Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Poupar os jovens à seca da política

por Inês Teotónio Pereira, em 12.05.14

A minha crónica de sábado no i

 

Em minha casa só há uma televisão, o que faz com que o comando seja o bem mais valioso da sala. Quem tem o comando tem o poder de escolher entre as dezenas de canais que existem e, sendo a diversidade enorme, a guerra é sangrenta. Entre a programação infantil, juvenil, noticiosa, desportiva ou cultural, não há quem se entenda. Se um quer uma coisa, os outros todos ficam amuados e gramam a seca que o mais poderoso escolheu. É assim todos os dias. Só os pais têm o poder absoluto sobre o comando mas, ainda assim, cedemos vezes demais: as vozes histéricas dos canais infantis são as vozes que mais se ouvem na televisão de minha casa, assim como as transmissões de jogos de futebol. O horário nobre é infantil ou desportivo.

Em minha casa, as crianças não vêem notícias, têm medo das fúrias de Constança Cunha e Sá e de Miguel Sousa Tavares, e só dão conta de que há eleições quando percebem que, nesse dia, o comando é mesmo dos pais. Nesses dias retiram-se com ligeireza da sala e abraçam, apaixonados, a play station.

Resultado: os meus filhos não querem saber de política. Contudo, acham que sabem muito porque sabem o nome de meia dúzia de governantes e de políticos. Não os ouvem, não percebem o que eles dizem e também não querem saber. Nós, os pais, também não falamos do assunto; falamos com eles dos assuntos deles e a política não entra nessa lista.

Os meus filhos acham que o futuro deles, a vida deles, não depende da política. Nem lhes passa pela cabeça que a política tenha alguma coisa a ver com o futuro deles, com a vida deles. Os pais, a escola, as notas, sim; os políticos, os partidos, nem pensar. Já lhes chega terem de estudar a Grécia Antiga e os primórdios da democracia. Acham que a consciência política e a participação política do país estão bem entregues aos adultos e que não é nada com eles. Não é só desinteresse, é fobia: a política é qualquer coisa que lhes veda o acesso aos canais desportivos ou infantis.

Os nossos adultos de amanhã estão a ser educados a ver a política como um historiador vê física quântica: não é nada comigo e, ainda por cima, é indecifrável. Os nossos filhos sabem da existência da troika, mas não sabem o que significa a existência da troika. Sabem que vivemos em democracia, mas não sabem o que é um Estado de direito. Sabem o que são eleições, mas confundem o sistema eleitoral com o sistema de votações de um qualquer programa de talentos. O big brother é um programa de televisão e os futebolistas e os treinadores de futebol são as novas referências ideológicas da estratégia e da táctica.

E porque é que é assim? Espero que existam várias teses de mestrado sobre este assunto mas, ainda assim, arrisco uma possível explicação: nós, pais, estamos programados para poupar os nossos filhos a chatices. Para chatices, já existe a escola e os meninos precisam de descontrair e de se entreter quando chegam a casa. Nós, pais, achamos que a política é uma chatice - tenho amigos que consideram conversas políticas, conversas intelectuais; que acham que falar sobre a reforma do Estado ou sobre a revisão da Constituição é uma excentricidade que não se desenvolve à mesa de um restaurante. E como a política é a nossa chatice, nem queremos imaginar os efeitos nefrálgicos que ela poderá provocar nos nossos filhos. Até porque é tudo relativo e a consciência política de cada um deles - se a quiserem ter - deverá ser formada com o tempo e pela vida. Nós não temos nada a ver com isso.

Os nossos filhos devem ser protegidos. E protegê-los é também afastá-los das maleficências da política. Nós estamos convictos de que a democracia é um bem tão garantido quanto o oxigénio, mas ainda assim preferimos ajudá-los a participar nas campanhas do ponto verde do que explicar-lhes os fundamentos da União Europeia ou a crise da Ucrânia. Poupar os nossos filhos a chatices nem sequer é não os levar a comícios, a campanhas eleitorais, a debates ou a conferências. É dar-lhes o comando no minuto em que começam as notícias. É dois em um: poupamos chatices a eles e a nós.

33% dos jovens dos 18 aos 25 anos votaram nas eleições europeias de 2004, 29% votaram nas mesmas eleições em 2009 e apenas 24% dos jovens portugueses anunciaram que vão votar daqui a 15 dias. O que me surpreende não são os mais de 75% que ficam em casa, mas sim os restantes que remam contra a maré e vão votar.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:51


4 comentários

De Marco Neves a 12.05.2014 às 14:18

É a maldição da democracia: torna-se aborrecida. Mas também por isso temos de defender: prefiro que o meu filho viva num sistema político aborrecido do que num sistema político muito excitante — e mortífero. Prefiro que o meu filho tenha a opção de desligar as notícias do que seja obrigado a pegar em armas para lutar contra uma ditadura. Mas para isso temos de nos esforçar para perceber que a seca da democracia pode não durar para sempre. Às vezes desaparece e depois vemo-nos na posição de suspirar pelos bons velhos tempos em que podíamos optar por votar ou não votar.

De Polittikus a 12.05.2014 às 15:05

Cresci numa familia fortemente politizada. Os meus filhos apesar da adoração quasse mitica dos canais infantis, já têm a percepção do que se passa. Sim é que avidinha não são só flores e Violetta... daí a importância de um "NÃO".

