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O risco dos castigos

por Inês Teotónio Pereira, em 06.01.15

A minha crónica de sábado no 

 

Como as férias são longas e a paciência não, as relações entre pais e filhos azedam com frequência e facilidade durante esta quadra natalícia de paz, amor e harmonia. Não é fácil. As crianças estão excitadas com os presentes, com os primos e com o excesso de açúcar. Os pais estão falidos com os presentes, cansados de tudo e enjoados devido ao excesso de açúcar.

Não é fácil controlar a paciência. E foi por isso que, no outro dia, os meus filhos ficaram todos de castigo. Um castigo à antiga, coisa séria, tradicional e conservadora: durante um dia não puderam sair de casa, ver televisão, jogar consola ou mexer nos telemóveis e computador. Eles estranharam: "Já fizemos muito pior e não ficámos de castigo", reclamou um deles. Não cedemos. Os primos não vieram nesse dia, a televisão manteve-se silenciosa e tudo o que precisa de electricidade adormeceu. Restava-lhes ler, falar uns com os outros, dormir, estudar ou recorrer aos jogos de tabuleiro que vão acumulando o pó de uma década. Fizeram de tudo um pouco, mas passaram a maior parte da tarde a conquistar o mundo no Risco. Claro que eu também. Claro que este castigo me saiu caro porque me arrastou do sofá e de uma sessão da tarde para uma mesa de jantar com o objectivo de entreter cinco crianças que estão tão habituadas aos jogos de tabuleiro como ao hóquei no gelo. Claro que ganhei e, por isso, tive de jogar mais um e perder.

No dia seguinte, as crianças acordaram novamente livres. As portas de casa voltaram a abrir-se e todos os aparelhos electrónicos ganharam novamente vida. Mas a criançada voltou a sentar-se à mesa para jogar ao Risco. Do Risco passaram ao Cluedo e agora não há bola que os tire de casa nem filme que os distraia do mistério. Porquê? "Porque assim a mãe brinca connosco", dizia um deles. Apanhada.

Nós, pais e adultos em geral, gostamos muito de dizer que as crianças de hoje não sabem brincar e que não lêem, que são viciadas em televisão, que não socializam, que não têm imaginação e que são adversas a um pensamento mais elaborado porque os jogos que jogam e os programas que vêem transformaram-nos em autómatos com o cérebro atrofiado. Mas ao mesmo tempo que achamos, convictamente, tudo isto, damos-lhes telemóveis, tablets, 200 canais à escolha e consolas. E quando lhes damos um livro, procuramos a versão em filme para lhes facilitar a compreensão da leitura. Também numa viagem de carro que dure mais de meia hora, levamos as consolas para elas se entreterem em silêncio em vez de cantarem ou de passarem o tempo a repetir as matrículas. E no fim agradecemos a todos os génios da informática pelas tardes que passámos em silêncio, pelas viagens calmas e serenas e pelos fins- -de-semana harmoniosos em que a criançada está toda agarrada às novas e silenciosas tecnologias em vez de estar aos gritos, a fazer perguntas, birras ou correrias.

Não ter nada disto dá trabalho. Aquela tarde em que eu e os meus filhos ficámos de castigo foi prova disso. Fazer a vez das consolas, da televisão e dos computadores não é fácil. Tira-nos dos sofás, dos nossos computadores e das nossas televisões para sermos pais. Para ouvirmos e brincarmos com os nossos filhos, para os ensinar a jogar em vez de ser ao contrário - porque, se das consolas percebem eles, do Risco ou do Monopólio sabemos nós. O novo mundo não está mal e as tecnologias não são o Demo, o que está mal é a falta de opções que insistentemente damos aos nossos filhos: se eles soubessem que existe vida para além dos computadores e das consolas, de certeza que as listas de Natal seriam outras. Mas como os nossos fins-de-semana seriam mais barulhentos e trabalhosos, o melhor é deixar as coisas como estão e não se fala mais nisto.

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publicado às 12:11


1 comentário

De Teresa Power a 15.01.2015 às 10:11

Eu sei que nós somos um bocadinho radicais, mas cá em casa não existem brinquedos eletrónicos (nem a pilhas) e a televisão está desligada até depois dos mais novos se deitarem. E posso garantir-lhe que se divertem a valer! Ontem, enquanto os dois mais velhos estudavam, os quatro mais novos brincaram pelo menos uma hora às escondidas. A casa ficou de pernas para o ar, mas estavam tão felizes! Talvez quem lê o meu blog pense que a nossa decisão de não vermos quase nenhuma televisão se prende com o conteúdo. Nada mais falso: o conteúdo pode ser magnífico, com tantos canais à escolha. Prende-se antes com a nossa decisão de fazer os nossos filhos brincar a sério, uns com os outros, e crescer juntos assim. Não estamos arrependidos. Geralmente, os nossos amigos comentam, quando nos visitam: "Os vossos filhos a brincar lembram-me a minha infância!"

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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