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O meu novo herói

por Inês Teotónio Pereira, em 06.06.14

Quando o meu primeiro filho entrou para a creche e começou a fazer as primeiras fichas estranhei. Estranhei que uma criança com 3 ou 4 anos tivesse mais ou menos a mesma vida que uma criança de 8 ou 9. Achava, ingenuamente, que na creche eles apenas brincavam e aprendiam o que quer que fosse a brincar, a rasgar folhas, a pintar com os dedos, a fazer legos, a descobrir o que lhes apetecesse e tentar estragar tudo o que lhe aparecesse à frente. Pensava eu que no jardim de infância, tal como o nome indica, ele vai poder ser infantil à vontade e desarrumar, pular, abusar da paciência das educadoras e chegar a casa estafado. Não pensei que começasse cedo a fazer "trabalhos". Mas é mesmo assim, diziam-me os outros pais. Eles começam a cedo a preparar-se para a escola  e já têm de entrar para o primeiro ano com imensas competências ou ficam para trás. Para o bem deles, quanto mais cedo começarem, melhor será o seu futuro. Depois, descobri esta creche e os meus filhos agradecem-me todos os dias por não me ter rendido a esta teoria pedagógica. Não o fiz por opção racional, foi mera intuição. Instintivamente optei por dizer não às fichas, aos bancos alinhados e à ASAE pedagógica dos jardins de infância. Os meus filhos acabaram a fazer fichas na escola onde também aprenderam a fazer contas, gramática, etc.

É por ter tido esta experiência empirica que passei a considerar a partir de hoje meu novo herói este senhor que o Expresso fez o favor de entrevistar. 

Para quem não tem paciência para abrir o link, aqui vai um cheirinho: 

 

"Muitas das modas supostamente baseadas na ciência do cérebro, tais como o bebé Einstein e o bebé Mozart, ficaram desacreditadas desde que eu escrevi 'O Mito dos Primeiros Três Anos' em 1999. Nos Estados Unidos, uma questão política importante tem que ver com a necessidade universal do jardim infantil a partir dos quatro anos. Os defensores desta política costumam referir a neurociência e as capacidades únicas de aprendizagem que teria o cérebro infantil. Na minha opinião, não há descobertas da neurociência que justifiquem esta posição. Tudo o que sabemos, com base na evidência dos comportamentos, é que crianças oriundas de meios com desvantagens culturais podem beneficiar de uma introdução à educação formal mais cedo. Oferecer ajuda especial a essas crianças é muito diferente de oferecer uma intervenção prematura ou programas educacionais a todas as crianças. (...)"

 

"(...) Os defensores da intervenção na primeira adolescência desenvolveram narrativas muito vagamente baseadas na neurociência para a justificar.(...)"

 

"Do que podemos ter certeza absoluta, nesta área?

Podemos ter a certeza de que os pais devem garantir que os olhos e os ouvidos de uma criança funcionam normalmente. À parte isso, como um colega neurocientista me disse uma vez, 'baseado no que sabemos da neurociência, os pais não devem fechar as suas crianças em armários escuros, bater-lhes na cabeça com frigideiras ou deixá-los passar fome'. Sabemos que a privação extrema é má para as crianças. Mas não sabemos, e provavelmente não é o caso, que uma estimulação ou enriquecimento adicional e intenso tem efeitos benéficos. E a crença nos efeitos irreversíveis da primeira experiência educacional impõe um fardo injustificado aos pais. Além disso, concentrar os recursos todos nessas fases resulta numa diminuição da educação contínua e de adultos. 

 

"A chamada teoria do apego diz que os primeiros dois anos e meio de vida são cruciais para a criança estabelecer uma relação com o seu cuidador e essa relação é a base para o desenvolvimento social e emocional. Se for perturbada, pode levar a problemas mentais, psiquiátricos, problemas criminais em idades posteriores, etc. O professor Michael Rutter estudou órfãos romenos, crianças que cresceram em ambientes terríveis, sujeitas a privações extremas. O mais notável é quão resilientes elas mostram ser. Depois de adotadas, é preciso examinar com grande profundidade, utilizando medidas muito precisas de bem-estar psiquiátrico, para descobrir diferenças significativas entre elas e outras crianças adotadas no Reino Unido.(...)"

