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O Syriza em minha casa

por Inês Teotónio Pereira, em 10.02.15

no i de sábado

 

Quando o Syriza venceu as eleições pressenti que havia qualquer coisa de infantil no novo governo e, depois de uma semana a acompanhar a tragédia grega, cheguei a uma conclusão: mais que as promessas, o que é verdadeiramente infantil nos dois personagens que têm transformado os nossos telejornais em programas de animação é o estilo. Um estilo verdadeiramente infanto-juvenil.

Por exemplo, o meu filho mais velho é violentamente contra as gravatas e contra tudo o que sejam formalidades. Nem no Natal lhe consigo enfiar uma gravata no pescoço porque ele defende que a sua liberdade e identidade própria não se adequam ao uso de uma fútil gravata. Camisas só as usa abertas e calças quanto mais largas melhor. Ou seja, este meu adolescente acha que a sua imagem é uma doutrina e, em nome dos princípios, não se verga a futilidades. Já um dos meus filhos mais novos também vai revelando a sua veia do helénico Syriza nas birras que costuma fazer. Ameaça regularmente fugir de casa quando é contrariado e chega mesmo a sair, mas - e é isto que o torna maravilhosamente igual aos governantes gregos - fica do lado de lá da porta à espera que alguém o vá buscar. Como ninguém vai nem cede - ou a minha casa seria uma verdadeira anarquia -, ele volta a entrar envergonhado e vai para o quarto chorar.

Tenho outro filho "syriziano", que tem como arma predilecta para levar a água ao seu moinho o paleio. Discute tudo, e chega mesmo a explicar detalhadamente porque é que tem direito a ir para cama mais tarde que os irmãos com argumentos que fazem todo o sentido mas impossíveis de aceitar. Nós ouvimos a criança, explicamos várias vezes que não pode ser, mas ele só se cala quando ouve um redondo e alto "não". A minha filha, essa, sendo menina, é sorna. Consegue moer-me o juízo reclamando sempre com o mesmo tom de voz fininho/estridente, e também só se cala quando ouve um redondo "não". Esta nem se dá ao trabalho de argumentar: repete a mesma coisa vezes sem conta, chora com uma facilidade arrepiante e aposta tudo na sensibilidade de quem está do outro lado.

Só em dois dos meus filhos é que não encontrei vestígios de Syriza. Um deles faz o seu caminho sem dar confiança a ninguém. Refila e contesta pouco e só quando está verdadeiramente entediado é que embirra. E embirra a sério. Este meu filho é mais do estilo britânico. Quanto ao bebé, que passa os dias a fazer asneiras, a partir molduras, a comer comandos de televisão, a cair dos sofás, a roubar tangerinas e peras e no fim de tudo isto pede colo e beijinhos, identifico no espécime humano de um ano e meio todos os governos gregos até à chegada do Syriza - o que revela que até em minha casa o PASOK é minoritário.

É por causa desta faceta infanto-juvenil que o Syriza é cativante. Num mundo onde estamos habituados a ver gravatas em vez de pessoas, formalidade bacocas, discursos redondos sobre deflação, taxas de juro e outras coisas chatas, o Syriza aparece em mangas de camisa ou de casaco de cabedal, na sala dos mais velhos, a falar alto, a comer de boca aberta, com os pés em cima da mesa e sem medo de nada. É bonito. E também oferece esperança. Diz que as suas convicções são baseadas na esperança. Jura que vai correr bem e que agora é que vai ser. Tal e qual os meus filhos: cada vez que aparecem com negativas, e perante a ameaça de castigo, juram que agora é que vai ser.

Num mundo em ebulição, da Crimeia à Nigéria, do Médio Oriente a Paris, com o petróleo a cair e a União Europeia em agonia, aparece o grande Syriza, gingão em cima das suas botas pretas, de sorriso maroto, num estilo jovem e suburbano, a desafiar todos os dilemas com a altivez de quem sabe o caminho que ninguém descobriu. Os meus filhos também são assim. Só que eles têm uma mãe e um pai que lhes dão de comer. Já o Syriza, em vez de pais tem a Angela Merkel e o seu estilo e atitudes podem causar grandes estragos, quer na própria casa quer em casa dos vizinhos. Sim, o Syriza tem o seu encanto infantil, mas todo esse encanto pode tornar-se um pesadelo quando se brinca com coisas sérias. Pois a irreverência e o estilo são no fundo e apenas detalhes.

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publicado às 17:51


2 comentários

De Nivaldo a 10.02.2015 às 18:56

Muito boa a analogia!

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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