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Também é o dia dos livros infantis

por Inês Teotónio Pereira, em 02.04.14

 

 

Escrever livros para crianças é muitíssimo mais complicado do que escrever livros para adultos. Nós adultos, engolimos tudo. Lemos livros para adormecer, livros para descontrair, livros para aprender, para viajarmos no tempo, para nos divertir, etc. Gostamos de vários géneros ou estilos e muitas vezes gostamos de livros só porque a história nos entretém ou o estilo é diferente. Muitas vezes, basta um livro estar bem escrito ou ter o mínimo de ritmo para nós gostarmos dele. Para nós um livro é bom  se nos "prende"... No fundo, somos pouco selectivos com a literatura além de muito versáteis. Daí que toda a gente consiga escrever um livro para adultos (eu, por exemplo, já escrevi dois). Os livros que são para nós podem ser perfeitamente fúteis e até sem sentido que nem por isso deixam de ganhar prémios literários. Para qualquer livro, há sempre "um público" e isso resolve todos os dilemas de qualquer autor que queira ser autor. 

Com as crianças o desafio é outro. As crianças são um único público e são um público que nós não conhecemos e que entendemos muito mal. São selectivos, exigentes, não fazem esforço para gostar do estilo e são absolutamente instintivos.  Eu tenho a convicção de que só os génios conseguem escrever livros para crianças. Livros realmente para crianças e não histórias tontas que passam atestados de estupidez a todas as crianças se excepção. Por exemplo, alguém, no seu juizo perfeito, sem uma pinga de génio, conseguiria escrever uma história tão absurda quanto Alice no País das Maravilhas?   

As crianças têm uma cabeça completamente diferente da nossa. Para elas tudo é possível, não existem limites para o absurdo, e, no entanto, tudo tem de fazer sentido. A histórias têm de ter um "moral da história" ou não servem para nada e os livros acabam todos pintados ou rasgados. Qualquer história infantil tem de responder a todos os porquês que as crianças vão fazendo - e elas são exímias em encontrar porquês. Nada, absolutamente nada, pode ficar sem resposta num conto infantil e quanto mais absurdas forem as respostas, melhor.

Escrever para crianças é o maior desafio de qualquer escritor, pois em todas as histórias deve existir sempre um dilema moral ou as crianças não as engolem. Claro que o facto de serem cada vez mais raros os dilemas morais faz com que existam muito pioucos contos infantis modernos que prestem alguma coisa (assim. de repente, não me lembro de nenhum que consiga cativar as massas). Os livros para crianças têm de ser, de facto, os mais sérios e filosóficos de todos. Os dos adultos, esses sim, podem ser meras infantilidades. 

 "Nenhum livro para crianças deve ser escrito para crianças", escreveu Fernando Pessoa

 

Posto isto aqui vai a lista de alguns do meus génios infantis (razões mais do que suficientes para eu jamais me atrever a escrever um livro para crianças - estão aqui todos os dilemas morais que me ocorrem e as respectivas resoluções, não tenho mais nada a contar às crianças):   

 

 

O Príncipe Feliz, O Amigo Fiel, O Filho da Estrela, O Gigante Egoísta, O Notável Foguete e O Rouxinol e a Rosa,

de Oscar Wilde 

 

A menina do Mar, A fada Oriana, Noite de Natal, O Cavaleiro da Dinamarca, O Rapaz de Bronze, 

de Sophia de Mello Breyner 

 

Os Sapatinhos Vermelhos, O Soldadinho de Chumbo, A Pequena Vendedora de Fósforos e A Rainha do Gelo,

de Hans Christian Andersen 

 

Os contos de Grimm, 

dos Irmãos Grimm 

 

O Hobbit e O Senhor dos Anéis. 

de Tolkien 

 

As crónicas de Nárna, 

de CS Lewis

 

 

 

 

 

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publicado às 14:07


1 comentário

De Fátima Bento a 02.04.2014 às 22:57

Alice no País as Maravilhas, tendo nascido a partir de uma história para entreter crianças num passeio de barco, não é TÃO SÓ uma história infantil, como saberá.
Recebi uma cópia do original em pequena, capa preta com arabescos prateados e réplicas das ilustrações originais. Nunca o consegui ler de capa-a-capa, e de cada vez que tentava tinha pesadelos horríveis. Já adulta, não conseguia gostar da história.
Depois fui lendo as interpretações da mesma, e a desconstrução da 'paranóia' que reina na obra, e fiz as pazes com aquela obra de Lewis Carrol, aliás, Charles Lutwidge Dodgson. No entanto continuo a achá-la das criações mais psicológica e emocionalmente violentas 'ditas-e-tomadas-como' para crianças.
Até na Disneyland, com 38 anos, entrei em parafuso no labirinto da Alice. Salvou-me um pequenote que descobriu que uma sebe não o era, e sim uma porta escondida...

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Autora

Inês Teotónio Pereira
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