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Férias colossais

por Inês Teotónio Pereira, em 17.06.14

(No i de sábado) 

 

As férias de Verão dos nossos filhos são todos os anos de pelo menos três meses. Este ano é igual (até têm mais uma semana) e começam já para a semana. Os meninos são entregues aos pais durante 13 longas semanas para descansarem, divertirem-se e descontraírem. O pior é que os pais estão a trabalhar. Não estão em casa. E é por isso que as férias, que deviam ser um período divertido, descontraído e descansado, são um autêntico pesadelo para os pais. Os pais têm de ser pais a tempo inteiro e ao mesmo tempo têm de trabalhar a esmagadora maioria do tempo. O desafio que temos já para a semana é gigante: o que fazer às nossas crianças de modo que elas não fiquem sozinhas em casa? A questão nem é entretê-los, é saber onde deixá-los e com quem durante três meses seguidos.

Quem tem meios e avós presentes e disponíveis safa-se e encontra facilmente guarida para a criançada. Mas quem não tem deixa as crianças entregues às consolas, à televisão, com o almoço dentro do microondas e o número de telefone dos pais colado no frigorífico para ligar "caso aconteça alguma coisa". Apesar do sol e dos dias longos, estas férias de Verão são três meses de stresse que fazem mais pela "desconciliação" da vida familiar com a vida profissional que uma eventual e irrealista diminuição do período de baixa de maternidade.

Nós não estamos preparados para isto. Dantes até era possível. Dantes os avós viviam ao lado, as mães estavam em casa e a população estudantil era bastante menor. Dantes não se notava a enormidade das férias grandes porque a rua, os vizinhos e o bairro eram um prolongamento da casa e da família e as crianças nunca estavam sozinhas. Era, por isso, possível que as aulas acabassem em Junho e começassem em Outubro que ninguém se queixava e as crianças agradeciam. Apesar de tradicionalmente as nossas férias grandes serem mesmo grandes, cada vez mais esta realidade é insustentável. Cada vez há mais famílias pequenas e por isso as ajudas são mais reduzidas, cada vez mais as mães têm as mesmas responsabilidades profissionais que os pais e por isso menos disponibilidade para estarem com os filhos enquanto os pais trabalham e também são cada vez mais os avós que trabalham ou vivem longe dos netos. O caso é por isso sério.

É sabido que é durante este período que se registam mais casos de negligência ou acidentes com menores. Nem podia ser de outra forma: nem todos têm dinheiro para os campos de férias que proliferam por este país fora ou para pagar a alguém que fique a tomar das crianças enquanto os pais trabalham. Quinze dias, três semanas no máximo, supera-se. Mas comportar tudo isto durante três meses seguidos só está ao alcance de um escalão muito reduzido do IRS.

Além deste problema logístico e das suas consequências muito pouco conciliadoras e seguras, há ainda o problema pedagógico. Dizem-me os professores no final de todos os anos lectivos que os meus filhos não podem parar de trabalhar, que têm de estudar nas férias ou varre-se-lhes toda a matéria e o início do ano lectivo seguinte pode ser doloroso. Compreendo. Mas trabalhar como? Com quem? Quando? É óbvio que três meses chegam e sobram para levarem os cérebros dos nossos filhos a entrar em modo de standby, só não é óbvia a solução do trabalho em tempo de férias tendo em conta que não há professores a acompanhá-los e os pais estão a trabalhar. É por isso que grande parte dos primeiros períodos de aulas são gastos na revisão das matérias do ano anterior e os alunos somam uma colecção de notas baixas. É que o cérebro, assim como a barriga, demora a voltar a estar em forma.

A solução d este grande problema das férias colossais não está na redução das férias (apesar de até se poder considerar), está sim numa maior distribuição das férias e na redução de períodos excessivamente longos de férias. Oito semanas de férias seguidas, no máximo, chegavam. Se queremos conciliar a vida familiar com a vida profissional, o melhor é começarmos por conciliar as férias escolares com a vida profissional dos pais; quando estamos todos a trabalhar a conciliação é bem mais fácil.

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publicado às 17:02


4 comentários

De Célia a 18.06.2014 às 07:37

Concordo plenamente. Estou a viver na Alemanha e o sistema é um bocadinho diferente, mas parece-me melhor e ao vai ao encontro do que disse. 1. As escolas não começam todas na mesma altura, cada estado (ou distrito) tem um calendário diferente, para que o país simplesmente não pare de trabalhar ao mesmo tempo (como acontece em Portugal). 2. o meu filho começou a escola primária no ano passado, em meados de Agosto e vai terminar quando faltar uma semana para o final de Julho (igual tb para o liceu). Vai ter um mês e meio de férias. 3. existem diversos periodos de férias intercaladas, em Outub têm 15 dias e depois em diversos meses ficam 3 a 5 dias em casa. 4. Por aqui proliferam os part times, pelo que muitas mães trabalham de manhã e depois ficam com os petizes. À parte o ponto 4. que infelizmente os part tomes em Portugal são muito mal remunerados, parece-me que um sistema escolar assim, seria mais vantajoso para pais e alunos. Gostei do seu texto. Célia

De filipamartins332 a 25.06.2014 às 17:30

Antes de mais parabens pelo destaque da sapo!! Depois não vale a pena preocupares-te com essa situação,em breve vais encontrar uma solução que se adapte à tua situação,nós devemos aproveitar o nosso tempo para sermos felizes e não pensarmos neste tipo de aborrecimentos!! Portanto,anima-te que tudo irá correr bem!! Beijinhos,tudo de bom para ti e toda a tua familia!!

De marta-omeucanto a 25.06.2014 às 17:36

Concordo com quase tudo o que foi dito. Felizmente, tenho a sorte de ter os meus pais a poucos metros e é lá que a minha filha fica durante as férias. Mas acabam por ser férias só porque não tem que ir à escola nem estudar. Não se diverte, tem que acordar à mesma hora como se fosse para a escola, e passa o dia entretida a ver televisão e a "chatear" a cabeça aos avós. À excepção das 3 semanas (intercaladas) em que eu estou de férias e que, aí sim, pode aproveitar.
Já quanto à distribuição das férias e redução de períodos longos de férias, não acho que resolva o problema, porque os pais continuarão a estar a trabalhar, a não ter onde deixar os filhos e, para pagar a alguém, tanto gasta intercaladamente como de uma só vez. Só mesmo pela questão de não deixar passar muito tempo e esquecer a matéria, mas depois de um ano inteiro, também têm direito ao merecido descanso, físico e mental.
E seria injusto para todas as crianças que têm a sorte de poder aproveitar cada dia desses 3 meses da melhor forma.

De Tagarelices ao Vento a 25.06.2014 às 22:46

Tens toda a razão. Eu tenho uma filhota de 18 meses e ainda está numa ama que só tira férias quando eu estou de férias o que é impecável. Mas quando a filhota for para a escola vou ter mesmo que a colocar num atl nas férias, pois por motivos profissionais vivo afastadada familia e não terei quem fique com ela. É este o país em que vivemos, que não pensa nos pais que trabalham e acima de tudo nas crianças.

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
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