De blackened a 12.05.2014 às 16:00

E eu pergunto: quando é que paramos de brincar à democracia? Meus amigos, a primeira Constituição foi escrita nos Estados Unidos por donos de escravos. «All men are created equal», escreveram eles. A conversa ideologicamente atraente da democracia surgiu, porque alguém se lembrou que se calhar até seria mais fácil ser-se ditador, fazendo o povo acreditar que é quem mais ordena. E desenganem-se, que os nossos ditadores não são os nossos políticos. Esses são marionetas, umas oportunistas marionetas.
Sou uma jovem de 19 anos e não vou votar nestas eleições europeias. A minha abstenção é consciente. Acredito que por aí hajam mais abstencionistas perfeitamente conscientes, embora poucos. Porque não votar dá-me todo, mas todo o direito de criticar. Recuso-me a fazer parte desta plutocracia, portanto, colocando-me do lado de fora, tenho o poder de criticá-la. Quem, por outro lado, vai às urnas, tendo mais que provas suficientes que a vontade do povo nem sempre se cumpre, é cúmplice da estagnação social e política. Provas? Tenho já aqui umas prontinhas: ora bem, temos o primeiro vice primeiro ministro desde há muitos anos, que faz parte de um partido que recebeu cerca de 11% dos votos dos portugueses nas últimas legislativas. Temos um Governo de maioria absoluta, quando votámos por um Governo de maioria relativa. Temos sempre os mesmos Governos: PS e PSD. O eleitor médio não tem educação política, portanto, não é preciso muito para fazê-lo acreditar que saberá votar acertadamente. E pelo que vejo, as pessoas levam a política como um desporto. Defendem o seu clube até à morte, mesmo que o clube esteja a ser representado por um parvalhão qualquer. E incrível, é que as pessoas acham mesmo que ir votando PS e PSD alternadamente vai trazer-lhes algum milagre. É para irem mudando de ares, para não enjoarem sempre com a mesma cara a aparecer na televisão, com certeza. E porque é que temos sempre governos de PS e PSD? Porque são dois partidos com grande financiamento, logo mais publicidade. Money rules the world, people.
Portanto, se querem começar a falar de política com os vossos filhos, falem-lhes em como eles têm que saber pensar fora da caixa, têm de aprender a não seguir o rebanho. Mostrem-lhes os debates políticos de retórica oca e previsível. Mostrem-lhes as notícias sensacionalistas. Dêem-lhes a entender que o mundo à volta deles é um espectáculo de magia e eles terão de saber não se iludir. Expliquem-lhes que os adultos não estão minimamente interessados no futuro deles, porque se tivessem, não andariam a brincar às manifestações simbólicas na escadaria da assembleia. Expliquem-lhes que se não se zangarem o suficiente, irão ter de pagar uma vida para o resto da vida deles que nem sequer lhes pertence. Expliquem-lhes que se não se zangarem o suficiente, terão a vida hipotecada. Perguntem-lhes se estudar, trabalhar, consumir e reformar lhes parece um plano ideal de vida. Irão vê-los revoltados e aí saberão que eles estarão absolutamente interessados no que à volta deles se passa.

De becas a 17.05.2014 às 11:14


Acho que pela primeiríssima vez estou em desacordo consigo...Na minha casa também só temos uma televisão por opção convicta ( apesar de me sentir algo pelintra perante as 5 da minha empregda que me esclarece orgulhosa que tem televisões em cada quarto, na sala e na cozinha...) e vou tentar resistir pelo menos até aos 18 do mais velho.
O comando também é gerido com algumas discussões pelo meio mas continua a prevalecer a regra de ouro dos tempos antigos: a partir das 20:00, o comando é dos adultos e o canal é o 3 ( ou o 1). Aquela meia hora antes do jantar serve para que todos vejam as notícias e embora nem sempre fiquem a ouvir até ao fim, serve para que tenham a noção da realidade e não vivam apenas nos seus mundos!
E é assim desde que nasceram. Muitas vezes senti vontade de desligar a televisão perante noticias de massacres, explosões ou quedas de governos e receei pelo impacho em crianças de 3, 5 anos...mas acho que tem sido a melhor opção. Orgulho-me de que os meus filhos conheçam minimamente o mundo e os seus protagonistas, a par dos seus personagens de ficção favoritos.
Por isso acho que nos cabe a nós fazer algumas escolhas para que os nossos filhos não sejam tão ausentes da Mundo...e não limitarmo-nos a dizer que não se interessam pela política e pelas noticias...
[Error: Irreparable invalid markup ('<br [...] <a>') in entry. Owner must fix manually. Raw contents below.]

<BR>Acho que pela primeiríssima vez estou em desacordo consigo...Na minha casa também só temos uma televisão por opção convicta ( apesar de me sentir algo pelintra perante as 5 da minha empregda que me esclarece orgulhosa que tem televisões em cada quarto, na sala e na cozinha...) e vou tentar resistir pelo menos até aos 18 do mais velho.<BR>O comando também é gerido com algumas discussões pelo meio mas continua a prevalecer a regra de ouro dos tempos antigos: a partir das 20:00, o comando é dos adultos e o canal é o 3 ( ou o 1). Aquela meia hora antes do jantar serve para que todos vejam as notícias e embora nem sempre fiquem a ouvir até ao fim, serve para que tenham a noção da realidade e não vivam apenas nos seus mundos!<BR>E é assim desde que nasceram. Muitas vezes senti vontade de desligar a televisão perante noticias de massacres, explosões ou quedas de governos e receei pelo impacho em crianças de 3, 5 anos...mas acho que tem sido a melhor opção. Orgulho-me de que os meus filhos conheçam minimamente o mundo e os seus protagonistas, a par dos seus personagens de ficção favoritos.<BR>Por isso acho que nos cabe a nós fazer algumas escolhas para que os nossos filhos não sejam tão ausentes da Mundo...e não limitarmo-nos a dizer que não se interessam pela política e pelas noticias...<BR class=incorrect name="incorrect" <a>Bjs</A>

Comentar post



A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
ver perfil

Livros da mãe






Seguir no Facebook


Pesquisar

  Pesquisar no Blog