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A indisciplina começa em casa

por Inês Teotónio Pereira, em 06.04.14

 

Crónica de sábado no i 

 

Esta semana tenho dormido mal à conta do livro de Maria Filomena Mónica editado pela Fundação Manuel dos Santos sobre a indisciplina na escola pública. Os relatos feitos por alunos e professores de situações que vivem nas escolas são uma descrição de anarquia. No entanto, estou convicta de que a esmagadora maioria das escolas públicas não são assim e que existem muitas com mais disciplina do que muitas escolas privadas: tudo depende das escolas que selecionamos para termos relatos para todos os gostos. Mas nem por isso deixo de ter pesadelos com os diários publicados por Maria Filomena Mónica.

Também esta semana foi noticiado um estudo que está a ser desenvolvido pela Universidade do Minho sobre a indisciplina entre o 1.o e o 9.o ano, também nas escolas públicas. Neste estudo, os professores dizem sentir maior indisciplina nas escolas. Apesar de não haver um número coerente de ocorrências que substancie esta percepção dos professores, não faz com que esta percepção deixa de ser um dado bastante importante. Ainda na senda na indisciplina soubemos, também esta semana, que um agrupamento de escolas de Vila Nova de Gaia iniciou uma campanha de sensibilização aos pais para alterarem os hábitos dos filhos. Diz o director do agrupamento: "Temos muitos miúdos que chegam à escola cansados, com sono, desmotivados e sem ânimo. Até temos casos em que adormecem na sala de aula. Uma das principais razões prende-se com o facto de não dormirem o suficiente, porque estão muitas horas nos jogos de computador e nas redes sociais."

A indisciplina e o desinteresse dos alunos estão, portanto, na ordem do dia. Algumas das grandes preocupações das escolas são os maus hábitos dos alunos que prejudicam a aprendizagem, a vida dos professores e são causa de insucesso e abandono escolar. É óbvio que depende das zonas, das condições e dos meios escolares a maior ou menor incidência destes fenómenos, mas não é por isso que o problema deixa de ser transversal. Também me parece claro que já tudo se fez em termos de legislação, quer em termos preventivos ou sancionatórios, em relação ao tema da disciplina.

Sendo assim, o que fazer para alterar esta percepção dos professores, os relatos do livro de Filomena Mónica e responder às pretensões do director de Vila Nova de Gaia? Antes de mais é preciso ter a consciência que a resposta já não está nas mãos da escola ou do Ministério da Educação e muito menos em mais legislação. Por mais que os professores ameacem, participem e sancionem os alunos, e por mais que os governos produzam legislação, é em casa, dentro de cada casa, que em primeira instância se previne a indisciplina, que se criam hábitos de estudo, de saúde ou de sono. É em casa que se criam as regras, incluindo o respeito, que são transportadas por cada aluno para cada sala de aula. Os pais são peça principal e o agrupamento de Vila Nova de Gaia viu muito bem o problema. Um aluno que não esteja interessado na escola não passa a estar preocupado com o seu desempenho escolar apenas porque lhe são aplicadas, em contexto escolar, medidas disciplinares ou de índole preventiva. A escola não é uma outra dimensão da vida dos nossos filhos e os nossos filhos não deixam de ser quem são por serem alunos. Antes de serem alunos são filhos de alguém: alguém os educou. A escola não educa, a escola complementa a educação que cada um traz de casa. E a escola também não faz milagres, tenha ela ou não candeeiros de Siza Vieira ou os melhores professores. Se os filhos não forem responsabilizados em casa, não há professor, por mais brilhante que seja, que consiga fazer o aluno cumprir se ele não quiser cumprir. A escola não pode determinar a forma como os alunos falam com os professores, quais as horas de sono de cada um, se podem ou não dizer palavrões, se cumprem ou não os seus deveres de estudo. Se um aluno insulta e desobedece aos pais qual a razão para não fazer o mesmo aos professores? Tudo começa em casa. Quem manda na escola, mais do que os professores ou o Ministério da Educação, são os pais. São eles quem determinam se as regras impostas por dezenas de leis são ou não cumpridas pelos seus filhos. Se nem pais nem filhos estiverem dispostos a isso, Filomena Mónica pode começar a pensar em fazer uma trilogia. No mínimo.

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publicado às 22:49


A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
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