sobre as técnicas dominam o debate.

Ora este fenómeno intoxica a discussão sobre o sistema educativo por duas razões. Primeiro porque nos desvia do essencial - e o essencial são os resultados, por serem o único dado objectivo. Resultados, não só da classificação final, mas também de taxas de insucesso, de progressão, de abandono, etc. E, segundo, porque empurra a solução de todos os problemas da escola e da aprendizagem para a adopção de apenas um dos diversos métodos de aprendizagem que cada português defende. Como se a solução fosse o Estado adoptar aquilo que o ministro da Educação que há em cada português defende pedagogicamente.

E a verdade é que pedagogicamente falando estou bastante confusa. Das cinco experiências educativas que tenho em casa não consigo tirar um método único que sirva para todos. Tenho de tudo para todos os gostos: tenho crianças com dificuldade de aprendizagem, necessidades educativas, pensamento abstracto apurado, memória prodigiosa e pensamento abstracto nulo, raciocínio rápido, alunos motivados e desmotivados, seguros e inseguros, preguiçosos e trabalhadores, com aptidão natural para línguas e sem aptidão natural ou adquirida para línguas, que memorizam mais do que raciocinam e que raciocinam mais do que memorizam. Os cinco ministros da Educação que existem em mim conseguem apresentar facilmente cinco métodos de aprendizagem diferentes, que vão do ensino da leitura ao raciocínio abstracto. Todos eles eficazes para cada um dos fenómenos que tenho em casa. Por isso há muito tempo concluí que pedagogicamente falando não há métodos únicos nem é aconselhável a adopção de apenas um centralmente.

As palavras-chave são três: professores, autonomia e avaliação. Professores, porque só eles sabem quais os melhores métodos a adoptar para os seus alunos, quais as estratégias mais eficazes e quais as respostas adequadas às dificuldades que eles vão apresentando. São eles os especialistas e não os políticos ou sequer os pais. Autonomia, porque só concedendo verdadeira autonomia pedagógica às escolas se consegue que o desempenho dos professores seja eficaz, libertando-os das amarras do método único que todos devem cumprir em cada ano de escolaridade independentemente do perfil dos alunos. Avaliação, porque só avaliando uniformemente as escolas e os alunos no final de cada ciclo se consegue aferir o sistema e conhecer as suas fragilidades. Os objectivos devem ser iguais para todos, ao contrário das formas para os cumprir, que podem e devem ser distintas.

O acesso de todos à educação é hoje um direito adquirido. O nosso problema é o sucesso educativo de todos. Mas para responder a esse desafio não é na opinião dos diversos ministros da Educação que encontramos a resposta: eles são apenas ministros com a missão de criarem mecanismos eficazes para que o sistema seja mais flexível, autónomo e, no final, possível de avaliar. É sim na opinião de cada professor que está a resposta ao sucesso de cada um dos nossos filhos. Do ministro esperamos que confie em quem sabe dando-lhes autonomia para cumprirem a sua missão de ensinar e facilitando o seu trabalho eliminando a burocracia da sua agenda. É disto que se deve falar quando se fala de educação. Quanto aos métodos de leitura ou à dificuldade do exame de matemática, são temas tão polémicos e pacíficos quanto os cortes de cabelo de Ronaldo - em que só o barbeiro do próprio está habilitado a responder.

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publicado às 12:11



A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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