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Jogo de futebol

por Inês Teotónio Pereira, em 11.03.15

 

Publicado no i de sábado 

 

O assunto é sério: é dia de jogo. As equipas alinham-se no relvado, a cantoria do hino é dispensada, mas os cumprimentos aos adversários são solenes. Os pais acomodam-se na bancada de pedra e não tiram os olhos dos filhos. O árbitro apita e o desafio de 40 minutos começa. O meu filho tenta chutar a bola mas dá um pontapé no ar. Rio-me, mas os outros pais lançam-me um olhar de desprezo pela minha insensibilidade. Ok. Isto é a sério. Encolho-me timidamente. A barafunda no campo é enorme. Os jogadores correm todos atrás da bola sem ordem e o mister grita que é preciso manter as posições. Dificilmente se percebe quem está à defesa ou ao ataque. Às ordens do mister a equipa disciplina-se mas a bola insiste em sair das quatro linhas. As crianças não levantam cabeça nem se incomodam com a chuva que cai com intensidade. Os pais muito menos. De repente um miúdo pequenino sai do meio da confusão com a bola nos pés e corre em direcção à baliza contrária. Os pais entram em delírio: “Leva! Leva!” A criança obedece e leva o esférico até ao outro lado do campo. Está isolada, só tem um guarda-redes minúsculo pela frente, mas falha a baliza. Os pais disfarçam a desilusão e a mãe do pequenote atira em jeito de brincadeira: “Hoje não jantas!” Rimo-nos todos. A criança ignora a gracinha. Ainda está zero a zero e o mister não mexe na equipa. A bancada agita-se. É preciso fazer qualquer coisa porque os adversários “têm qualidade técnica” e assim perdemos. Correcto. Os pais têm sempre razão e percebe-se pelos festejos que é marcado um golo lá ao fundo.

Acabam as risadas e começa a análise. Ouve-se que a equipa adversária é “interessante” e que o mister não responde à exigência do desafio. “Muda a defesa, pá!” “Não vês que os miúdos estão cansados?!” Os miúdos, esses, nem olham para os pais. Têm os olhos no esférico e o coração aos saltos. No meio do campo um rapaz cai. Queixa--se da perna. As atenções passam do mister para o árbitro. Por enquanto nada de palavrões, ele é apenas acusado de “palhaço” e de “cego”. É livre a nosso favor. O rapaz arrisca a baliza e marca golo. Não se percebe como, porque a bola passou por meia dúzia de crianças que a desviam na tentativa de defender mas acabam por confundir o pobre guarda-redes. O autor do primeiro golo dá um salto estilo CR7 e é abraçado pelos colegas. Acendem-se cigarros na bancada e as mães gritam palavras de encorajamento.

O meu filho corre atrás da bola sem sucesso até que por mero acaso ela lhe cai aos pés. O meu coração pára. Os pais gritam o seu nome: “Leva! Leva!” Levanto-me com orgulho. É agora. Passa um, passa outro, está quase a chegar à baliza quando tropeça e deixa a bola fugir. Ops… Sento-me. Os outros pais também. Finalmente intervalo com empate. Trocam-se os campos e o mister mexe na equipa. Na bancada analisa-se detalhadamente a primeira parte do jogo entre uma e outra cerveja. Os jogadores partem ao ataque. Os golos sucedem-se de um lado e de outro. Perco-lhes a conta e deixo de perceber quem está a ganhar. A gritaria sobe de tom, os insultos de intensidade e a semelhança entre aquele grupo de pais e qualquer outra claque profissional não é coincidência. No fim do jogo percebo que perdemos. “Isto não pode continuar! Ou o gajo percebe que tem de escolher os melhores quando são jogos a sério ou não estamos aqui a fazer nada! Por isso é que este país não anda para frente: não se levam as coisas a sério!”

 De seguida vamos todos para a porta dos balneários esperar pelos filhos. Do mister não há sinal e do árbitro muito menos. Um a um os jogadores vão saindo radiantes por terem passado uma manhã a jogar à boa. Não se fala mais do jogo. A multidão dispersa com a garantia de que para a semana há mais. Ponho o braço à volta do meu filho e pergunto-lhe se gostou. “Sim, sim! Mas fomos roubados!”
Saí dali com pena do mister e do árbitro. Nenhum deles tem um sindicato que os proteja ao estilo da FENPROF, nem os filhos uma associação que os defenda dos pais. Saí dali a pensar como seria o país se nas escolas houvesse este empenho dos pais. Sim, como seria o país se a escola fosse levada tão a sério como são levados os jogos de futebol de fim-de-semana? Para a semana há mais.  

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publicado às 13:11



A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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