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Tenho uma dúvida

por Inês Teotónio Pereira, em 21.10.14

Crónica desta semana no i sobre a minha genialidade maternal 

 

Eram sete da manhã. Hora da correria. O bebé chorava infeliz atrás das grades da cama, encharcado em xixi porque a fralda se descolou durante a noite. Dois dos rapazes lutavam por uma qualquer razão que tem a ver com o facto de serem rapazes e de passarem os dias a lutar. Outro cantava alegremente na banheira enquanto a fila de aflitos aumentava do lado de fora da porta. Ela, cheia de sono, recusava-se a sair da cama, na esperança de que aquele podia ser o dia em que a sua existência seria esquecia. Mas tem azar: ninguém se esquece da única menina. Da casa de banho continuava a ouvir-se a cantoria e os gritos desesperados de duas crianças agarradas à pilinha. Entretanto, o mais ágil e organizado guerreiro da manhã esgueirava-se, cheiroso, já vestido e alimentado, para a frente da televisão, para ouvir as primeiras da manhã sobre a última jornada.

Enquanto tudo isto se passava, eu questionava-me em silêncio sobre a razão que impede os meus vizinhos de venderem a casa. Ninguém merece ser acordado aos gritos por seis crianças que não lhes pertencem às sete da manhã. Sossegada, na cozinha, e absorvida por estes pensamentos enquanto o pai ia concorrendo com o cantor da banheira pela água quente, outro dos meus filhos, calmo e sereno, entrou na cozinha e declarou: "Mãe, eu tenho três perguntas para fazer. A primeira é: se Deus criou o universo, quem é que criou Deus? A segunda é: porque é que sou eu que existo e não outra pessoa qualquer? E a última é: se foi Deus que criou o homem, porque é que ele não cria mais bebés, em vez de serem só as mães a terem bebés?"

Sentei-me. Às sete da manhã, o meu cérebro tem falta de açúcar e alguns neurónios são como a minha filha e fingem que estão a dormir. Naquele instante passou-me pela cabeça usar a escassez de açúcar e o estado sonolento dos neurónios como argumentos para não responder às três questões. Mas não tive coragem. E, de repente, ocorreu-me: espera lá, eu sei as respostas. E sei. Ter muitos filhos fez de mim um génio: sei dizer porque é que as estrelas não caem, onde é que estão os anjos, para onde vamos quando morremos, porque é que o sol queima, porque é que os animais não falam, em que é que os bebés pensam, etc., etc., etc. Sei eu e sabem todos os pais. As crianças, meus senhores, fazem todas as mesmas perguntas e isso, claramente, ajuda. E estas são de algibeira: quanto à primeira respondi enigmaticamente que Deus criou Deus; à segunda, entrei na ironia: Deus criou o homem, Deus não faz bebés... E à última não respondi. Disfarcei. Fácil. Ao fim de cinco filhos, é fácil.

É verdade que, com o primeiro filho, sofremos: vamos ao Google, telefonamos aos amigos, consultamos livros e damos uma resposta científica ou filosófica, conforme a natureza da questão. Sim, dá trabalho. Mas com o segundo filho, percebemos que as perguntas que atormentaram o espírito do primeiro são mais ou menos as mesmas que atormentam o espírito do segundo. Por isso, só temos de apurar o raciocínio. Quando chegamos ao terceiro filho, constatamos que nem o primeiro nem o segundo ligaram patavina ao que nós dissemos e que, passados apenas dois ou três anos, já se esqueceram das respostas. Percebemos que devemos apostar na simplicidade infantil do tipo: "As estrelas não caem porque não devem cair." E pronto, está lá tudo. Mais que se queira dizer a uma criança de cinco anos sobre a razão que sustém as estrelas no céu é informação absolutamente inútil. Aprende-se isto com o terceiro filho. Com os outros filhos, simplificamos ainda mais o processo e resolvemos tudo com livros. Cada pergunta tem direito a um livrinho esclarecedor. Quando as estantes estão cheias, eles acabam por desistir das perguntas, com medo de serem obrigados a ler tantos livros. Mais fácil ainda.

Entretanto, alguém sabe porque é que foi este meu filho a nascer, em particular, e não outra pessoa qualquer? Ou um livro que explique o fenómeno? É que esta não sei mesmo.

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publicado às 12:35


4 comentários

De Mãe Sabichona a 21.10.2014 às 13:13

"As estrelas não caem porque não devem cair." :D

De Vasco a 25.10.2014 às 11:27

Eu não sei bem se consigo responder à sua pergunta,

"porque é que foi este meu filho a nascer, em particular, e não outra pessoa qualquer?",

mas à falta de uma resposta mais rigorosa posso sugerir o que me ocorreu,

o seu filho nasceu porque Deus quis que existisse uma pessoa exactamente como ele, suponho que deve ser porque gosta muito dele, se fosse diferente (como outra pessoa qualquer) creio que Deus não tinha ficado satisfeito e teria de desfazer o que fizera (o que não é impossível, mas é um bocado trapalhão e trabalhoso, para além de parecer um pouco impróprio de Deus, que é suposto ser perfeito)

(claro que isto parece uma trivialidade, mas de uma maneira ou outra parece-me que todos procuramos a respostas melhores para essas perguntas, e talvez as respostas estejam à frente do nosso nariz, mas por estarem tão perto talvez não consigamos ficar satisfeitos com elas)

De Ana G. a 27.10.2014 às 11:32

Há tempos pensava que há pais que stressam imenso com tudo e com nada, e que dão uma enorme importância a certas coisas que se calhar são fúteis, desnecessárias ou simplesmente não importam aos miúdos. E dão uma enorme importância pela simples razão que não têm prática em ter filhos :) . Ou seja, quando se tem um primeiro filho há coisas complicadíssimas e aquele filho torna-se o centro de tudo, pelo que se não conseguimos fazer o bolo para a escola ou substituir os ténis naquela semana ficamos cheios de remorsos. Quando se tem mais filhos aprende-se a ser pai e ser mãe, aprende-se a pôr as coisas no lugar: as importantes em primeiro, as menos importantes depois e as sem grande importância, que até se podem deixar cair, para último. Há alguns sortudos que quando são pais pela 1ª vez já têm este discernimentos mas a maioria, onde eu me incluo, só mesmo com prática e com muita leitura ou conversa com outros como eu. Mas é tão melhor ser pai e ser mãe com esta leveza!
Tudo de bom e obrigada ela partilha!

De RIta Melo a 29.10.2014 às 14:37

Em relação à terceira (filha) a resposta a uma pergunta semelhante foi dada pela primeira: «a mana existe porque eu pedi ao Pai Natal, não foi mãe?!» LOL

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A Um Metro do Chão o mundo está cheio de pernas e tem de se olhar para cima para ver o céu - o que faz toda a diferença. O preto é mesmo preto e o branco é branco. As coisas são todas assustadoramente concretas e ninguém aceita argumentos, só respostas. Não é um mundo melhor, pior ou mais verdadeiro; é apenas diferente, apesar de ser o mesmo. Este blogue é sobre isso. E sobre uma coisinha ou outra que pode não ter nada a ver.

Autora

Inês Teotónio Pereira
iteotoniopereira@gmail.com
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