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Ser mãe

por Inês Teotónio Pereira, em 05.05.14

 A minha crónica de sábado no i 

 

Não existem mães que não gostem de ser mães. Queixamo-nos, sofremos, temos dias em que só nos apetece que alguém nos empurre de uma janela, mas ainda assim gostamos de ser mães. Nunca conheci uma mãe que se tivesse arrependido de ser mãe. Não se está mãe, é-se mãe. E isso faz toda a diferença. Ser mãe não é uma profissão, uma ocupação ou mesmo uma função. Não se pode trocar, evoluir, mudar ou desistir. É-se mãe até ao final da vida e ao mesmo tempo desempenham-se várias funções, missões, profissões e ocupações. As mães não conciliam, são sempre mães a qualquer hora e em qualquer idade.

Olhamos para os nossos filhos como parte integrante de nós: se eles sofrem, nós sofremos; se eles riem, nós rimos; se eles estão doentes, nós ficamos doentes - a nossa felicidade depende da felicidade deles. Ora isto parece lindo e maravilhoso mas dificulta-nos seriamente a vida e traz-nos imensos problemas adicionais. Não há dia melhor que o Dia da Mãe para falar sobre isso.

O primeiro problema de todos é que temos forçosamente de nos tornar melhores pessoas. E isso dá um trabalhão dos diabos. Os filhos exigem mais das nossas qualidades do que dos nossos defeitos. Esticam-nos até ao limite da santidade e só param quando levam um grito ou uma palmada. Exigem que sejamos um saco sem fundo de qualidades e não têm qualquer compreensão pela nossa condição humana. Por eles, nós não tínhamos defeitos, seríamos sempre pacientes, compreensivas, atenciosas, pontuais, humildes, organizadas, animadas, altruístas e muito generosas. E a culpa é nossa: partimos do princípio que na hierarquia das pessoas os filhos estão no topo, por isso a nossa função é servi-los, proporcionar-lhes bem-estar, conforto, amor, etc. O facto de constantemente comermos os restos dos pratos deles diz tudo sobre o lugar onde nós próprias nos encaixamos. Ser mãe traz-nos este enorme problema que é termos de ser melhores do que de facto somos. E isto todos os dias cansa.

O segundo grande problema está ligado ao primeiro e tem a ver com remorsos. Uma mãe acha que não faz tudo como devia fazer, que não é perfeita. Ora os nossos filhos merecem a melhor mãe do mundo e nós estamos longe de ser as melhores mães do mundo. Há sempre uma vizinha melhor que nós: mais paciente, mais organizada, mais dócil, mais criativa, mais qualquer coisa. As crianças bem podem fazer desenhos com declarações de amor lindas, que nós não acreditamos numa palavra. São crianças, coitadinhas... E ficamos ainda com mais remorsos por acharmos que os estamos a enganar. Vivemos soterradas em culpa que acumulamos diariamente mesmo que ninguém nos culpe de nada. É irracional, mas é assim mesmo (a Sónia Morais Santos publicou recentemente um livro sobre isto que vale a pena ler: "A Culpa não É sempre da Mãe"). Uma mãe não devia ter defeitos e um dos nossos grandes problemas é que apesar de mães continuamos cheias de defeitos.

O terceiro grande problema das mães são os filhos, o futuro dos filhos. Uma mãe vive a preparar o filho para a vida. Tipo missão. É por isso que dormimos pouco, trabalhamos muito, comemos os restos dos pratos da criançada, voltamos a estudar para os ajudar a estudar, deixamos de ter uma vida social digna desse nome, relegamos os maridos para o lugar de pai dos nossos filhos e empobrecemos vertiginosamente. Pelo futuro dos nossos filhos, por eles, pela realização plena de cada um deles, fazemos tudo. Atabalhoadamente fazemos tudo. Abafamos a criança com actividades extra, desportos extra, vitaminas extra, importância extra, conforto extra, açúcar extra, presentes extra, brinquedos extra e muitos, muitos extras.

Até que o futuro chega. E o que traz o futuro? Uma nora que não estava nos nossos planos, um curso sem saída, amigos que não são os filhos dos nossos amigos, roupas que não têm nada a ver com a nossa noção de estilo, gostos de que não gostamos e escolhas que não entendemos. O terceiro grande problema das mães é quando percebemos que os nossos filhos afinal não são um bocado de nós, mas sim pessoas como nós, irreverentemente autónomas. É quando percebemos que a nossa magnitude é efémera, que a vida dos filhos não se planeia, que se proporciona conforme a natureza de cada um e não conforme a nossa.

Soubéssemos nós tudo isto antes de eles nascerem e teríamos certamente dormido melhor. Por outro lado, não teríamos gavetas cheias de desenhos a dizer que somos a melhor mãe do mundo. E somos, cada uma de nós.

 

 

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publicado às 11:09



A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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