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Porquê os exames

por Inês Teotónio Pereira, em 28.05.14

Há dois anos, quando o governo estreou os exames do 6º ano e determinou que os alunos do 4º ano também tinham de fazer provas nacionais que iriam contar para a nota final e para a sua progressão, caiu o Carmo e a Trindade. De todo o lado se ouviram críticas ferozes e muitos a acusarem o governo de querer voltar à escola "do antigamente". De querer voltar à escola das reguadas, das tabuadas em lengalenga e dos exames em que se tinha de decorar os rios e as serras de todo o império, mais a gramática, os reis e todas as datas importantes de 900 anos de História. A ideia de termos milhares de crianças, que nem dez anos completaram, a prestarem exames nacionais aterrorizaram o país. Era desumano, dizia-se.

No entanto, estas ondas de protesto não tinham nada de estranho: durante quarenta anos os exames serviram apenas para concorrer à universidade e os outros tinham sido banidos juntamente com o Estado Novo pelo ralo da História. A progressão e a avaliação escolar eram feitas através das notas internas, da avaliação contínua e com base no discernimento que se ia fazendo dos programas em cada escola (havia umas em que se cumpria o programa, outras em que não - dependia). Foi assim durante quarenta anos. Mas crianças a fazer exames era fascismo. Quando o governo de Cavaco Silva quis implementar a Prova Geral de Acesso, a mítica PGA, centenas de estudantes fizeram estremecer os alicerces do cavaquismo e mostraram o rabo ao ministro da Educação. Literalmente. Exames, nunca. Só na universidade. Os alicerces do cavaquismo mantiveram-se firmes, é certo, mas a PGA foi também ela pelo ralo da história.

Mas, então, como aferir o sistema? Como aferir se os programas estão a ser dados convenientemente, se as escolas estão de facto a cumprir o seu papel, quais as principais fragilidades, onde está o insucesso e o abandono e porquê? Como aferir que uma escola em Trás-dos Montes e em Lisboa, que têm os mesmos objectivos mas realidades distintas, cumprem eficazmente os programas e as metas em cada ciclo. Como avaliar o sistema educativo e assim combater o insucesso e abandono escolares que atingiam números assustadores? O PS teve uma ideia à PS: as provas de aferição. Uma espécie de exames mas a brincar porque não contavam para a avaliação. Inaugurou-se um sistema mais parecido com uma sondagem com uma margem de erro incalculável porque, tal como numa sondagem, as respostas não contavam para nada.

O sistema continuava, assim, por aferir e por isso por corrigir. Este governo, tal como se tinha comprometido, transformou as provas de aferição em exames que cumprissem essa função. Os alunos passavam agora a fazer exames às disciplinas nucleares no final de cada ciclo para se aferir o desempenho das escolas: se as notas internas estão ou não muito distantes das notas dos exames, se as metas são cumpridas, se os alunos precisam ou não de mais ajuda, se os alunos aprenderam ou não e porquê. Ninguém foi à 5 de Outubro mostrar o rabo a Nuno Crato e apesar das acusações sobre o regresso à escola "do antigamente" os exames fizeram-se.

Os pais tremeram. Pais que só fizeram exames para concorrerem às universidades, muitos deles que lutaram contra a PGA, agitaram-se por verem os seus meninos a serem examinados com apenas 9 anos de idade. Mas como agora era mesmo a sério, todos levaram a coisa a sério. Exigiram dos professores, exigiram dos filhos e entraram na escola, nos livros, nos programas e nas metas. E os filhos conseguiram. Os que não conseguiram foram apoiados de forma que não houvesse o risco de mais tarde abandonarem o sistema ou que fossem acumulando insucessos.

O sistema educativo está a ser finalmente aferido. Todo: pais, professores, os nossos filhos e as escolas. Este ano os exames são um acontecimento normal, entraram na normalidade da vida escolar de todas as casas e já nem são notícia. Afinal não custa assim mexer no sistema para o melhorar e fazer reformas impopulares. Esperemos, no entanto, que se mantenha assim e que no futuro ninguém se lembre de voltar à escola do antigamente - a das provas de aferição, e estragar todo o esforço que os nossos filhos têm feito. É que eles, ao contrário do PS, levam os exames a sério.

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publicado às 15:40



A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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