 

O que se quer dizer com isto é: relaxem e deixem as crianças serem crianças, o jardim de infância deve ser isso mesmo: um jardim.  

 

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publicado às 02:00


7 comentários

De Rita Ferro a 06.06.2014 às 09:31

Tão bom ler isto! <3

De Anita a 06.06.2014 às 11:16

Sempre defendi isso. Se pudesse os meus meninos ficavam em casa, claro, tendo companheiros da brincadeira, até irem para a escola primária. Eu só coloquei um agora na escola, com 4 anos, porque acho que tem necessidade de conviver com crianças da sua idade. A brincar tb se aprende.
Obrigada pela partilha

De pipinhaeheh a 06.06.2014 às 15:52

É isso mesmo. Os miúdos precisam muito de brincar, vão ter a vida toda para estudar, stresssar, competir. Tenho dois primos irmãos que até à primária ficaram com os avós que nem a 4ª classe tinham e foram ambos alunos de 19/20. Os pais já eram licenciados mas a maioria do tempo passavam com os avós e que estímulo intelectual é que eles tinham?

De Vera Maria Figueiredo a 06.06.2014 às 17:13

Concordo plenamente!! Ha quem viva o drama de os filhos serem "inferiores" a nivel intelectual e os metam na escola para serem estimulados desde os 2 anos... serão eles um dia adultos felizes?

Mas depois temos uma coisa também horrivel e completamente oposta em que acham que privar os miudos da escola é um bem maior... por muitos motivos acho um erro terrivel, privar os miudos da escola.

Hoje em dia as pessoas vivem de exageros, já não há meios termos para nada...

De Sónia a 06.06.2014 às 18:22

Concordo plenamente. Também só coloquei os meus filhos na creche/infantário porque eles precisavam de brincar com outros miúdos da mesma idade. No meu tempo, brincava com os meus vizinhos, hoje é mais difícil isso acontecer...
E na instituição onde estão até levam a coisa nas calmas, e não os chateiam muito. Mas há pais que reclamam mais exigência! E quando ouvi uma mãe (que é educadora) defender que os garotos a partir dos 4 anos precisam de trabalhos de casa, para desenvolverem hábitos de estudo, até fiquei verde! Parece que anda tudo doido!

De Pedro a 23.06.2014 às 13:47

Excelente, cara Inês. Como diz o autor, a aprendizagem é um processo para a vida inteira e, acrescento eu, deve respeitar-se o ritmo e capacidades de cada criança, não tratá-los como números. É por isso mesmo que acho uma imbecilidade esta nova moda dos novos teóricos da educação que dizem que exames no quarto ano são pefeitamente normais, porque as crianças vão ser também avaliadas ao longo da vida adulta e é melhor que se habituem desde cedo a exames. Imbecilidade. São os mesmos que acham normal que para essas idades se constituam turmas de 30 alunos, sem possibilidade de se respeitar o acompanhamento individual de cada um. As nossas crianças, para estes novos teóricos, são números. Prefiro que me digam abertamente que nada disto tem a ver com pedagogia e interesse pelas crianças, mas simplesmente com a prosaica razão de que fica mais barato.

De Teresa Power a 23.06.2014 às 14:46

Claro que sim! Os meus filhos são das poucas crianças que conheço que trepam às árvores e que o fazem descalços e quase diariamente! E têm cabanas nos canaviais e brincam aos castelos entre as silvas... Quando as educadoras me falam da necessidade de treinar isto ou aquilo, eu escuto com atenção, sorrio e... esqueço! Os mais crescidos não ficaram prejudicados por terem tido uma infância de brincadeira (são alunos de excelência) e os mais novos crescem felizes! Hoje é tudo tão complicado... E a infância é tão simples!

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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