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O comunismo e os nossos filhos

por Inês Teotónio Pereira, em 20.11.14

A minha crónica de sábado no i 

 

Tal como a larga maioria dos portugueses, cresci num mundo divido pelo Muro de Berlim, em que o comunismo era uma realidade presente em todas as áreas, do cinema à literatura, da educação à política e até nos desenhos animados da Checoslováquia ou da Hungria apresentados por Vasco Granja. Para mim, e para a maioria dos portugueses, o mundo para lá da cortina de ferro era uma espécie de planeta distante de onde poucos saíam para nos contar como era, que nos incomodava ao mesmo tempo que nos ajudava a formar a nossa consciência política e onde agradecíamos ter a sorte de não viver. Cresci num mundo de regimes e ideologias, em que o comunismo era a actualidade e em que ninguém sabia quando, como ou se iria acabar.

Há 25 anos, com a queda do Muro de Berlim, esse mundo onde a maioria de nós cresceu desapareceu. Em poucos meses não ficou pedra sobre pedra dessa realidade e a União Soviética, o Bloco de Leste, o Pacto de Varsóvia e o KGB foram palavras que desapareceram do léxico, das discussões políticas, da política internacional e da nova ordem mundial. E até os filmes do 007 tiveram de encontrar novos maus, novas crises e novos espiões, assim como John Le Carré novos enredos para os seus livros de espionagem. O comunismo estava morto e enterrado debaixo dos escombros do Muro e se dúvidas houvesse quanto à sua falência, aos horrores que provocou e à miséria que semeou, a abertura dos arquivos e as histórias de cada uma das famílias que viveram para lá da cortina de ferro dissiparam-nas todas. O mundo mudou e em Novembro de 1989 era certo que ninguém se iria esquecer dos horrores do comunismo, ninguém iria ter saudades da divisão de Berlim e que para trás ficava uma ideologia falhada e por isso morta.

Mas não. Passaram 25 anos da queda do Muro e o nosso PCP, por quem o tempo não passou, começa assim um comunicado publicado no jornal "Avante": "Mais do que a 'queda do muro de Berlim' o que as forças da reacção e da social--democracia celebram é o fim da República Democrática Alemã (RDA), é a anexação (a que chamam de 'unificação') da RDA pela República Federal Alemã (RFA) com a formação de uma 'grande Alemanha' imperialista [...]" E continua: "Aquilo a que assistimos no território da ex-RDA foi à destruição forçada das realizações económicas, sociais e culturais de mais de quarenta anos de poder dos trabalhadores [...]"

Sim, é verdade que o PCP não está a dizer nada de novo e está apenas a reafirmar a sua versão da história: há 25 anos que diz o mesmo, da mesma forma que o politburo sempre negou a existência do Gulag e de muitas outras "invenções das forças de reacção". Mas o que torna este comunicado actual, e de certa forma novidade, é que ele não é dirigido a quem viveu esta época ou se emocionou com a queda do Muro, que obviamente encolhe os ombros perante a dimensão do absurdo que ali está escrito. Este comunicado é para ser lido por todos aqueles que cresceram num mundo sem Pacto de Varsóvia, que vão fazer Erasmus para a Croácia sem nunca terem ouvido falar de Tito e que acham que Brejnev é da geração do Kaiser. É dirigido a uma geração, cada vez mais maioritária, que não viveu o comunismo nem de um lado do Muro nem do outro e que por isso não tem a obrigação de não se esquecer.

"Num processo acidentado, feito de avanços e recuos, de vitórias e derrotas, o futuro da humanidade não é o capitalismo mas o socialismo e o comunismo", diz o PCP com convicção.

Parece surreal que isto possa acontecer ou até que possa ser escrito, mas a verdade é que se não explicarmos aos nossos filhos o que foi o comunismo e se não lhes mostrarmos os seus horrores, daqui a uns anos, quando a maioria já não for formada por aqueles que comemoraram a queda do Muro, o seu repúdio não será tão óbvio. Para nós, que sabemos o quanto era um privilégio viver em liberdade e que testemunhámos um dos períodos mais negros da história, é fácil achar que "comunismo nunca mais" é uma evidência e o contrário absurdo. Mas aqueles para quem o comunismo é uma realidade tão distante como o Império Otomano, não é tão certo que daqui a uns anos esta não seja novamente considerada a ideologia "nova" para corrigir as desigualdades sociais. O PCP sabe isso e sabe que é fácil enganar uma geração que cresceu a considerar a liberdade tão garantida como o ar que respira, da mesma forma que é hábil a explorar a pobreza e as desigualdades como combustível para alimentar sua lunática luta de classes. Não sei se a história se repete, mas pelo sim pelo não já pus o meu filho mais velho a ler "O Triunfo dos Porcos".

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publicado às 11:38


1 comentário

De Luís a 30.11.2014 às 16:42

Espero que, no discurso que transmite aos seus filhos, constem também os horrores do capitalismo. Se há coisa que não devemos esquecer de transmitir aos mais novos, é a ideia de que o mundo não é binário. A sua crónica é. Ainda para mais, num momento onde a crise que atravessamos (o "período negro" mais evidente para quem o vive) se deve a muita coisa, mas não propriamente ao comunismo - que nem sequer é uma ideologia predominante no mundo actual, sejamos honestos. E eu nem sou comunista.

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
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