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Evolução

por Inês Teotónio Pereira, em 09.02.14

No i de sábado

 

Os bebés crescem por etapas e aos solavancos: passam semanas no mesmo estádio de desenvolvimento, por exemplo deitados, e de repente, de um dia para o outro, sentam-se. É estranhíssimo porque é mesmo de repente. Não se vão sentando; sentam-se e pronto. De repente, de um dia para o outro, deixam de palrar e começam a falar: há um dia em que eles abandonam o "mmm" e passam para o "mãe" sem que ninguém esteja à espera. Durante uma noite crescem dois centímetros e é todo um armário de roupa que deixa de ser servir. De um dia para o outro há um dente que sai para fora e dá sinal de vida. De repente já sabem comer sozinhos; depois de terem passado meses a acertar com a colher em todos os sítios da cara menos na boca, há um dia em que acertam. E é sempre de um dia para o outro. Não há uma evolução, tipo Darwin, que se consiga perceber.

Se há alguma evolução, nós não vimos. Nós só nos apercebemos da revolução, só percebemos o final, não há enredo. Parece que o processo evolutivo dos bebés é qualquer coisa que eles tratam interiormente, em segredo, tipo conspiração. Eles vão-se reorganizando dentro das suas cabecinhas e de repente avisam: "Pronto, já estou pronto, aqui está o meu dente", ou "já percebi como se anda, cá vou eu pelas escadas abaixo". Por isso é que a vida dos bebés está cheia de primeiras vezes. Todos os meses há uma primeira vez de qualquer coisa. E o pior é que raramente conseguimos chegar a tempo à máquina de filmar. Nós só filmamos e registamos as segundas vezes, as primeiras vezes raramente ficam para a história.

A nossa vida de pais é por isso absolutamente imprevisível. Os livros dizem que há uma idade para tudo. Dizem que eles se sentam aos sete meses e aos seis meses nascem os primeiros dentes, dizem que com um ano começam a andar e aos dois anos começam a falar, etc. Claro que deixam sempre uma margem de erro: mais mês menos mês, mas pronto, é por ali. A verdade é que por mais que os livros digam é sempre uma surpresa e um stresse quando os bebés passam uma etapa. Nunca estamos à espera porque a verdade é que a data nunca é a certa. Eles enganam-nos. Está a criança quase a fazer um ano e não há sinal de que consiga equilibrar-se na vertical sem apoio e pôr um pé à frente do outro sem dar um enorme trambolhão. E agora? Faz um ano e nada. Pânico. Vamos ao médico e o estado da criança não é "excelente" porque já passou um ano e um mês e nada, não anda. Não podemos dizer que já faz alguma diferença nas últimas semanas porque não fez. A questão é: ela anda ou não anda? A evolução silenciosa não conta para nada. Até que um dia, sem aviso prévio, ela começa a andar e só vai de nariz ao chão ao quarto passo. Como é que isto aconteceu? Ninguém sabe. O que interessa é que já anda. E agora temos ano de sossego até aos dois, idade em que se espera que fale. Mas falar como? Dizer frases completas ou palavras soltas? Conversar ou apenas dar nomes às coisas em vez de gemer e apontar? Ninguém sabe. E nós pais muito menos. E é assim até que eles crescem, até que deixam de ter etapas definidas e nós deixamos de ter livros que nos avisem das etapas que aí vêm.

 

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publicado às 14:05



A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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