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No Natal sou quase comunista

por Inês Teotónio Pereira, em 17.12.14

O meu artigo no i de sábado 

 

O grande problema do capitalismo é que torna os meus filhos gananciosos. Vivessem eles num sítio onde não fossem bombardeados com anúncios e lojas onde a felicidade se vende a prestações ao preço da pêra-rocha e tínhamos todos uma vida mais calma e mais contemplativa. Em que eu teria mais tempo para contemplar a natureza e a filosofia, e eles menos tempo para pedinchar. Mas a realidade é adversa ao nosso bem-estar e, por isso, à felicidade dos meus filhos. E a culpa é do capitalismo, sem dúvida. Os meus filhos ambicionam o iPhone 6 e querem o seguinte: um cativo em Alvalade, passar pelo menos uma semana na neve ou nove dias e sete noites em Nova Iorque, ir a Madrid conhecer o Cristiano Ronaldo, uma quinta com cavalos e cães, comer pipocas e beber coca--cola às refeições e um cartão multibanco ilimitado para comprarem selvaticamente cromos para a caderneta referente à época 2014/2015 e gomas. Para já, é só. Mas na próxima semana pode ser que tenham outras ideias. Terão certamente. E eles querem tudo isto porque sabem que tudo isto existe. Vêem televisão, assimilam os anúncios, passam pelas montras e navegam na internet, corando de ansiedade e palpitando de desejo de cada vez que encontram uma novidade comercializável.

Para fazer frente a este bezerro de ouro disfarçado de brinquedos, tecnologia e viagens, estou cá eu. Eu, uma força de bloqueio entre eles e o capitalismo que nos entra pelas frechas mais recônditas das nossas vidas e nos polui a alma. Estou cá eu para dizer que não. Por isso, passo os dias a dizer não e já digo não porque sim, sem pensar. "Oh mãe podemos comprar... ?" "Não", respondo prontamente, sem os deixar acabar a frase. E eles, pobres vítimas deste capitalismo cruel, entristecem. Querem ter, mas não podem ter. Vendo- -lhes insistentemente a teoria saudável para o meu bolso que não ter faz crescer. É preciso que as crianças aprendam a lidar com a frustração, dizem os especialistas. Percebo, mas eles não. Se é assim, porque é que os amigos têm coisas que eles ambicionam e porque é que as crianças dos anúncios estão tão felizes? É muito melhor não ser frustrado, concluem com razoável discernimento e bom senso os nossos pequenos gananciosos.

Sim, o capitalismo polui a alma dos meus filhos e não me deixa outra alternativa senão ser contra ele. Justiça a sério, Natal genuíno, só se consegue vivenciar interrompendo o capitalismo por alguns meses. Ou têm todos ou não tem ninguém. A alternativa é deixar esse monstro aguçar a inveja e despertar a ganância das nossas crias ao som de uma melodia natalícia. É maldade haver tanto por onde escolher e mesquinho oferecer tudo isto enquanto toca o "Jingle Bells" nos corredores dos centros comerciais.

Natal são os presentes, as férias e comer bem. E é por isso que o Natal é a festa mais popular de todas. Não houvesse a tradição de darmos presentes uns aos outros, e às crianças em particular, e o 25 de Dezembro tinha entrado na lista de feriados a eliminar: seria razoável questionar a sua pertinência numa sociedade que se quer laica. Natal, meus senhores, é quando o capitalismo revela o seu esplendor máximo: sonso, ganancioso, materialista e financiado pelos bancos. Bancos maus que emprestam aos pais para darem aos filhos, sabendo que são os filhos que acabam a pagar os créditos. Soubessem os Reis Magos o que nós sabemos hoje e não se tinham aventurado atrás de uma estrela para darem presentes ao Menino Jesus. Foi, obviamente, uma má opção.

Por mim, pelos meus filhos, ou se acabava com o Natal ou se acabava com o capitalismo. As duas coisas não funcionam juntas: como é possível conciliar o espírito natalício do anúncio do azeite Galo com o plafond do nosso cartão de crédito e com a pedinchice infantil? Não é. No Natal comungo do anticapitalismo comunista. Não fosse o "pormenor" religioso da data e seria mesmo comunista durante todo o Advento; só vacilo porque não tenho a certeza de que os comunistas não ofereçam, também eles, presentes para festejar o nascimento de Jesus. Enfim, tirando o Papa Francisco, restam-me poucos aliados para enfrentar os meus filhos nesta quadra capitalista.

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publicado às 10:52


4 comentários

De Sofia Lopes a 17.12.2014 às 17:25

é desligar mais vezes a televisão :)

De Simão Cardoso a 17.12.2014 às 21:08

Eu estou do seu lado. De facto, Natal e capitalismo não são compatíveis. O Natal é a festa do despojamento. Despojamento de um Deus que se despoja da sua majestade para assumir a nossa humanidade com todas consequências que isso acarreta. E nasceu num estábulo, o seu berço foi uma manjedoura. Haverá despojamento maior? Não há. Eu nunca me tinha colocado a questão de ser comunista, mas faço um esforço por ser humano, simples, pobre, vivendo na simplicidade. Não tenho filhos, tive sobrinhos e sempre lhes dei presentes, mas algo de útil e educativo. Eles, já casados, recordam-se bem disso e mostram a sua legria, pois guardam ainda muitos desses presentes.
Não está sozinha, pode crer.
Uma saudação fraterna.

De flagrantes a 18.12.2014 às 00:12

Uma maravilha de texto! Esse estado de alma temos muitos de nós e, sobretudo, os mais velhos, pois nesse tempo a nossa ambição máxima - falo mais dos rapazes- eram os Soldadinhos de Chumbo ou as primeiras colecções dos Mecanos(?), e isto em famílias que já podiam alguma coisa! Outra vantagem , em relação aos dias de hoje é que se calhar com o dobro da idade dos miúdos de hoje...ainda íamos acreditando no sapatinho!Mas, o Menino , apesar de tantas maldades do mundo ainda anda por aí , e como nós só por uma vez na vida somos crianças (muito pouco tempo crianças, infelizmente)deixemos que os sonhos -pelo menos os sonhos- tenham nesta época um lugar no nosso interior e formem depois - ao longo dos anos que se seguirão- um cantinho privilegiado nas nossas memórias mais íntimas.

De Sofia a 19.12.2014 às 11:45

Obrigada Inês! sempre com inteligência e graça!

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
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